Serviços de oncologia do HCM transformaram-se num corredor de morte anunciada

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  • Pacientes com cancro entre a vida e a morte desde a avaria da máquina de radioterapia
  • Histórias reais espelham uma crise de saúde pública que continua a somar vítimas anónimas
  • Relatos de familiares revelam um calvário causado pela falha de equipamento
  • Ausência de alternativas viáveis no Serviço Nacional de Saúde, agudizam dor dos pacientes
  • Autoridades da saúde reconhecem

O tempo, que deveria ser um aliado na luta contra o cancro, tornou-se o maior inimigo de Angélica. Diagnosticada com cancro da mama, viu o seu estado clínico a agravar-se nos últimos meses por falta de acesso à radioterapia no Hospital Central de Maputo (HCM), a maior unidade hospitalar do País. A realidade de Angélica é partilhada por muitos outros. João (nome fictício), paciente com cancro do fígado, está internado no HCM desde o início deste ano. Recebe apenas tratamentos paliativos enquanto aguarda a radioterapia, tratamento que, sabe-se, poderá nunca chegar, devido a avaria, há mais de um ano, da única máquina de radioterapia que o País detém, situação que veio sentenciar muitos pacientes com cancro a uma lenta e duplamente dolorosa pena de morte, tal como aconteceu com Graciete Pedro José e Lídia Macuácua que não sobreviveram para contarem na primeira pessoa o drama que viveram nos seus últimos dias de luta contra a o cancro, quando, deviam estar a fazer aquela que é a última e decisiva batalha depois de um doloroso processo de quimioterapia.

Luisa Muhambe e Elísio Nuvunga

Há quase dois anos – desde Setembro de 2023, Moçambique está sem uma máquina de radioterapia em funcionamento, agravando a fragilidade do sistema de tratamento do cancro no País. A situação tem tido consequências devastadoras para os pacientes, alguns dos quais perderam a vida por falta de tratamento adequado ou por não conseguirem arcar com os custos elevados do tratamento no estrangeiro.

Para fazer face a esta realidade, o governo alegou, num passado recente, que a falta deste aparelho ou o atraso na sua reparação devia-se às manifestações violentas que o País enfrentava. A promessa, feita de forma reiterada pelo Executivo de Filipe Nyusi, na voz do seu ministro, Armindo Tiago, apontava Dezembro como sendo o arranque do trabalho de reparação.

Mas terminaram as manifestações e o problema persiste, e não se tem datas concretas para aquisição ou reparação desta máquina. Enquanto isso, milhares de pacientes, do Rovuma ao Maputo, estão num autêntico corredor de morte, com as vidas completamente sentenciadas, à espera apenas que a natureza sele o seu destino.

“Até agora não nos dizem nada. Esperava que depois das manifestações (pós-eleitorais) fosse haver alguma resposta. Conforme estás a ver, os meus pés estão inchados e pesam. O braço esquerdo também me dói muito. Mas o único problema que tenho é fígado”, desabafa José, dominado pela dor e desânimo.

Foi neste purgatório de incertezas que Gracieta Pedro José, aos 56 anos, passou incontáveis horas até encontrar a morte. Sentada nos bancos de plástico, via rostos cansados, olhares perdidos no vazio, e partilhava o mesmo silêncio cúmplice de quem trava a batalha mais íntima e solitária. A sua luta não era apenas contra as células malignas que se multiplicavam no seu corpo, era contra um inimigo ainda mais implacável: o sistema que deveria salvá-la.

A história de Gracieta Pedro José, contada pela sua filha, Maria Eduardo, é um roteiro trágico da falência do Estado. Gracieta não foi vencida apenas pelo cancro do colo do útero, a sua vida foi ceifada por uma sucessão de falhas sistémicas que transformaram a sua luta pela sobrevivência num labirinto de desespero e negligência, sendo apenas o rosto de uma tragédia silenciosa que se abate sobre dezenas de pacientes oncológicos em Moçambique: a avaria da única máquina de radioterapia no País.

