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Há linhas que uma democracia simplesmente não pode cruzar. O que se passou no dia 26 de Junho de 2025, no distrito de Macomia, província de Cabo Delgado, não foi apenas mais uma nódoa na já comprometida relação entre as Forças de Defesa e Segurança (FDS) e os jornalistas. Mais do que um acto de intimidação, foi uma encenação clara do quanto se tem normalizado o uso da força e da intimidação estatal contra a liberdade de imprensa.
Dezesseis jornalistas, em missão organizada pela Administração Nacional de Estradas (ANE), com destino a Mueda para cobrir as obras de asfaltagem da estrada Mueda-Negomano, decidiram cumprir o seu papel cívico e profissional de informar. Ao pararem em Macomia para entrevistar o administrador local sobre o processo de reconstrução, agiram dentro do mais puro espírito jornalístico, o de procurar a verdade, registar factos, dar voz ao que é omitido ou esquecido.
O que se seguiu, porém, é sintoma de algo muito mais grave do que um simples desentendimento entre autoridades militares e civis. Apesar da autorização formal do administrador distrital para a recolha de imagens em instalações públicas destruídas pelos terroristas, os jornalistas foram interpelados por agentes da Unidade de Intervenção Rápida (UIR). E mesmo sem terem filmado os militares ou descumprido qualquer directiva legal, foram mais tarde perseguidos, interpelados à força, fotografados em fila, interrogados e submetidos à tortura psicológica, tendo o seu material confiscado, tudo isso sem mandado, sem acusação formal, sem direito de defesa. Um puro abuso de poder.
Há algo podre neste modelo de segurança nacional que parece ver na liberdade de imprensa um inimigo, quando a deveria ver como uma aliada. A imprensa é essencial à reconstrução de Cabo Delgado. Ela é a ponte entre a dor da população e a resposta do Estado; entre os factos no terreno e a consciência pública. Atacar jornalistas é fechar os olhos do País à sua própria realidade.
E não é a primeira vez que isso ocorre. Em 2019, Amade Abubacar e Germano Adriano foram presos e torturados por reportarem o drama dos deslocados em Macomia. Em 2020, foi a vez de Ibraimo Mbaruco desaparecer após ser detido em Palma. Nunca mais foi visto. Nenhum responsável foi punido. O silêncio das instituições, cúmplice e ensurdecedor, ecoa mais alto que as vozes dos próprios jornalistas agredidos.
Cabo Delgado não pode ser convertido num território militar onde impera o medo, onde o simples acto de captar imagens vira pretexto para perseguições, e onde a democracia se dissolve sob botas e fardas. As FDS não podem agir como se fossem uma força à parte da República, imunes à Constituição, blindadas à crítica, livres para intimidar.
É fundamental que o Ministério da Defesa Nacional não trate este episódio como uma “infeliz ocorrência”, mas como um ponto de viragem. Porque mais do que um caso isolado, este episódio representa o que está em jogo: a possibilidade ou não de construir uma democracia que sobreviva à guerra, ao medo e à tentação autoritária. O terrorismo não se combate instaurando um Estado de excepção permanente. A segurança sem liberdade é apenas dominação. E um Estado que normaliza o desaparecimento de jornalistas, como o de Ibraimo Mbaruco, não é apenas negligente — é cúmplice.
Cabo Delgado precisa de reconstrução, sim. Mas uma reconstrução que começa pelo respeito. Pelas pessoas. Pela liberdade de imprensa. Pela Constituição. Por tudo aquilo que ainda nos separa do abismo. Porque se a imprensa for silenciada, o que virá a seguir? A cidadania?
Moçambique precisa urgentemente de responder a esta pergunta. Antes que já não haja ninguém livre o suficiente para fazê-la.



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