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- Sem novo programa, sectores essenciais podem sofrer – alerta economista
- Dívida elevada e défices fiscais continuam a pressionar o país
A conclusão da consulta do Artigo IV do Fundo Monetário Internacional à República de Moçambique deixou um aviso firme às autoridades nacionais: apesar de alguns sinais positivos recentes, os riscos macroeconómicos continuam elevados e a dívida pública permanece insustentável. Um dos maiores entraves, está, segundo apurámos, numa suposta manipulação da taxa de inflação pelo Banco de Moçambique e o Instituto Nacional de Estatisticas, que mantém o dólar sobrevalorizado, quando a sua taxa real devia ser de 90 meticais por unidade de dólar. A avaliação surge num momento particularmente sensível, marcado por dificuldades crescentes de financiamento, necessidade de consolidação fiscal e pressão sobre os sectores sociais. Economista ouvido pelo Evidências alerta que podemos estar na iminência de colapso de sectores sociais e essenciais.
Edmilson Mate
No comunicado final, os directores executivos do FMI reconheceram avanços como a inflação controlada desde finais de 2023, reservas internacionais equivalentes a cerca de 6,5 meses de importações, a retoma de um grande projecto de gás natural liquefeito (GNL) e a retirada do País da lista cinzenta da Força-Tarefa de Acção Financeira. Ainda assim, sublinharam que persistem vulnerabilidades significativas associadas a grandes défices fiscais, fragilidades institucionais, choques climáticos frequentes e crescimento económico modesto fora do sector extractivo.
A economia tem registado uma recuperação gradual após a contracção verificada no final de 2024, num contexto de instabilidade política e eleitoral. O défice da conta corrente diminuiu em 2025, mas continua acima do nível considerado consistente com os fundamentos económicos do país. Ao mesmo tempo, o financiamento externo líquido mantém-se negativo, e os bancos comerciais nacionais, principais financiadores da dívida interna — atingiram níveis elevados de exposição ao Estado.
Perante este cenário, o défice fiscal reduziu-se de 6,2% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2024 para 4,5% em 2025, sobretudo devido a cortes em despesas com bens, serviços e investimentos públicos. Para o FMI, contudo, a consolidação precisa de ser mais profunda e estrutural, com contenção da massa salarial, alargamento da base tributária, melhor gestão financeira pública e maior transparência na dívida e nas empresas estatais.
No plano monetário, o banco central foi elogiado pela postura prudente, mas o Fundo considera limitado o espaço para aliviar as condições monetárias, devido à rigidez cambial e ao risco de agravar a escassez de divisas. A médio prazo, a inflação poderá voltar a subir caso se mantenha o financiamento monetário dos défices.
O Governo reagiu reconhecendo os desafios apontados, mas destacou que a recuperação económica reflecte reformas fiscais em curso e medidas para dinamizar o sector produtivo. Sublinhou ainda que os projectos de GNL deverão gerar receitas substanciais a partir de 2030, funcionando como catalisadores da transformação económica. Como parte da estratégia de resposta, o Estado contratou a empresa norte-americana Alvarez & Marsal para assessorar a implementação de medidas ligadas à gestão da dívida pública e à preparação de um eventual novo programa com o FMI.
Sem FMI, risco para sectores sociais
Para o economista Camilo Flora, a ausência de um novo empréstimo do FMI representa um sinal de alerta claro sobre a vulnerabilidade macroeconómica do país. Na sua leitura, o posicionamento da instituição indica que Moçambique ainda não cumpriu condições consideradas essenciais para aceder a financiamento concessional, como uma consolidação fiscal credível e maior flexibilidade cambial.
Segundo Flora, o impacto é simultaneamente económico e financeiro. Economicamente, reforça a percepção de que a dívida pública é insustentável e que os desequilíbrios fiscais são estruturais. Financeiramente, retira ao país o chamado “efeito catalisador” do FMI, mecanismo que normalmente desbloqueia financiamento adicional de doadores e investidores internacionais. Sem esse respaldo, o Estado tende a depender mais do mercado interno, onde o financiamento é mais caro e limitado.
O economista alerta que esta conjuntura pode agravar a crise de financiamento do Estado e afectar sectores essenciais como saúde e educação. Com financiamento externo reduzido e menor espaço para endividamento interno, o Governo poderá ser forçado a intensificar cortes na despesa pública.
“Se a consolidação fiscal recair excessivamente sobre a massa salarial e os investimentos sociais, os impactos poderão ser sentidos directamente na prestação de serviços básicos”, observa.
Flora considera que o elevado nível da dívida pública é o factor central na posição cautelosa do FMI. A instituição procura assegurar a sustentabilidade da dívida antes de autorizar novos desembolsos, evitando que empréstimos adicionais prolonguem ciclos de fragilidade financeira. Mesmo após a saída da lista cinzenta da FATF, acrescenta, os problemas estruturais, défices persistentes, fragilidades institucionais e vulnerabilidade externa, continuam a influenciar negativamente a percepção de risco do País.
Na sua análise, a posição do FMI funciona também como sinal para outros parceiros internacionais. Sem um novo programa apoiado pelo Fundo, doadores e investidores tendem a agir com maior prudência, o que pode limitar fluxos de ajuda e investimento nos próximos meses.
Para recuperar credibilidade e estabilidade, o economista defende um pacote de reformas implementado com rigor e transparência: consolidação fiscal sustentável, contenção da despesa corrente, alargamento da base tributária, maior flexibilidade cambial, prudência monetária e reforço da governação económica.
“Recuperar confiança não depende apenas de anúncios, mas de execução consistente”, conclui.
O FMI indicou que a próxima avaliação ao abrigo do Artigo IV deverá ocorrer dentro de 12 meses. Até lá, o desempenho das reformas e a capacidade de gestão das finanças públicas serão determinantes para o futuro da economia moçambicana.



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