Partido de Venâncio com expressão nacional, mas cúpula continua dominada por lideranças do Sul

DESTAQUE POLÍTICA
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  • Sul ganha mais peso e reacende murmúrios sobre equilíbrio regional
  • Sectores do Centro e Norte não vêem com bons olhos predominância de dirigentes do Sul nos principais cargos
  • Saída de Messias Uarreno, apontado como elemento de equilíbrio regional, altera a composição do “Board”
  • Um terreno movediço chamado Nampula, com epicentro em Nacala: 300 atiraram a toalha ao chão

Com a nomeação de James Mlando Fausto Njiji para secretário-geral interino e o regresso de Alberto Manhique à linha da frente como porta-voz nacional, a ANAMOLA passa a ter os seus três principais rostos da sua cúpula associados ao Sul do país. A configuração, que se completa com Venâncio Mondlane na presidência, não está a ser bem recebida por sectores do Centro e Norte, que vêem com preocupação o que consideram uma crescente predominância sulista no núcleo duro e centro gravitacional das decisões do partido. A mudança é particularmente sensível depois da saída de Messias Uarreno. Natural da Zambézia, o antigo secretário-geral, era visto como a figura de equilíbrio reginal.

Evidências

No uso das suas competências, o presidente do ANAMOLA, Venâncio Mondlane, decidiu recentemente mexer em duas peças importantes da estrutura nacional do partido. Em despachos separados, o líder afastou Messias Luís Cipriano Uarreno da Secretaria-Geral e Dinis Tivane da função de porta-voz nacional.

Para os seus lugares foram colocados o pastor James Mlando Fausto Njiji, como secretário-geral interino, cargo que será ratificado no Conselho Nacional, e Alberto Manhique, que regressa ao primeiro plano como porta-voz nacional.

Com apenas um ano de história, o partido ANAMOLA já colocou três pessoas diferentes a ocupar o cargo de secretário-geral, o segundo mais importante da estrutura organizativa. O cargo é por indicação a dedo do presidente do partido que depois é ratificado pelo Conselho Nacional.

As alterações, apresentadas pela direcção como parte de uma estratégia para dinamizar o funcionamento do partido, estão, contudo, longe de ser vistas apenas como uma operação administrativa por alguns sectores internos que questionam a prevalência de lideranças do sul do país.

Embora o assunto raramente seja assumido de forma aberta nas reuniões magnas do partido, a questão da representatividade regional tem sido um verdadeiro “elefante branco” dentro da ANAMOLA, alimentando murmúrios, desabafos e ressentimentos entre membros do Centro e Norte que questionam se a diversidade territorial que o partido procura projectar para o país também se reflecte na sua própria cúpula.

O “Board” e a nova fotografia do poder no ANAMOLA

A fotografia actual dos três principais cargos nacionais da ANAMOLA é particularmente reveladora. Na presidência está Venâncio Mondlane, que embora seja natural de Lichinga, província do Niassa, no Norte do país, onde os seus pais se encontravam em serviço, a sua ascendência é do Sul do país, concretamente, Gaza e Maputo.

Na Secretaria-Geral interina está James Mlando Fausto Njiji, figura com ligação ao Sul e que tem a sua naturalidade associada a Inhambane. Já a comunicação nacional voltou a ser entregue a Alberto Manhique, decano associado a Guijá, na província de Gaza. Ou seja, no actual “Board” político da ANAMOLA , os três principais lugares estão nas mãos de figuras do Sul.

É esta configuração que começa a incomodar sectores do Centro e Norte, sobretudo porque a ANAMOLA construiu uma parte importante da sua implantação política fora do Sul e procura apresentar-se como uma organização de expressão nacional.

O desconforto não significa necessariamente uma rejeição da competência individual dos dirigentes. O problema, segundo os murmúrios que circulam internamente e que o Evidências conseguiu captar, está na percepção de que determinadas regiões conseguem colocar mais quadros no núcleo onde efectivamente se concentram as decisões.

Uarreno era visto como equilíbrio

A saída de Messias Uarreno, natural da Zambéa, cuja indicação tinha sido apontada como uma tentativa de reconsciliação com o Centro e Norte, ganha um significado político que ultrapassa a simples substituição de um secretário-geral.

Natural de Namacurra, na província da Zambézia, Uarreno chegou à Secretaria-Geral em Setembro de 2025, substituindo precisamente Alberto Manhique, que era o número 2 do partido numa composição que, como a actual, era eminentemente sulista.