Quando o que resta é apenas esperar até a morte chegar

O percurso de Gracieta começou como o de tantos outros. Após um rastreio no Hospital Geral de Mavalane, o qual lhe diagnosticou a doença, foi encaminhada para o Hospital Central de Maputo (HCM), o farol de esperança para os casos mais complexos.

“Ela foi para o Hospital Central e começou o processo de quimioterapia. Cumpriu rigorosamente, completou todas as sessões. Nós tínhamos fé, os médicos davam-nos esperança de que era um passo, um passo importante”, recorda Maria Eduardo, a sua voz carregada de uma dor que o tempo não aplacou. A quimioterapia, agressiva e debilitante, foi suportada com a coragem de quem sabe que é um mal necessário. Gracieta perdeu o cabelo, sentiu o corpo fraquejar, mas manteve-se firme, focada no prémio final: a vida.

O passo seguinte, a radioterapia, seria a estocada final na doença. Era o tratamento que iria erradicar os vestígios do tumor, consolidar os ganhos da quimioterapia e abrir a porta para a cura. Foi então que a esperança embateu contra um muro de silêncio.

“Quando terminou a quimioterapia, a oncologista dela foi muito directa. Disse-nos que o passo seguinte era a radioterapia, mas que, infelizmente, a máquina estava parada. Parada desde Setembro do ano antepassado (2023). A notícia caiu como uma bomba. Não havia um prazo, não havia uma alternativa. Havia apenas a espera”, lembrou o momento mais tenebroso.

Os meses que se seguiram foram de uma angústia crescente. A família vivia suspensa, refém de uma peça de engenharia avariada e da inércia burocrática. Paradoxalmente, Gracieta parecia melhorar. A ausência dos efeitos devastadores da quimioterapia trouxe-lhe uma aparência de bem-estar. Em Setembro, sentiu-se forte o suficiente para uma viagem longa e emocionalmente significativa.

“Ela veio para Nampula para ver a minha filha. Eu tive o bebé em Agosto e ela, como avó, fez questão de vir. Ficou connosco, pegou a neta ao colo. Parecia bem, estava feliz”, conta a filha. Foi um interlúdio de normalidade, uma fotografia de família feliz antes da tempestade final.

O regresso a Maputo em Novembro trouxe de volta a dura realidade. Os sintomas retornaram, mais agressivos. Dores na bexiga, sangramentos. Sinais inequívocos de que a doença, sem o cerco da radioterapia, reclamava o seu território. A família voltou ao HCM, mas o sistema parecia agora conspirar activamente contra eles.

“Marcaram-lhe uma consulta para 23 de Dezembro. Nesse dia, por causa das manifestações na cidade, não houve atendimento. Remarcaram para dia 29”, relata.

Quando a desorganização vem agravar a situação

Nesse dia, a família deparou-se com o absurdo. O processo clínico de Gracieta, o documento que continha todo o seu histórico, os resultados dos exames, o registo dos ciclos de quimioterapia, tinha desaparecido.

“Disseram que não estavam a encontrar o processo. Pediram para ela voltar na semana seguinte. Como é que se perde o historial de um doente oncológico? Como?”, questiona Maria Eduarda, a indignação a sobrepor-se à dor.

A busca pelo processo tornou-se uma via-sacra. “Ela voltava, e a resposta era a mesma. O meu pai ia, as minhas primas iam. Eu ligava de Nampula, tentando gerir à distância, sentindo-me impotente. Houve um dia em que ela ficou no hospital das 10 da manhã até quase às duas da tarde, sentada naquele corredor, para, no fim, ser-lhe dito que o processo continuava perdido. Mandaram-na para casa sem qualquer tratamento, sem qualquer orientação”.

Com a saúde de Gracieta a deteriorar-se a olhos vistos, o pai tomou uma decisão desesperada: levá-la ao Hospital Militar. Aí, a realidade clínica impôs-se de imediato. “Foi internada imediatamente. Foi diagnosticada com anemia severa por causa dos sangramentos. Precisava de uma cirurgia de urgência”.

Mas o fantasma do HCM perseguiu-os. Os médicos do Hospital Militar precisavam do processo clínico para operar com segurança. “Foi inacreditável. O pessoal do Hospital Militar teve de se deslocar ao Central. Eles próprios, junto com os médicos de lá, tiveram de mergulhar nos arquivos à procura do processo. A cirurgia, que era para ter sido no dia 19, só foi possível no dia 21 por causa deste atraso”.

