O novo “” Buffalo Soldier”

OPINIÃO
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Estêvão Chavisso

Em Maio de 1983, dois anos após a morte de Bob Marley, os The Wailers, banda por ele originalmente criada, lançaram o álbum “Confrontation”, composto por 10 faixas inéditas de Bob, incluindo aquele que pessoalmente considero um hino de Consciência Negra: ” Buffalo Soldier “.

Esta obra-prima de Marley, composta com a participação de Noel George Williams em 1980, é baseada na história dos soldados negros da cavalaria norte-americana: “os “Buffalo Soldier”, os primeiros regimentos compostos inteiramente por negros no exército regular norte-americano, em 1866.

Designados oficialmente os United States Colored Troops, segundo a historiografia contemporânea, mais de 200 mil negros juntaram-se voluntariamente à União (O Norte) para combater a Confederação (O Sul), que queria manter o modelo esclavagista e após Abraham Lincoln, o 16.º Presidente dos EUA, abolir a escravatura.

A historiografia contemporânea não tem consensos sobre a origem da designação “Buffalo Soldier”, mas, geralmente, assume-se que foram nativos americanos que atribuíram esta designação aos soldados negros dos EUA durante as Guerras Indígenas no século XIX, devido a supostas semelhanças físicas entre os soldados e os búfalos, animais sagrados para os nativos, bem como resistência e coragem em combate.

Embora sem ser oficial, o nome prevaleceu, sobretudo com crescimento do estatuto e importância dos soldados negros naquele contexto. Entretanto, actuando ainda num contexto de segregação racial profunda, havia clara separação entre os soldados brancos e negros.

Por um lado, os “Buffalo Soldier” eram unidades cridas, primeiro, pela própria necessidade do exército de ter mais militares, garantindo a sua expansão e mantendo a segurança nas fronteiras após anos de Guerra Civil Americana.

Por outro lado, ainda sob fantasmas do passado de escravidão, os negros viram na adesão às tropas norte-americanas uma oportunidade para melhores condições de vida, provar igualdade racial e garantir direitos civis, o que nunca realmente veio a acontecer.

A missão da cavaleira negra era curiosamente combater tribos nativas americanas, proteger colonos “brancos” e suas propriedades.

Marley, traçando o paralelo entre os “Buffalo Soldier” e a diáspora negra no mundo, contou, nesta música, o histórico paradoxo da sobrevivência destes soldados, que empunharam armas contra os verdadeiros povos nativos da América para proteger o “branco invasor,” autor, num passado não distante, de um bárbaro sistema esclavagista que dizimou, aos milhares, os seus antepassados.

Passaram-se 160 anos desde primeiros regimentos compostos inteiramente por negros no exército regular norte-americano e 46 desde que Bob compôs este hino de Consciência Negra. Hoje, embora muito tenha mudado, penso, ao som do próprio Marley: quantos “Buffalo Soldier” ainda andam pelo mundo espalhados?

No coração do Ocidente, da herança clássica e mediterrânica (Lisboa, Madrid, Roma e Atenas), ao peso histórico imperial e centro do poder político (Bruxelas, Paris, Londres e  Berlim), até ao norte da Europa ( Estocolmo, Oslo ou Helsínquia), quantos africanos, descendentes e ou originalmente nascidos no continente, lutam diariamente pela sobrevivência, expostos ao racismo, à xenofobia e, por vezes, à miséria, tendo de defender os interesses económicos dos que outrora sacrificaram os seus antepassados a partir de um sistema esclavagista criminoso?

É o mesmo sistema que esteve na base do desenvolvimento destas grandes metrópoles, construídas a partir de matéria-prima e mão-de-obra escrava africana. Curiosamente, hoje, em parte, são os descendentes destes escravos que limpam as ruas destas cidades.

O Wilfried Martens Centre for European Studies estimava que, em 2025, existiam quase 9 milhões de imigrantes africanos a residir nos países da União Europeia (2% da população total do bloco). Na maioria, empregados em áreas de mão-de-obra intensiva, com destaque para sectores de serviços e limpeza, construção civil ou agricultura.

A diferença, provavelmente, está no facto de que hoje já não são necessários negreiros para os levar ao Ocidente. Os novos “Buffalo Soldier” não foram “roubados de África”, como Bob cantou. Os novos “Buffalo Soldier” foram voluntariamente para o coração do Ocidente, atravessando o Mar Vermelho em embarcações precárias, se necessário, numa das rotas mais mortíferas do mundo.

Fazem-no dentro de um direito que lhes é legítimo: o direito de sonhar, já que, em casa, as oportunidades ficaram apenas no papel dos discursos vazios que pintaram a história das independências africanas.

Foi a corrupção que destruiu o sonho africano? Sim, mas o Ocidente, que hoje reclama a “invasão” africana, tem responsabilidade sobre o que se passou. Primeiro, pelos genocídios, massacres e escravatura e, segundo, pela delapidação de recursos em benefício das metrópoles, bem como pelo severo ataque às identidades culturais.

Por um lado, atacado por um Ocidente cada vez menos tolerante e, por outro, julgado, em casa, por ter tido a coragem de partir para não deixar morrer os sonhos, o novo “Buffalo Soldier” não tem bandeira.

Ferido e longe da manada, hoje, o novo “Buffalo Soldier” luta desarmado, distante da sua história e ancestralidade, embora, por “defeito de fabrico”, o instituto de sobrevivência prevaleça sempre, mantendo-se apenas a ambição que aqueles 200 mil negros que se juntaram voluntariamente ao exército norte-americano tinham em 1866: dignidade, reconhecimento e auto-afirmação.

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