A sua entrada permitiu uma composição que, pelo menos do ponto de vista regional, oferecia uma leitura diferente da cúpula, pois havia um presidente proveniente do Sul e um secretário-geral oriundo do Centro.

Por isso, dentro de sectores do partido, com destaque para o círculo de Nampula, concretamente Nacala, de onde vem o maior coro de contestação que nos próximos dias pode vir a subir de tom, Uarreno era visto como uma espécie de elemento de equilíbrio na distribuição regional do poder.

Não se tratava de uma quota formal nem de uma regra estatutária. Os estatutos da ANAMOLA não estabelecem uma distribuição dos cargos nacionais por regiões. Era, antes, um equilíbrio político percebido por sectores internos e por observadores da organização. A sua saída, entretanto, altera essa equação.

Para o seu lugar, Venâncio Mondlane indicou James Mlando Fausto Njiji para exercer interinamente a Secretaria-Geral. A nomeação deverá ser submetida à ratificação do Conselho Nacional.

A direcção justifica a remodelação com a necessidade de dinamizar o funcionamento do partido e responder aos desafios políticos actuais. Alberto Manhique, agora porta-voz, também indicou que as mudanças fazem parte dessa necessidade de reorganização.

Um “elefante branco” dentro do partido

A discussão sobre equilíbrio regional é, entretanto, um dos assuntos mais delicados da vida interna da ANAMOLA. É um tema que dificilmente aparece como ponto formal das grandes reuniões partidárias, mas que, segundo relatos internos, continua a alimentar conversas nos bastidores. Aliás, durante a Convenção Nacional um grupo tentou levantar este assunto.

É, por isso, um verdadeiro “elefante branco”: todos sabem que existe, muitos comentam, mas poucos estão dispostos a colocá-lo em cima da mesa numa reunião magna.

O problema ganhou maior visibilidade à medida que a ANAMOLA deixou de ser apenas uma plataforma de mobilização em torno da figura de Venâncio Mondlane e passou a construir uma estrutura partidária com presença nas diferentes províncias.

A ANAMOLA enfrenta, assim, um dilema que acompanha todos os partidos nacionais, incluindo a FRELIMO, MDM e a RENAMO, que enfrentam grandes crises internas alimentadas por predominância regional. Enquanto a RENAMO e MDM são associados ao Centro do País, o ANAMOLA, junta-se agora à FRELIMO que durante muito tempo foi predominantemente dominado por lideranças do Sul.

O debate pode continuar a ser mantido nos corredores, nas conversas privadas e nos desabafos de militantes. Mas, à medida que a ANAMOLA se consolida como uma estrutura partidária nacional, será cada vez mais difícil evitar uma discussão que até agora tem sido tratada como tabu.

A saída de Messias Uarreno, que para alguns sectores funcionava como uma espécie de contrapeso entre o Norte, Centro e Sul, pode ter retirado da fotografia um dos poucos elementos que ajudavam a preservar essa percepção de equilíbrio.

Um terreno movediço chamado Nampula, com epicentro em Nacala

A nova configuração da ANAMOLA, que faz florescer a percepção de exclusão do Centro e Norte, acontece numa altura particularmente delicada para as estruturas de base do partido naquele que é o maior círculo eleitoral do país, Nampula, onde pelo menos 300 membros acabam de se desvincular do partido, alegadamente devido a desavenças com lideranças supostamente impostas a nível central.

Liderados por Raúl Novinte, um mobilizador nato que apadrinhou a criação da ANAMOLA, os membros, em Nacala, entregaram, no último sábado, as cartas de desvinculação do partido, durante um ajuntamento que visava definir o seu futuro político, que, ao que tudo indica, passa pela nova formação política que Novinte está a preparar.

Apelidados de falsos por Eduardo Nihia, os macuas de Nampula são apontados como um dos eleitorados mais difíceis e movediços do país. A percepção de predominância do Sul no centro gravitacional do poder, que já vinha sendo sorrateiramente denunciada por Novinte, poderá constituir um factor de desvantagem para Venâncio Mondlane e o seu partido.

Além de Nampula, a Zambézia, segundo maior círculo eleitoral do país, perde o seu principal activo na estrutura máxima do partido, o que pode agudizar a instabilidade provincial que tem vindo a registar-se desde as eleições internas, com forte contestação a algumas das lideranças eleitas.

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