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- Pressão desloca-se para uma nova direcção
- Kigali desloca o centro de pressão para o Governo
A deslocação do Presidente da República, Daniel Chapo, a Bruxelas (Bélgica) terminou sem sinais de que a União Europeia (UE) tenha acomodado a crescente pressão de Kigali para assegurar a continuidade do financiamento à presença militar ruandesa em Cabo Delgado. Pelo contrário, o silêncio europeu em torno desta matéria sensível reforça a percepção de que Bruxelas pretende distanciar-se de um dossiê cada vez mais complexo, tanto do ponto de vista político como estratégico. Sem garantias concretas, o impasse abriu espaço para uma nova fase de pressão diplomática, agora com epicentro em Maputo. Informações a que o Evidências teve acesso em meios diplomáticos indicam que está em preparação uma eventual visita do Presidente do Ruanda, Paul Kagame, a Moçambique antes de Maio, período que coincide com o fim do financiamento europeu através do mecanismo European Peace Facility (EPF). A escolha do timing coincide com o momento crítico em que Kigali procura garantir a continuidade de apoios financeiros para manter as suas tropas no norte do país.
Nelson Mucandze
Esta movimentação representa uma mudança clara de estratégia. Se Bruxelas não responde às exigências ruandesas, Kigali desloca o centro de pressão para o Governo de Daniel Chapo, que passa a assumir maior responsabilidade na definição do futuro da operação e vem mostrando cautela na gestão desse dossiê que, ao contrário do seu antecessor, preocupou-se em dar uma cobertura jurídica à operação bilateral.
Durante anos, o Ruanda e o governo de Filipe Nyusi sustentaram que a intervenção em Cabo Delgado não dependia de financiamento externo, mas de amizade solidária. A narrativa oficial, repetida em vários fóruns internacionais, apresentava a presença militar como um gesto de solidariedade regional, desprovido de encargos significativos para Moçambique ou para parceiros externos. No entanto, os factos que vieram à tona nos últimos anos desmontam progressivamente essa versão.
Hoje, é amplamente reconhecido que a missão ruandesa beneficiou de financiamento europeu através do EPF, num montante que ultrapassa os 40 milhões de euros ao longo dos quatros anos. Para além disso, há elementos consistentes de que empresas ligadas ao regime ruandês passaram a operar em Cabo Delgado com vantagens competitivas, beneficiando de acesso privilegiado a contratos e oportunidades de negócio, sobretudo nas áreas de segurança, logística e prestação de serviços.
Este quadro levanta questões profundas sobre a natureza da intervenção. O que inicialmente foi apresentado como cooperação militar pontual revela-se, afinal, como uma operação com múltiplas dimensões, desde económicas, estratégicas e até políticas, que ultrapassam largamente o discurso oficial.
Acrescem a estas dúvidas suspeitas persistentes sobre a existência de fluxos financeiros pouco transparentes. Há referências, ainda não esclarecidas, a pagamentos mensais de 2,5 milhões de dólares, realizados a partir de Maputo, incluindo através de canais diplomáticos no período da presidência de Filipe Nyusi, que poderão ter contribuído para sustentar a presença ruandesa. Embora estas alegações careçam de confirmação formal, alimentam um clima de desconfiança em torno dos termos reais do acordo bilateral, que afinal nunca foram nada transparentes.
Ruanda contornado pela União Europeia?
Neste contexto, a recente decisão da União Europeia de aprovar 36 milhões de euros em ajuda humanitária para a região, dos quais 20 milhões destinados a Moçambique, ganha uma leitura política adicional. O valor coincide com montantes anteriormente associados ao apoio à missão ruandesa, mas, desta vez, é canalizado fora do EPF e exclusivamente para fins humanitários.
Este reposicionamento de Bruxelas pode ser interpretado como um sinal de cautela. A União Europeia continua comprometida com a resposta à crise em Cabo Delgado, mas evita assumir um papel directo na sustentação de uma presença militar estrangeira que levanta questões sensíveis, incluindo no plano do direito internacional e da soberania dos Estados.
No terreno, contudo, a realidade mantém-se inalterada. As forças ruandesas continuam a desempenhar um papel central na segurança do distrito de Palma, onde se localiza o perímetro estratégico de Afungi. É nesta zona que está instalado o megaprojecto de gás natural liquefeito, considerado um dos mais importantes investimentos energéticos em África e peça-chave para o futuro económico de Moçambique.
A estabilidade deste corredor é vital para investidores internacionais, incluindo empresas europeias e norte-americanas que dependem de condições de segurança para retomar plenamente as operações. Neste sentido, a presença ruandesa tem sido vista como um factor determinante para garantir a protecção das infra-estruturas e a confiança dos mercados.
É precisamente esse valor estratégico que reforça o poder negocial de Kigali. Ao admitir publicamente a possibilidade de retirar as tropas caso não haja financiamento sustentável, o Ruanda expõe uma fragilidade estrutural do modelo adoptado em Cabo Delgado, que é de dependência de uma força estrangeira para assegurar um dos activos económicos mais importantes do país.
Mais do que uma questão militar, trata-se de um problema de soberania, transparência e sustentabilidade. A continuidade da missão ruandesa deixa de ser apenas uma decisão de segurança e passa a envolver escolhas políticas de longo alcance, com implicações para a credibilidade de Moçambique.
A eventual visita de Paul Kagame a Maputo surge, assim, como um momento potencialmente decisivo. Para além de discutir o futuro da cooperação militar, o encontro poderá clarificar ou aprofundar os termos financeiros, políticos e estratégicos da presença ruandesa no país.
Depois do silêncio de Bruxelas, o centro das decisões regressa a Maputo. E com ele regressam também as perguntas que durante anos foram evitadas: quem financia realmente a guerra em Cabo Delgado, em que condições e com que contrapartidas?



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