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Alexandre Chiure
Faz muito tempo que não me dirijo a ti. Muita coisa aconteceu no país. Na política, na economia, no âmbito social e empresarial. Um dia, pensei em escrever algumas linhas para ti, mas optei por desistir. Por um lado, porque cheguei à conclusão de que, provavelmente, não ia entender-me em alguns aspectos. Quanto ao outro motivo, é melhor não me perguntares, pois não te vou responder. Não quero te preocupar.
O que importa é que está tudo tranquilo deste lado e não há por que te preocupares comigo. Também sei que tens andado bem de saúde. Tenho acompanhado o teu dia-a-dia, apesar dos escândalos financeiros no Estado que têm tirado do sério a qualquer moçambicano honesto e a escassez de combustível, cujos motivos só Deus é que sabe.
Sabes, meu amigo, as pessoas estão a gozar comigo, mas não estou, nem tão pouco, preocupado com isso. Estou na minha. Alguns dizem que não me convidaste à Reunião Nacional de Quadros, em Chimoio, porque não sou quadro. Tudo porque sabem da nossa amizade. Eu não preciso de ser convidado para dizer o que penso. Aliás, uma parte significativa do que defendo foi falado na reunião.
Outros, entendem que é porque já não somos mais amigos, estão muito errados. A nossa amizade é sólida e forte. Insistem que te zangaste comigo. Eu só me ri. Não respondi a nenhum deles porque achei uma provocação ou, acima de tudo, uma simples brincadeira, pois nunca fui convidado para esse espaço de debate. Não ligues para nisso, amigo. Eu tenho a certeza de que a nossa amizade está de pedra e cal.
Meu amigo, quero contar-te uma coisa e fazer-te rir um pouco. Faz bem à saúde, sobretudo na tua idade. Tens que levar uma vida tranquila e evitares no máximo o stress. Faz como eu. Como e bebo o que gosto e faço rodear-me de pessoas que eu amo e de vez em quando escrevo algumas linhas para desabafar. Tirar tudo que me tira o sossego e tocar a vida para a frente.
O que te quero contar é que há fulanos que enquanto decorria a reunião de Chimoio fechavam-se nos seus quartos e colocavam os seus telemóveis em modo de voo para darem a entender que viajaram, quando estavam em Maputo. Sabes o motivo, amigo? Por vergonha. É que andavam a dizer que eram grandes do partido e não conseguiam encarar as pessoas. Era só para fofocarmos um pouco. Atenção. Não me chames de fofoqueiro.
Mas também ouvi que alguns dos que viajaram para a magna reunião estavam mais preocupados contigo do que propriamente em levantar questões que preocupam o país. Investiam mais na bajulação do que outra coisa e a expor a tua imagem como num estou aqui para o que for necessário. Não acreditei nisso, achei das más línguas, tentativa de denegrir a imagem desses quatros. Só tu é que podes falar a verdade do que aconteceu.
Chega de fofoquices, vamos falar de coisas sérias. Quero parabenizar-te. Não costumo fazer isso com ninguém. Parto do princípio de que todos nós temos a obrigação de fazermos bem as coisas. É que há mais de dez anos que não convocavas uma reunião dessas, um espaço de debate muito importante para o debate dos problemas que apoquentam os quadros e o país.
Há quem diga que foi mais uma reunião e que não irá mudar nada porque nós, como país, temos o problema da falta de acções de seguimento. Debatemos ideias. Apresentamos propostas de solução valiosas. Produzimos projectos e estratégias brilhantes e tudo termina nos discursos.
Eu não quero discutir essas coisas e nem tão pouco aborrecer-te. O que sei dizer é que o presidente do partido, Daniel Chapo, saiu de Chimoio com a renovação no centro de agenda. Isso é que importa. O que é que ele vai fazer daqui para a frente e como pensar fazer, só ele é que sabe.
A certeza que tenho é de que eu e tantos outros moçambicanos do bem, estamos aqui prontos para apoiar-te caso, depois de tudo que foi dito na reunião de quadros, decidas enveredar pelo caminho das mudanças, renovação a partir de dentro da Frelimo, combate duro contra a corrupção, purificação das fileiras.
Sabes, amigo, o discurso de encerramento do presidente do partido, carregado de avisos e advertências, agitou as águas; fez-me pensar na possibilidade de ruptura em relação ao passado com o anúncio de uma nova era, uma era de renovação a partir de dentro da própria Frelimo.
Alimentou o meu pensamento de que poderá haver, a qualquer momento, mexidas a sério no governo, no partido, na sociedade, quando, numa passagem da sua intervenção, Chapo disse que, na nova era que vai começar, cada um terá de pagar pelos crimes que cometer, sem relacioná-los com a Frelimo. Interessante.
No fundo, o presidente tem toda a ferramenta necessária, nas suas próprias palavras, para trabalhar e fazer história. Para isso, é preciso transitar da teoria à prática. Do discurso à acção. Isso é que falta. Ter a coragem de varrer com corruptos, ladrões, traficantes de drogas, lambe-botas que bem disse que não têm espaço na Frelimo. Expurgar aqueles que usam o poder para sugar o sangue do povo.
O posicionamento está feito. Aqui está a grande oportunidade de fazer revolução. Abanar as árvores e deixar cair o que não presta. Tem poderes suficientes para tal, basta apenas coragem. Avança, eu e os outros vamos apoiar, se a finalidade é reorganizar o país, acabar com aqueles que têm um comportamento desviante.
Acabar com os que não deviam, nunca, ter sido membros da Frelimo. Aqueles que olham para o seu umbigo e pouco se preocupam com os problemas do povo moçambicano. Fulanos que usam indevidamente o nome do partido para atingir os seus objectivos individuais. Fulanos que buscam imunidade na política para praticarem crimes a coberto da lei.
O diagnóstico da situação está no seu discurso, nas intervenções de alguns quadros durante a reunião de Chimoio. Apontaram os erros e apresentaram propostas de solução. O povo está à espera dos resultados. Os membros, também. A vontade política está lá. Não deixe a corrente enfraquecer. Avançe, presidente!



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