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No dia 4 de Dezembro de 2024, a rotina ainda parecia intacta em Morrumbala. Duas mesas ocupadas, seis clientes e produção em curso marcavam o ritmo normal da padaria de Cíntya José, instalada junto ao mercado, perto da sede distrital da Frelimo e do tribunal. “Ouvimos que havia confusão no mercado. O ambiente ficou estranho”, recorda. A decisão foi imediata: guardar o que fosse possível e proteger o espaço. Não houve tempo. “Quando estavam a passar para a cadeia, saíram alarmados e meteram fogo.” Cíntya afastou-se e, de um ponto próximo, assistiu ao que se seguiu. “Só fiquei a assistir aquilo a pegar fogo.” O incêndio consumiu o espaço e, com ele, anos de trabalho acumulado. Nesse mesmo dia, deixou o distrito. Quando regressou, já não havia praticamente nada.
Seguiram-se semanas sem actividade, atravessando Dezembro, Janeiro e Fevereiro. A padaria que tinha sido construída de forma progressiva, a partir de um financiamento inicial de 84 mil meticais, expandido com os lucros para uma pequena operação com take away e cerca de 10 trabalhadores, deixara de existir. O regresso a Morrumbala, em Março, não significou uma retoma imediata, mas a possibilidade de procurar um novo ponto de partida. Essa possibilidade surgiria durante um encontro com o Presidente da República, Daniel Francisco Chapo, na cidade de Mocuba, onde apresentou o seu testemunho. A resposta combinou instrumentos distintos: um financiamento de cerca de 432 mil meticais, no âmbito do Fundo de Apoio a Iniciativas Juvenis, destinado à reparação do edifício e com reembolso em dois anos, e a atribuição de equipamento de panificação no contexto do Prémio Jovem Criativo, permitindo a instalação de uma unidade com capacidade industrial.
A nova padaria abriu a 25 de Maio de 2026. No dia seguinte, a procura obrigou a duplicar a produção, sinalizando uma absorção imediata pelo mercado local. Em poucos dias, a operação passou de 25% para cerca de 50% da capacidade instalada, com actividade centrada em encomendas e fornecimento para eventos. Hoje, o negócio emprega 12 trabalhadores, dos quais dois são efectivos e os restantes sazonais, mobilizados em função da procura e remunerados através de subsídios ajustados à actividade. Apesar da nova escala, o objectivo imediato permanece ligado ao que existia antes da interrupção: reabrir a componente de take away, que constituía o núcleo do negócio inicial.
Entre o momento em que o espaço foi destruído e o dia em que o forno voltou a acender-se, passaram meses em que tudo esteve suspenso. A história não se resume ao incêndio nem à reabertura, mas ao intervalo entre ambos, um tempo em que a actividade cessou, o rendimento desapareceu e a continuidade deixou de ser garantida. É nesse intervalo que se percebe o custo de perder e o significado de voltar a começar.



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