Dois dias. Em oncologia, 48 horas podem ser uma eternidade. A cirurgia foi realizada, mas o corpo de Gracieta já estava demasiado frágil, a doença demasiado avançada. No dia 23 de Janeiro, o seu coração parou de bater. Deixou três filhos. Maria Eduardo, em Nampula com a sua bebé, e em Maputo um filho mais novo com necessidades especiais, que dependia inteiramente dos cuidados da mãe.

“Disseram-nos que a situação já estava muito avançada. Claro que estava. Deixaram-na avançar”, desabafa a filha. A causa da morte registada foi o cancro, mas a família sabe a verdade. Gracieta foi vítima de negligência.

“Cem mil meticais pela vida” – O dilema de Lídia

Se a história de Gracieta é uma tragédia sobre o caos administrativo, a de Lídia Macuácua é uma parábola cruel sobre a justiça económica na saúde. A sua luta de quase dois anos contra um tumor maligno no pescoço foi também uma luta contra a matemática da sobrevivência.

A centenas de quilómetros ou talvez apenas a alguns corredores de distância, Lídia Macuácua, de 50 anos, travava uma batalha semelhante contra um tumor maligno no pescoço. A sua história, partilhada pela irmã, Anastácia Adrano, ilustra outra faceta cruel desta crise: quando o Estado falha, a sobrevivência passa a ter um preço que a maioria não pode pagar.

Há quase dois anos que Lídia lutava. Com a máquina de radioterapia do HCM inoperacional, a sua única alternativa era procurar tratamento fora do país. A família já tinha despendido mais de 20 mil meticais em exames como a Tomografia Computorizada (TAC). A viagem e o tratamento no vizinho Malawi, a opção mais próxima, exigiam 100 mil meticais – uma fortuna inalcançável.

A família mobilizou-se, pediu ajuda, mas o tempo e os recursos eram escassos. Lídia foi consumida não só pela doença, mas pela impotência de não poder aceder ao tratamento que poderia ter-lhe dado mais tempo e qualidade de vida.

A família não conseguiu. O valor nunca foi alcançado. Em Dezembro, exausta pela doença e pela luta desigual, Lídia sucumbiu. Morreu em casa, rodeada pela família que tanto se esforçou, mas que foi vencida por um sistema que lhes negou a única opção gratuita e lhes apresentou uma alternativa paga e inacessível.

“Infelizmente, não conseguimos o dinheiro para o tratamento fora do país e a minha irmã não resistiu. Em Dezembro, perdeu a vida”, conta Anastácia, com a voz embargada pela dor e pela frustração de uma luta inglória.

O desespero de quem vê a vida por um fio: “Sinto que o tempo está contra mim”

No HCM, as filas são longas, os rostos marcados pelo sofrimento e a esperança desgasta-se com o passar dos dias. Para muitos, o tempo que deveria ser aliado no combate ao cancro transforma-se no maior inimigo.

Angélica segura com força o lenço que cobre a cabeça. A voz é fraca e não esconde o desespero de quem a vida está praticamente sentenciada não só pelo cancro, mas pela incapacidade do Governo de lhe assegurar no mínimo uma assistência de saúde adequado.

“Sinto que o tempo está contra mim. Cada dia sem tratamento é complicado, pior quando não tens dinheiro. Estou a lutar faz tempo, quero ficar bem, mas sem a máquina de radioterapia, estou a perder esperança”, lamentou.

Diagnosticada com cancro da mama, Angélica viu o seu estado de saúde piorar nos últimos meses. A sua esperança estava na radioterapia, mas essa opção tem estado fora do alcance — mesmo no Hospital Central de Maputo (HCM), a maior unidade hospitalar do País.

“Os que têm dinheiro vale a pena, porque há comprimidos que aqui vendem que ajudam, mas não é suficiente. Os que conseguem ou têm condições viajam para outros países. Mas não é fácil”, explicou, acrescentando que vai continuar com as consultas mesmo sem “esperança”.

