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O Director Executivo do MISA-Moçambique, Ernesto Nhanale, defendeu esta quinta-feira, em Maputo, que a viabilidade económica dos órgãos de informação é a única garantia real para a sua independência editorial e funcional. O director do MISA explicou que a baixa competitividade da economia nacional faz com que o investimento publicitário esteja concentrado em poucas grandes empresas, o que limita o crescimento dos órgãos privados. A situação é agravada pelo domínio das plataformas digitais globais, que segundo Ernesto Nhanale, funcionam como “aspiradores” da publicidade local sem produzirem qualquer conteúdo original.
Durante a sua intervenção na Conferência Nacional sobre a Sustentabilidade dos Media, o responsável sublinhou que, para cumprir a sua função democrática, os órgãos de comunicação social devem possuir bases financeiras que os protejam de influências externas.
“para além de serem úteis, os media devem ser independentes e para ter independência, devem dispor de boas bases económicas, suficientes, capazes de dispensar a subvenção, a tutela e o controle,” disse.
O centro da reflexão de Nhanale incidiu sobre a profunda crise no mercado da publicidade, que tradicionalmente sustenta o jornalismo. O director do MISA explicou que a baixa competitividade da economia nacional faz com que o investimento publicitário esteja concentrado em poucas grandes empresas, limita o crescimento dos órgãos privados.
“O fator de rentabilidade dessas empresas é feito através de duas vias de venda: o mercado da publicidade e as audiências. Se nós não temos empresas fortes, se nós não temos uma economia forte e resiliente, capaz de prover um mercado publicitário muito consistente, nós não vamos ter nenhum retorno”, advertiu o orador, questionando ainda a capacidade das audiências moçambicanas para pagarem por conteúdos jornalísticos quando ainda carecem de necessidades básicas.
Nhanale altertou ainda para o domínio crescente das plataformas digitais no mercado publicitário. O responsável detalhou como estas plataformas utilizam algoritmos e inteligência artificial para captar anunciantes que anteriormente investiam na imprensa nacional.
“Eles são capazes de usar a inteligência artificial para ler o comportamento de cada um. Uma empresa pequena que tem um pequeno anúncio de perfumes, se sabe que o Facebook já identificou os consumidores, não vai gastar 20.000 meticais num órgão de notícias; vai preferir pagar 50 dólares no Facebook”, exemplificou, reforçando que as plataformas digitais estão a drenar os recursos que deveriam alimentar o jornalismo de interesse público.
Ao finalizar a sua abordagem, Ernesto Nhanale lançou um apelo à soberania e independência cultural de Moçambique face aos desafios tecnológicos. Para o diretor do MISA, a ausência de dados produzidos localmente e a dependência tecnológica colocam o país numa posição de vulnerabilidade perante as grandes potências e indústrias culturais globais.
“Vamos continuar na mesma pirâmide do imperialismo cultural se nós não formos capazes de produzir dados sobre nós próprios. Vamos permitir que as grandes potências estejam em supremacia em relação a nós, se nós não nos aproveitarmos dessas tecnologias para potenciarmos a nossa indústria”, concluiu, instando o sector a reflectir não apenas sobre a economia dos milhões, mas sobre a independência do pensamento nacional.



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