Desemprego continua a matar sonhos e a empurrar milhares de jovens para o mercado informal

DESTAQUE SOCIEDADE
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  • 72% da população moçambicana tem menos de 30 anos
  •  “Moçambique tem um enorme motor de crescimento económico ainda por explorar” — defende UNFPA
  • “País deve considerar lições do Ruanda para transformar emprego informal em trabalho” — defende OIT
  • “A criação de emprego não deve ser vista apenas como responsabilidade do Estado” — Caifadine Manasse

Entre duas rodas, Bia Jaime acorda todos os dias às 5h da manhã, em Pemba, na província de Cabo Delgado, para enfrentar mais uma jornada em busca do sustento da sua família. Professora formada, sonhava estar numa sala de aulas, ensinando crianças a ler e a escrever. Mas, apesar da formação, o mercado formal de trabalho não lhe abriu as portas. A história de Bia repete-se de norte a sul do país: milhares de jovens deixam as universidades e instituições de formação carregando diplomas e expectativas, mas encontram um mercado de trabalho incapaz de absorver a crescente mão-de-obra. Sem oportunidades no sector formal, muitos acabam por recorrer ao comércio, ao transporte e a pequenos negócios informais como única alternativa para sobreviver. Assim, enquanto o desemprego adia sonhos e transforma diplomas em documentos guardados nas gavetas, o mercado informal torna-se, para muitos jovens, não uma escolha, mas uma questão de sobrevivência.

Edmilson Mate, em Pemba

A história de Bia repete-se diariamente. Jovens que investiram anos na formação acabam confrontados com a falta de emprego e obrigados a reinventar-se para sobreviver e apoiar as famílias.

Segundo projecções do Instituto Nacional de Estatística (INE), Moçambique conta com cerca de 11,5 milhões de jovens entre os 15 e os 35 anos, aproximadamente 35% da população. Esta juventude representa potencial para o crescimento económico, mas exige respostas nas áreas da educação, formação profissional, emprego e empreendedorismo.

Dados do Banco Mundial apontam que entre 416 mil e 500 mil jovens chegam todos os anos ao mercado, mas apenas 25 mil a 30 mil conseguem emprego formal. No Norte, a pressão é maior. Um estudo da Agência de Desenvolvimento do Norte (ADIN), abrangendo Cabo Delgado, Nampula e Niassa, estima que cerca de 380 mil jovens tornam-se aptos para o trabalho, mas poucos são absorvidos

“Sou professora formada, mas faço mototáxi para sustentar a família”

Encontrámos Bia Jaime, de 30 anos, numa avenida de Pemba, sentada na sua motorizada, pronta para mais uma viagem. Professora formada pelo Instituto de Formação de Professores (IFP) de Pemba, viu-se obrigada a recorrer ao mototáxi. Há cinco anos exerce a actividade para sustentar a família.

“Sou mulher formada e, por vezes, sofro discriminação por estar aqui numa moto, mas, devido à falta de oportunidades, ando de motorizada para sustentar a minha família. Sou professora, tenho 30 anos e formei-me no IFP de Pemba, mas nunca tive afectação, o que obrigou-me a procurar outra forma de sobreviver. Não está fácil, mas tenho fé. O Governo também deve dar-nos emprego. Às vezes, parece que estudar ou não estudar acaba por ser a mesma coisa”, afirmou.

A realidade de Bia é partilhada por Odete Dinis, formada em Electricidade Industrial e desempregada há cerca de dois anos. Já trabalhou como instrutora numa escola de condução e como assistente, mas actualmente está sem ocupação.

“Terminei a formação em 2020 e nunca consegui uma oportunidade na minha área. Já trabalhei em outras áreas, mas agora estou mesmo parada. Na Electricidade Industrial é ainda mais difícil conseguir biscates por ser mulher”, lamenta.

Residente no bairro de Muxara, diz que tem filhos e irmãos que dependem dela e que, sem emprego, depende financeiramente do marido. Defende mecanismos concretos para inserir jovens formados no mercado.

“Há muitos jovens que se formaram há bastante tempo e continuam desempregados. Os pais investem na formação dos filhos na esperança de que possam ajudar a família, mas, depois dos estudos, ficam sem fazer nada. É frustrante, tanto para os jovens como para os pais.”

“Investi muito dinheiro na formação de enfermagem, mas não pensava ficar desempregado”

Aos 33 anos, pai de três filhos, Faizal Basílio concluiu a formação em enfermagem, mas não conseguiu emprego na área. Residente no bairro Josina Machel, em Pemba, trabalha como mototaxista para sustentar a família.

“Investi muito dinheiro para pagar a formação e concluí, graças a Deus. Mas não pensava que ficaria desempregado. Pensei que iria continuar na área que segui. O problema é que é muito raro conseguir emprego”, lamenta.

Faizal já bateu a várias portas, sem resposta. A jornada começa às 4h e pode prolongar-se até às 23h, nem sempre garantindo rendimento suficiente para sustentar a família e pagar o uso da motorizada.

“Peço ao Governo para olhar para nós e criar oportunidades. Estamos a perder a moral quando vemos os nossos colegas a trabalhar e nós continuamos sem emprego.”

