Quando trabalhar mais não basta

OPINIÃO
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Celina Henriques

Quando o primeiro raio de sol ainda procura romper a neblina sobre as montanhas na Serra da mesa, o Senhor “Moteriya”  já caminha para a sua  machamba de arroz, com a enxada ao ombro. Trabalha até o sol se esconder outra vez, com uma pausa curta para comer quando a sombra já se posiciona à frente de si,  quase ao meio dia. Ao fim do dia, está exausto, mas a colheita continua pequena, ano após ano. O Senhor Armando não é um homem que trabalhe pouco. É, pelo contrário, um homem que trabalha imenso e colhe pouco. E é exactamente aqui que se esconde o verdadeiro desafio de Moçambique: o país multiplica o esforço sem conseguir multiplicar a riqueza.

Antes de avançar, vale a pena esclarecer algo que se confunde com frequência: produtividade não é sinónimo de mecanização, nem de trabalhar até à exaustão. Produtividade significa, de forma simples, produzir mais valor com os mesmos recursos. Não aumenta apenas quando se compra um tractor. Aumenta quando o agricultor perde menos da colheita por falta de armazenamento, quando um comerciante deixa de gastar dois dias numa repartição pública para tratar de um documento, quando uma empresa consegue energia eléctrica contínua em vez de cortes imprevisíveis, ou quando um funcionário dispõe, finalmente, das ferramentas necessárias para executar o seu trabalho. É esta ideia, fazer mais e melhor com o que já se tem, que continua a faltar na conversa pública sobre desenvolvimento.

Há quem ouça a palavra produtividade e imagine, de imediato, mais pressão sobre os trabalhadores. Mas a verdadeira produtividade não consiste em exigir mais esforço às pessoas; consiste em retirar os obstáculos que impedem esse esforço de produzir melhores resultados. O “Senhor Moteriya” já dá o que tem para dar. O que falta não é dedicação, é tudo aquilo o que rodeia essa dedicação e que decide se ela se transforma em colheita ou em cansaço.

Os números confirmam o que o senhor já sabe pelo cansaço nos braços. O Índice de Emprego e Produtividade, divulgado este ano pela FUNDEC, atribuiu a Moçambique apenas 28,01 pontos, numa escala de 100. É uma pontuação que revela, com clareza, que o problema do país já não é apenas criar empregos, é criar empregos que produzam valor. Uma economia moderna não cresce porque as pessoas trabalham mais horas, mas porque cada hora produz mais riqueza. É essa diferença que separa os países que enriquecem daqueles que permanecem presos, durante décadas, ao mesmo nível de rendimento. A Estratégia Nacional de Desenvolvimento 2025-2044 é directa quanto às causas: baixo acesso a insumos melhorados, fraca adopção de tecnologia, défice de infra-estruturas de produção e transporte, e uma agricultura que continua vulnerável às chuvas e às secas. E este não é um problema marginal, 75,4% da força de trabalho moçambicana está no sector agrário, precisamente aquele onde a mecanização continua escassa.

A Autoridade Tributária estima que o sector informal gera quase metade do Produto Interno Bruto do país. Isto significa que a maior parte dos moçambicanos trabalha fora de qualquer sistema de protecção, de crédito ou de formação, sem contrato, sem segurança social, sem acesso aos instrumentos que permitiriam a uma pequena machamba tornar-se um pequeno negócio, e a um pequeno negócio tornar-se uma empresa. Segundo o próprio FMI, a taxa de transição do emprego informal para o formal permanece baixa. Ora, sem essa transição, o país fica preso: cresce em número de pessoas a trabalhar, mas não cresce em riqueza produzida por cada uma delas.

Há, contudo, uma dimensão deste debate que raramente é discutida com a mesma franqueza: a produtividade do próprio Estado. Quando uma licença demora meses a ser emitida, quando um processo administrativo obriga o cidadão a sucessivas deslocações à mesma repartição, ou quando a burocracia substitui a eficiência, o Estado também reduz a produtividade nacional, não apenas a sua, mas a de todos os que dependem dele para trabalhar. Um país competitivo exige empresas eficientes e agricultores bem equipados com conhecimento, mas exige, com igual urgência, instituições públicas que não desperdicem o tempo dos seus cidadãos. O tempo perdido numa fila ou à espera de uma assinatura é, também ele, produtividade que o país perde.

As taxas de juro elevadas continuam a limitar o acesso ao crédito, sobretudo para as pequenas e médias empresas, que são precisamente aquelas com maior capacidade de gerar emprego formal e produtivo. Nunca faltou disposição para o trabalho. O que continua a faltar são as condições para que esse trabalho gere riqueza: máquinas, estradas, electricidade estável, crédito acessível, formação técnica.

E aqui vale sublinhar um ponto que também merece mais espaço na discussão nacional: nenhuma economia aumenta a sua produtividade apenas com       máquinas. O investimento nas pessoas continua a ser decisivo. Formação profissional, literacia digital (que não significa apenas saber mexer o computador, mas usar as possibilidades e recursos que ele oferece),  ensino técnico e capacidade de gestão são tão importantes quanto estradas ou tractores, porque um tractor sem quem o saiba operar e manter é, mais uma vez, esforço desperdiçado.

Seria injusto atribuir este desafio apenas ao Governo, como se a produtividade se resolvesse por decreto. Mas seria igualmente ingénuo pedir aos cidadãos que produzam mais sem lhes dar as ferramentas para isso. A responsabilidade é, por natureza, partilhada. Cabe ao Estado investir em infra-estrutura rural, em energia, em crédito acessível às pequenas empresas, e em políticas que facilitem e não compliquem a passagem da informalidade para a formalidade. Cabe às instituições económicas, como a CTA já tem defendido, empurrar a transformação digital e tecnológica que continua a chegar tarde e lenta a Moçambique. E cabe também a cada moçambicano adoptar uma cultura de melhoria contínua, de aprendizagem permanente, de cumprimento de prazos e de valorização da qualidade porque a produtividade também nasce da disciplina, da organização e da responsabilidade individual.

O Senhor Moteriya não precisa de trabalhar mais horas. Precisa de uma enxada melhor, de uma estrada que leve a sua produção ao mercado sem se perder pelo caminho, de uma semente mais resistente à seca, de um pequeno crédito que não o sufoque em juros. Precisa, em suma, que o Estado e o mercado lhe dêem o que falta para que o seu esforço deixe de ser apenas cansaço e passe a ser, finalmente, riqueza.

Moçambique não tem um problema de vontade de trabalhar. Tem um problema de ferramentas, de infra-estrutura e de organização e esse é o tipo de problema que não se resolve sozinho. Resolve-se quando o Estado abre caminho e o cidadão o percorre com instrumentos à altura do seu esforço.

Durante demasiado tempo, medimos o esforço dos moçambicanos pelas horas que trabalham. Talvez tenha chegado o momento de medir o país, sobretudo pela riqueza que consegue criar a partir desse esforço. Porque uma nação não prospera quando os seus cidadãos trabalham até à exaustão. Prospera quando cada hora de trabalho vale mais do que a anterior.

No dia em que isso acontecer, o Senhor Moteriya continuará a levantar-se antes do nascer do sol. Continuará a trabalhar com a mesma dedicação. A diferença é que, dessa vez, o seu esforço deixará de servir apenas para sobreviver. Servirá, finalmente, para prosperar. E quando isso acontecer com milhões de moçambicanos, não será apenas a vida deles que mudará. Será o país inteiro.

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