Juventude que ignora o seu próprio dia

OPINIÃO
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Alexandre Chiure

No dia 12 de Agosto, o mundo assinalou o Dia Internacional da Juventude. Curiosamente, a data passou despercebida no seio dos jovens moçambicanos. O que eu esperava era que fosse transformada numa jornada de luta com a camada juvenil a sair às ruas a exigir que as suas preocupações, que não são poucas, sejam atendidas pelo governo.

A juventude carece de muita coisa. Debate-se com a falta de habitação. Os projectos, nesta área, desenhados e lançados em nome de jovens, são abundantes, mas os preços de apartamentos, de 25 a 30 mil dólares, são inacessíveis para quem está a iniciar a vida e ganhar um salário modesto de 15 a 20 mil meticais.

O facto remete-nos à política de habitação que me parece inadequada às necessidades dos jovens. É que as casas que têm estado a ser construídas, quer pelo Fundo de Fomento à Habitação, quer por iniciativa de alguns investidores estrangeiros, estão longe de constituir solução para demanda que se faz sentir no país.

Atribuir terrenos infra-estruturados e criar uma linha de crédito para a habitação, com juros bonificados para que os jovens possam, eles próprios, construir as suas casas de sonho seria a melhor solução.

As oportunidades de negócio são escassas. Quando estas aparecem, ficam nas mãos das mesmas pessoas, nomeadamente os filhos e os afilhados de gente influente no governo ou no partido no poder. O cidadão comum, esse que é tido como patrão dos governantes, é para esquecer.

Não há emprego. Os postos de trabalho disponibilizados por instituições públicas e privadas, em forma de concurso público, na maior parte dos casos, é só para o inglês ver. Existem vencedores antecipados. Nestas coisas, o amiguismo, o nepotismo e o compadrio falam mais alto.

Outros são admitidos mediante a compra da vaga. Ou paga ou larga. O candidato é exigido o adiantamento de um ou dois meses de salário, correspondente à posição em concurso, o que é difícil para muitos.

O jovem que sai hoje da academia é excluso do mercado do emprego com a imposição de requisitos como experiência profissional comprovada cinco anos, o que não é possível para quem quer iniciar a carreira. Questiono se o país tem ou não uma política do emprego e, se existe, o que diz em termos de empregabilidade de jovens que estão a sair das universidades.

O exército de jovens desempregados e com formação superior está a crescer a olho nu. Por uma questão de sobrevivência, alguns se tornaram agentes de Mpesa e E-Mola. Outros, são guardas nas empresas de segurança.

O grupo maior dos sem ocupação é constituído por miúdos que concluíram a décima segunda classe ao longo dos últimos anos. Fulanos que não sabem fazer absolutamente nada, mas a pressionarem o governo para lhes oferecer o emprego.

De algum tempo a esta parte, o Estado cometeu o erro de investir mais na expansão do ensino geral do que propriamente no técnico onde os alunos aprendem a saber fazer.

O mais grave ainda é o facto de ter sido extinto o ensino técnico-profissional básico que formava carpinteiros, electricistas, pedreiros, canalizadores e mestres-de-obra prontos para servir. Técnicos preparados para criarem o seu auto-emprego.

O resultado é que se abriram oportunidades de colocação nestas áreas, em algumas empresas, em particular as multinacionais, e o país tinha muito pouco por oferecer em termos de mão-de-obra.

Por incrível que pareça, Moçambique dá-se ao luxo de ter médicos desempregados. O Estado não os contrata alegadamente por problemas orçamentais. Mais de 300 estão nessa situação, num país em que o rácio é de 1 a 2 médicos por cerca de 100 mil habitantes. O aconselhável, de acordo com a Organização Mundial de Saúde, é de 1 por 10 mil.

Hoje, temos a juventude perdida no mundo das drogas. Jovens sem nada a fazer que se refugiam no álcool, consumindo bebidas espirituosas, tudo por conta da frustração, sendo que o seu futuro está comprometido. A solução para o problema não é propriamente proibir a produção e comercialização de bebidas espirituais, mas sim, a ocupação de jovens em actividades úteis para o país. É preciso ir atrás das causas e não das consequências do alcoolismo juvenil.

Estas questões todas são mais do que suficientes para, numa ocasião destas em que se comemora o Dia Internacional da Juventude, os jovens moçambicanos saírem à rua e exprimir a sua insatisfação pela falta de políticas públicas apropriadas, nas áreas da educação, saúde, emprego, habitação e noutros sectores, direccionadas para a solução das preocupações dos jovens ou da sociedade em geral.

Mas depois de pensar bem, dei razão aos jovens por não terem se manifestado. É que a organizar a marcha, teriam que ser jovens ligados a partidos políticos na oposição, incluindo os seguidores de Venâncio Mondlane. Qualquer iniciativa dessas seria prontamente reprimida pela UIR, com os agentes a atirarem para matar. Infelizmente é proibido, em Moçambique, fazer uma manifestação.

A iniciativa de marchar só podia partir da Organização da Juventude Moçambicana (OJM) ou do Conselho Nacional da Juventude, entidades ligadas à Frelimo e autorizadas a promover manifestações. Só que a agenda não seria a mesma de reivindicar os direitos, mas sim, de elogiar o governo pelos feitos na área da juventude.

Aliás, há uma manifestação que o partido Frelimo organizou em que se queimou um dia útil de trabalho para saudar o Presidente da República por aquilo que fez nos seus primeiros seis meses de governação. Depois teremos outra quando completar um ano, um ano e meio, dois anos e assim em diante.

Não sei se Daniel Chapo vai ser saudado como PR ou como presidente da Frelimo. Se é na primeira qualidade, está errado. Não cabe ao partido no poder tomar essa iniciativa, mas aos moçambicanos em geral porque ele é presidente de todos. Esses, sim, têm a legitimidade de sair à rua e dizer se estão satisfeitos ou não com a sua governação.

Mesmo que seja para o saudar como presidente do partido, com os manifestantes vestidos de gala, ostentando as insígnias da Frelimo, também está errado. Chapo fez o que fez em missão de Estado, como PR, e não na qualidade de presidente do partido.

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