“Não é desta forma que eu gostava de retribuir o investimento da minha mãe”

Licenciado em Relações Internacionais e Diplomáticas desde 2017, Gulhermino Mbaia passou anos à procura de emprego na sua área. Submeteu currículos, participou em entrevistas e fez uma pós-graduação em Metodologia do Ensino de Filosofia, mas não conseguiu colocação estável.

Hoje, para ajudar a mãe, de 62 anos, recolhe garrafas e outros resíduos no Vale de Infulene.

“Não é desta forma que eu gostava de retribuir o investimento que a minha mãe fez em mim, mas faço o que está ao meu alcance. Continuo sempre a procurar oportunidades”, revelou.

A actividade garante algum rendimento para necessidades básicas. Gulhermino esperava trabalhar na área de formação, mas acabou como caixa numa loja. Depois de perder o emprego, passou a apoiar a mãe na recolha de garrafas.

“Moçambique tem um enorme motor de crescimento económico ainda por explorar” — UNFPA

Em resposta ao Jornal Evidências, o UNFPA considera que Moçambique atravessa uma fase demográfica crítica, marcada por uma população maioritariamente jovem.

Segundo a organização, 72% da população tem menos de 30 anos, o que representa uma oportunidade para acelerar o crescimento através do dividendo demográfico. Contudo, a juventude, por si só, não garante desenvolvimento. São necessários investimentos em educação, formação profissional, saúde, planeamento familiar, emprego digno e formal e empoderamento económico das mulheres.

O UNFPA sublinha que o dividendo demográfico é uma “janela de oportunidade sensível ao tempo”, dependente da capacidade de preparar os jovens para participar produtivamente na economia.

A organização destaca ainda a Estratégia Nacional de Desenvolvimento (ENDE 2025–2044), aprovada em 2025, que inclui a transição demográfica e o desenvolvimento humano entre os seus pilares.

OIT aponta problema estrutural e destaca exemplo do Ruanda

Em declarações ao Jornal Evidências, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) considera que a dificuldade de inserção dos jovens revela constrangimentos estruturais da economia.

Dados citados pela OIT indicam que cerca de 90% do emprego em Moçambique é informal, enquanto mais de um quarto dos jovens não trabalha, não estuda nem frequenta formação. A taxa de desemprego juvenil foi estimada em 7,6% em 2024.

Para a OIT, estes números podem esconder uma grave subutilização da mão-de-obra. Muitos jovens, sem condições para permanecer sem rendimento, aceitam actividades informais, de baixa produtividade e com pouca protecção social.

A organização defende que a solução não passa apenas por formar mais jovens, mas por fortalecer sectores com potencial de emprego, aproximar instituições de ensino das empresas e reforçar estágios e aprendizagem em contexto de trabalho.

Como exemplo, destaca o Ruanda, onde o Programa Nacional de Emprego combinou competências, empreendedorismo, estágios e intervenções no mercado. Entre 2014 e 2018, um programa de estágios abrangeu cerca de 7.500 estudantes, dos quais 58% conseguiram emprego posteriormente.

Calton Cadeado alerta para riscos sociais do desemprego juvenil

Em entrevista ao Evidências, o docente e pesquisador Calton Cadeado alertou que a incapacidade de inserir jovens formados no mercado pode ter consequências sociais profundas, sobretudo quando o investimento das famílias e do Estado não se traduz em oportunidades.

Segundo o académico, muitos pais esperam que os filhos alcancem independência financeira e contribuam para o sustento familiar. Quando isso não acontece, cresce a frustração e pode ser afectada a confiança na educação.

“Se os jovens começarem a sentir que estudar não vale a pena, isso representa um perigo para a sociedade e para o Estado”, alertou.

Cadeado considera que o desemprego prolongado pode deixar os jovens vulneráveis à manipulação e ao recrutamento para actividades criminosas. Defende uma resposta partilhada entre Estado, famílias e sociedade.

“O Estado tem a sua responsabilidade quando as políticas não conseguem responder a estes desafios, mas as famílias e a sociedade também têm um papel importante.”

“Não basta formar jovens, é preciso transformar a economia”

O economista Camilo Flora considera que o desemprego de jovens qualificados resulta de um problema estrutural, que exige melhorar a formação e aumentar a capacidade da economia de gerar empregos.

“Moçambique precisa de melhorar a pertinência da formação, mas também de uma economia com maior capacidade de absorção produtiva. Não basta formar jovens. É preciso construir uma economia capaz de transformar formação em emprego produtivo”, sublinha.

“A criação de emprego é uma responsabilidade colectiva”

O ministro da Juventude e Desporto, Caifadine Manasse, defendeu maior articulação entre Governo, sector privado e instituições de formação.

“A criação de emprego não deve ser vista apenas como responsabilidade do Estado. É uma responsabilidade colectiva, na qual o sector privado desempenha um papel fundamental como motor da economia e parceiro estratégico na criação de oportunidades para a juventude.”

Durante a Feira de Emprego, realizada em Pemba, no âmbito da Semana Nacional da Juventude, Manasse anunciou que o Governo prepara o lançamento do Portal do Emprego, plataforma destinada a aproximar os jovens de oportunidades de emprego, estágio, formação e empreendedorismo.

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