Banco de Moçambique alerta que preços dos combustíveis podem voltar a subir

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  • Após assessorar Governo a usar reservas para pagar o FMI

Os preços dos combustíveis poderão voltar a registar agravamentos a curto e médio prazo, impulsionados pela aceleração da inflação projectada, que ameaça aproximar-se novamente dos dois dígitos. O alerta foi lançado esta segunda-feira pelo Comité de Política Monetária (CPMO) do Banco de Moçambique, que decidiu interromper o ciclo de cortes e manter a taxa de juro de política monetária (MIMO) fixada em 9,25%. O alerta de agravamento estende-se também para os preços preços dos bens alimentares essenciais, o que significa, automaticamente, um aumento do custo de vida.

Evidências

A autoridade monetária justificou a decisão com o aumento das incertezas internacionais e o agravamento dos riscos fiscais internos. O aviso estende-se igualmente aos preços dos bens alimentares essenciais, sinalizando um possível agravamento do custo de vida nos próximos meses.

O alerta surge poucas semanas após o mercado nacional ter registado um reajuste em alta nos preços dos combustíveis, seguido de um período marcado por dificuldades de abastecimento. Na altura, o Governo foi obrigado a intervir através de subsídios ao sector dos transportes públicos de passageiros, numa tentativa de travar a subida imediata das tarifas, facto visto com desconfiança pelos operadores que exigiram um incremento imediato.

Contudo, o encarecimento das importações e as pressões internacionais continuam a desafiar as medidas de contenção adoptadas pelo Executivo. Para o Banco Central, a trajectória macroeconómica entrou numa fase crítica de vigilância.

Ao apresentar o actual cenário económico, o governador do Banco de Moçambique, Rogério Zandamela, reconheceu que a instituição foi obrigada a agir preventivamente perante o risco de a inflação regressar aos dois dígitos.

“Os riscos que estamos a observar no contexto externo estão a levar a inflação projectada, a curto e médio prazo, para níveis próximos ou mesmo já de dois dígitos”, afirmou.

Segundo Zandamela, apontado como o principal arquitecto da irresponsabilidade financeira que culminou com o pagamento de cerca de 700 milhões ao FMI, um dos principais factores de pressão externa continua a ser a crise prolongada no Médio Oriente, cujos efeitos sobre as cadeias logísticas globais, rotas de abastecimento e custos internacionais de transporte já se reflectem no aumento do preço das mercadorias importadas.

Face à aceleração da inflação anual, que passou de 3,4% em Março para 4,4% em Abril de 2026, o Banco Central decidiu reforçar as medidas de absorção de liquidez, aumentando o coeficiente de Reservas Obrigatórias em moeda nacional de 29% para 39%. O objectivo é retirar excesso de meticais em circulação e conter as pressões inflacionárias.

“As decisões têm de reflectir a realidade presente e futura. Quero acreditar que esta situação vai melhorar e que poderemos retomar a trajectória de redução da taxa de juro, interrompida após mais de 24 meses de cortes consecutivos. Mas os riscos são elevados”, explicou.

Além das pressões externas, a economia moçambicana enfrenta dificuldades internas ligadas ao crescimento da dívida pública e aos atrasos no pagamento das obrigações do Estado. Dados do CPMO indicam que a dívida pública interna, excluindo contratos de mútuo e responsabilidades em mora, atingiu 493,1 mil milhões de meticais, representando um aumento de 18,5 mil milhões em relação a Dezembro de 2025.

Zandamela admitiu que os atrasos nos pagamentos a instituições financeiras e credores multilaterais reflectem fragilidades de tesouraria do Estado, afectando a liquidez do mercado e aumentando os riscos económicos.

Apesar disso, destacou o papel da banca comercial na manutenção da estabilidade financeira e rejeitou cenários de colapso no sistema bancário nacional. No mercado cambial, o governador reiterou que o Banco de Moçambique não voltará a financiar directamente a importação de combustíveis através das reservas internacionais.

“Já explicámos várias vezes por que saímos desse modelo e não temos intenção de voltar. Sustentar o financiamento dos combustíveis com reservas do Banco Central está fora de cogitação”, declarou.

Zandamela também reafirmou a posição da instituição de não fixar artificialmente a taxa de câmbio do metical face ao dólar, defendendo que o valor da moeda deve continuar a ser determinado pelo mercado.

“Abandonámos a mentalidade de controlar a taxa de câmbio. Já fizemos isso antes e os resultados não foram satisfatórios”, recordou.

O governador concluiu defendendo que o acesso ao crédito deve continuar dependente da capacidade de pagamento dos clientes, sublinhando que o sistema financeiro opera com base em critérios de solvabilidade e gestão de risco.

“O crédito não é um direito automático. Depende da capacidade real de honrar compromissos”, concluiu, reiterando que o Banco Central continuará focado na estabilidade do metical e na solidez do sistema financeiro nacional.

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