A situação de Angélica é partilhada por muitos pacientes. João (nome fictício), com cancro no fígado, está internado desde o início do ano. Ele espera, há meses, por um tratamento que pode nunca mais chegar.

“Fazem o que podem. Dão-me comprimidos, soro… Mas eu sei que isso não chega. Sei que estou à espera de algo que talvez nem venha”, desabafou.

José diz que já perdeu até a contagem do tempo que nenhuma sessão de radioterapia é realizada, obrigando os médicos a recorrerem a alternativas ou a orientarem os pacientes para aguardarem indefinidamente.

HCM reconhece que falta de radioterapia compromete seriamente resposta ao cancro

De acordo com Cesaltina Lorenzoni, chefe do Programa Nacional de Controlo do Cancro e directora científica e pedagógica do Hospital Central de Maputo (HCM), a maior unidade sanitária do País, diagnostica anualmente entre 2.700 a 3.000 novos casos de cancro.

A nível nacional, o número de novos casos por ano ronda os 25 mil, com maior incidência nos cancros da mama, colo do útero, sarcoma de Kapote, esófago, cabeça e pescoço, bexiga e próstata

Intervindo durante a cerimónia de abertura de um workshop multidisciplinar sobre o tratamento do cancro, realizado na capital moçambicana, Lorenzoni reconheceu que a falta de equipamentos essenciais como a máquina de radioterapia, avariada há quase dois anos, tem comprometido seriamente a resposta aos doentes oncológicos, que muitas vezes enfrentam o dilema entre esperar por tratamento inexistente ou buscar ajuda fora do País — uma opção financeiramente inviável para a maioria da população.

Lorenzoni alertou ainda para a escassez de recursos humanos especializados como outro factor crítico que impede o País de responder eficazmente à crescente demanda.

“Como sabem, o nosso hospital é grande, tem 1.500 camas, mas uma das questões sobre a qual nós nos ressentimos muito é a falta de pessoal médico formado para esta área. Como sabem, até praticamente 10 anos atrás, a área do cancro não era uma área priorizada”, lamentou a chefe do Programa Nacional de Controlo do Cancro e directora científica.

Apesar das adversidades, Lorenzoni afirma que o Ministério da Saúde tem estado a dar passos importantes no sentido de reverter o cenário, nomeadamente através da formação de profissionais locais. Actualmente, quatro médicos moçambicanos estão em formação na área do cancro ginecológico, e outros iniciaram capacitações nos domínios do cancro da mama, do colo do útero e cancro pediátrico.

“Não basta ter infra-estruturas, não basta equipamentos. Precisamos de pessoas capacitadas, que saibam discutir casos e oferecer o melhor tratamento possível, para reduzir a mortalidade por cancro”, frisou Lorenzoni.

Quando o sistema entra em metástase

As histórias de Gracieta, Lídia, Angélica e João não são eventos isolados. São sintomas de uma doença crónica que afecta o Sistema Nacional de Saúde (SNS) de Moçambique. O “paciente zero” desta crise específica é uma máquina, um acelerador linear. Mas a sua avaria é a manifestação de uma patologia muito mais profunda.

A radioterapia funciona numa janela terapêutica precisa. É calculada para ser administrada de forma contínua, para destruir as células cancerígenas enquanto elas estão vulneráveis após a quimioterapia. Interromper o tratamento é dar ao tumor a oportunidade de se reagrupar, de se tornar mais resistente. Em muitos casos, anula por completo o benefício da quimioterapia.

A persistente inoperância da única máquina de radioterapia do País, no Hospital Central de Maputo (HCM), expõe a vulnerabilidade do sistema de saúde moçambicano face ao crescente desafio do cancro.

Até ao momento não se tem datas concretas para a sua reparação, mantendo, consequentemente, milhares de doentes num estado de incerteza angustiante, obrigando-os a buscar alternativas dispendiosas ou a enfrentar o sofrimento sem tratamento adequado.

As justificações apresentadas pelo governo, centradas nas manifestações e na instabilidade, não têm sido acompanhadas de soluções concretas, prolongando o drama dos pacientes oncológicos.

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