Share this
Estêvão Chavisso
De olhar distante num horizonte azul, com a cabeça encostada à janela de um Airbus A330, obviamente na classe económica, sigo, uma vez mais, para uma cidade completamente desconhecida, onde terei de conhecer novas pessoas e realidades.
Na bagagem, aquela pasta de costas com duas camisetas e uma calça “jeans” já quase rotas denunciam algum cansaço, embora, na cabeça, como sempre, exista a já familiar expectativa desinteressada de um viajante sem destino.
Sem ímanes na porta do frigorífico, já que ninguém em casa está necessariamente à espera de um eventual regresso, as memórias ficam apenas na cabeça, que regista o mais importante e ignora os longos tempos de espera para carimbar o passaporte, sem falar nos olhares desconfiados das pessoas em “smoking rooms” abafados num mundo cada vez mais “inclinado” à Direita.
De Aeroporto em Aeroporto, o trabalho que escolhi empurra-me para este processo cíclico de “descobertas”, por vezes, por lugares de pessoas e tempo frios.
É a vida nómada socialmente condenada quando se está a caminho dos 40, sem pertença ou relações duradouras, entregue, continuamente, a um processo de cíclicos recomeços e despedidas.
Exposto ao incómodo sentimento de ser o “diferente”, longe das zonas de conforto, foi esta necessidade de descobrir o que não conhecia que me alimentou.
Eu queria descobrir novas religiões, novos “Deuses”, embebedar-me em outras adegas e embrenhar-me em outras culturas, sem destino, em percursos e caminhos nunca predefinidos.
Mas quanto mais longe vou, mais claro do óbvio fico: as vidas e as pessoas são quase todas iguais.
Na aparente cara cansada de um Rastaman que vende Cachorros-Quentes no Rosebank Sunday Market, em Johanesburgo, encontrei o sorriso do Rastaman que vende bijuterias na esquina entre a 24 de Julho e a Guerra Popular, em Maputo.
Não há relação alguma entre os dois senão o desafio de quem diariamente tem de ir à rua para buscar sustento, mas, aos meus olhos, há tanto em comum entre estas duas personagens.
Parece-me tudo tão familiar, mas, ao mesmo tempo, tão diferente e distante. É isto que torna este processo de infinita descoberta tão inusitado.
Normalmente, limito-me sempre a observar, já que, devo confessar, quando mais velho fico menos paciência pareço ter, sobretudo em relação aos encontros com o mundo.
Ganhei, nos últimos anos, um esquizofrénico receio de somar mais amizades superficiais e, devo novamente confessar, a minha lista telefónica anda cheia de alguns “erros de percurso”. As conversas rasas e de conivência esgotam-me.
Tenho cada vez menos vontade de debater futilidades e, muitas vezes, no meio de qualquer discussão, dou por mim com os olhos no chão à procura de uma pedra. Não é a educação que tive, confesso. No entanto, a mediocridade e o imediatismo que assaltaram os nossos tempos dão-me cabo dos nervos.
Então limito-me a ouvir, num silêncio “cúmplice”.
Um amigo perguntou-me noutro dia se havia alguma felicidade numa vida de viagens sem destino: Respondi: honestamente, não sei. Mas houve sempre, em mim, a gritante necessidade de partir, independente de onde estivesse.
No Kaya (1978), o 10.º álbum dos Bob Marley & The Wailers, na música “Running Away”, Bob perguntou: “Por que razão não consegues encontrar um lugar a que realmente pertenças?”.
Dou por mim sentado num café a milhares de quilómetros de Maputo a pensar na questão de Bob e, por algum motivo, lembro-me do Mercado do Povo e penso em qual deve ser hoje o cardápio na barca da Dona Elisa.
“Frango, como sempre”, grito, suficientemente alto para chamar a atenção da senhora que me está a servir o café. “Peço desculpa, estava a pensar alto”, afirmo, minutos antes de voltar os olhos para o meu telemóvel.
Enquanto a culpa silenciosa “Marleyana” me toma, lembro-me, no entanto, que a pertença nunca realmente fez parte do que eu sentia, na adolescência ou na vida adulta, em casa ou longe, houve sempre um vazio por ser preenchido, faltou sempre alguma coisa, mesmo diante do maravilhoso frango da dona Elisa no Mercado do Povo.



Facebook Comments