Share this
O ano lectivo de 2026 arrancou oficialmente na sexta-feira, 27 de Fevereiro, na cidade da Beira, província de Sofala, numa cerimónia central dirigida pelo Presidente da República, Daniel Chapo. A partir da Escola Básica de Esturro, o Chefe do Estado declarou aberto o novo ciclo escolar, num contexto marcado por desafios estruturais persistentes e pelos efeitos recentes de calamidades naturais que voltaram a expor a fragilidade do sistema educativo.
Elísio Nuvunga
Inicialmente previsto para 30 de Janeiro, o arranque das aulas foi adiado pelo Governo devido às cheias generalizadas que afectaram várias regiões do país. Entre 1 de Outubro de 2025 e 25 de Fevereiro de 2026, Moçambique enfrentou ventos fortes, incêndios, chuvas intensas acompanhadas de descargas atmosféricas, cheias, inundações e a passagem do Ciclone Tropical Gezani, fenómenos que deixaram marcas profundas em diferentes sectores, incluindo o da educação.
Dados do Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres indicam que 717 escolas foram afectadas, bem como 2.098 salas de aula e 170 blocos administrativos. Em muitas zonas, o ano lectivo começa com turmas reorganizadas, infra-estruturas por reabilitar e comunidades escolares ainda em processo de recuperação.
A pressão sobre o sistema agrava-se com um défice estimado em cerca de 12 mil professores, ao mesmo tempo que o sector prevê o ingresso de mais de um milhão de novos alunos em 2026. O aumento da procura intensifica a sobrecarga sobre recursos humanos, infra-estruturas e orçamento, numa altura em que persistem dívidas relacionadas com horas extraordinárias acumuladas desde 2023.
Actualmente, o País conta com aproximadamente 13.771 escolas, das quais 11.622 são primárias e 688 secundárias. No entanto, apenas 62% funcionam em condições convencionais, enquanto 37% operam em infra-estruturas precárias. Existem cerca de 51.111 salas convencionais contra aproximadamente 30 mil precárias. Estima-se ainda que perto de 10 mil turmas funcionem debaixo de árvores e que o défice nacional ultrapasse 35 mil salas de aula, com turmas que chegam a integrar entre 75 e 100 alunos — números que revelam a dimensão do desafio.
Na cerimónia de abertura, o Presidente da República destacou o compromisso do Governo com a expansão da rede escolar e a melhoria das condições de aprendizagem, apelando à preservação do património público.
“Escolas são património de todos. Professores, alunos, pais e encarregados de educação e toda a comunidade devem zelar pelo património e por todo o equipamento aqui instalado. Conservar é tão importante quanto construir”, afirmou, defendendo maior vigilância e intervenção imediata em caso de danos.
Por sua vez, a Ministra da Educação e Cultura, Samaria Tovela, reiterou o compromisso do sector em elevar o desempenho pedagógico e transformar adversidades em oportunidades de superação, sublinhando a necessidade de resiliência face às crises cíclicas que afectam o país.
O novo ano lectivo arranca também com a inauguração de infra-estruturas, com destaque para Sofala, que passa a contar com duas novas escolas construídas de raiz, com capacidade para acolher cerca de 7.800 alunos em dois turnos. Ainda assim, entre edifícios danificados, carência de docentes e superlotação crónica, 2026 começa como mais um teste à capacidade de resposta e sustentabilidade do sistema educativo moçambicano.
Mais de duzentas mil crianças fora da escola
Segundo a Organização Não-Governamental Save the Children, cerca de 230 mil crianças poderão perder aulas este ano devido às consequências das intempéries registadas desde Outubro de 2025.
“As crianças no sul de Moçambique estão na linha da frente da crise climática. Inundações consecutivas destruíram as suas escolas e privaram-nas da educação, colocando os seus futuros em risco, e a temporada de ciclones acaba de começar. Milhares de crianças e famílias já sofrem com os impactos de ciclones e emergências climáticas anteriores”, afirmou Ilaria Manunza, directora nacional da organização em Moçambique.
Num país onde a educação é frequentemente apontada como pilar do desenvolvimento, o arranque do ano lectivo de 2026 evidencia uma realidade complexa: entre promessas de expansão, desafios climáticos e limitações estruturais, o sistema continua a lutar para garantir o direito básico à aprendizagem em condições dignas.



Facebook Comments