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- Autoridades defendem urgência nos cuidados primários
- Crise das doenças crónicas não transmissíveis exige uma mudança de paradigma, alertam autoridades.
- Prevalência de hipertensão arterial na população moçambicana ronda os 34,9%.
Cerca de trezentas pessoas perdem a vida mensalmente, só na capital do País, devido a complicações decorrentes de doenças cardiovasculares (DCV), um dado estatístico, frio na sua apresentação, mas avassalador na sua implicação social. A revelação, feita pelo Ministro da Saúde, Ussene Isse, durante o encerramento da Primeira Reunião Científica sobre Saúde Cardiovascular, na Cidade de Maputo, lança um foco de luz sobre a silenciosa e crescente epidemia das Doenças Crónicas Não Transmissíveis (DCNT) no País.
Luísa Muhambe
Essa taxa de mortalidade, que sublinha a pressão insustentável sobre as unidades de saúde da capital, posiciona as DCV, nomeadamente a hipertensão, o Acidente Vascular Cerebral (AVC) e o enfarte do miocárdio, como as principais causas de óbito intra-hospitalar, ocupando uma posição de destaque no panorama das DCNT, que, de acordo com dados globais do sector, são já responsáveis por cerca de um terço de todas as mortes registadas em Moçambique.
Perante este cenário alarmante, o titular da pasta da Saúde, Ussene Isse, não hesitou em apontar a solução estratégica: o reforço imediato e robusto dos cuidados de saúde primária (CSP). A sua defesa baseia-se numa realidade demográfica incontornável: cerca de 65% da população moçambicana reside no meio rural, onde o acesso à medicina especializada é significativamente mais limitado.
“Os cuidados primários são o pilar fundamental da nossa governação. Se nós intervirmos muito forte nos centros de saúde, no subsistema comunitário, tratando lá a população, promovendo a saúde e prevenindo, iremos reduzir muitas das complicações que estamos a ter hoje,” afirmou o Ministro Ussene Isse, sublinhando que a prevenção nas bases é o caminho mais eficaz para desafogar os hospitais centrais e de referência.
A intervenção nos CSP passaria pela detecção precoce de factores de risco, como a hipertensão arterial, a diabetes e o colesterol elevado, antes que se transformem em emergências médicas, como o temido AVC ou o enfarte. O objectivo é criar uma primeira linha de defesa capaz de gerir as doenças crónicas a nível local, evitando desfechos fatais e a necessidade de internamentos complexos e dispendiosos nas unidades hospitalares de Maputo.
Um em cada três moçambicanos sofre de hipertensão
A preocupação do Governo encontra um forte eco nos estudos epidemiológicos recentes realizados no País. Dados apurados pelo Instituto Nacional de Saúde (INS) e outras entidades parceiras indicam que a prevalência de hipertensão arterial na população moçambicana ronda os 34,9%, um número que dispara para valores superiores a 40% em cidades como Maputo.
Essa patologia, frequentemente assintomática é o factor de risco cardiovascular mais preponderante, sendo a causa principal de insuficiência cardíaca e renal. Segundo as autoridades sanitárias, um em cada três moçambicanos sofre de hipertensão, colocando uma vasta fatia da população adulta sob um risco significativo de morbilidade e mortalidade prematura nas próximas décadas.
A somar a isso, o perfil de risco metabólico está a mudar rapidamente, sobretudo nos centros urbanos. A crescente urbanização e a adopção de estilos de vida menos saudáveis, caracterizados pelo sedentarismo, o consumo excessivo de sal, açúcar e gorduras, o tabagismo e o consumo prejudicial de álcool estão a alimentar a progressão das DCV. O Ministro da Saúde fez questão de lembrar que essas patologias, ligadas a maus hábitos, geram uma “elevada pressão” sobre todo o Sistema Nacional de Saúde (SNS), do norte ao sul do País.
A Primeira Reunião Científica sobre Saúde Cardiovascular, que decorreu nos dias 07 e 08 de Novembro, serviu como plataforma para debater estratégias e partilhar conhecimento. O evento reuniu especialistas nacionais e internacionais, com o propósito de capacitar os profissionais de saúde moçambicanos e de fortalecer a cooperação institucional.
Nesse contexto, o Ministro Ussene Isse defendeu a necessidade de “criar robustez” no sector da Saúde, não só através de infra-estruturas e equipamentos, mas também pela formação de quadros especializados. Reforçou a importância de programas de prevenção secundária, que visam o melhor acompanhamento dos doentes após a alta hospitalar, de forma a prevenir novas complicações e recidivas.
Outra via de intervenção, discutida durante o encontro, passa pela integração do conhecimento da medicina tradicional no combate às doenças cardiovasculares, numa tentativa de aliar a ciência moderna aos saberes locais, que podem ter um impacto significativo na mudança de comportamentos e na adesão a tratamentos, sobretudo nas zonas rurais.
O combate a essa epidemia silenciosa implica um investimento significativo em recursos humanos, tecnologia e, crucialmente, em educação para a saúde. Moçambique, tal como outros Países em Desenvolvimento (PVD), enfrenta o desafio da dupla carga de doença, onde as doenças transmissíveis (como a Malária e o VIH/SIDA) coexistem com o rápido crescimento das DNT.
A luta contra as 300 mortes mensais em Maputo é um imperativo de desenvolvimento socioeconómico. As mortes prematuras e as incapacidades causadas pelo AVC ou pelo enfarte retiram do activo económico indivíduos em idade produtiva, com um impacto devastador nas famílias e na economia nacional.
A mensagem deixada pelo Ministro da Saúde no encerramento da Reunião Científica é clara: a prevenção é a única estratégia sustentável para Moçambique enfrentar esta crise. Exige-se uma mobilização multissectorial que vá além dos hospitais, alcançando as escolas, os locais de trabalho e as comunidades, para promover um estilo de vida mais saudável e garantir que a pressão arterial e a glicemia sejam controladas de forma rotineira, salvando as vidas dos moçambicanos nas suas próprias comunidades.



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