“Chapeiros mandam passear Governo”: Já não confiam na promessa de compensação

DESTAQUE SOCIEDADE
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  • Retomam actividade com desconfiança e ameaça de nova paralisação
  • Problema de transportes continua no Grande Maputo devido à paralisação dos ‘chapas’
  • Trabalhadores e estudantes são os mais afectados. Aulas e trabalho condicionados
  • Rasaque Manhique seduz transportadores com licenciamento gratuito

Os operadores de transporte semi-colectivo de passageiros retomam, hoje, de forma tímida e marcada por forte desconfiança, as actividades no Grande Maputo, depois de dias de paralisação que mergulharam a região metropolitana numa crise de mobilidade. Apesar do apelo do Governo para o regresso à normalidade com promessa de compensação directa aos operadores com valores que variam entre 35.470 meticais para operadores de transporte semi-colectivo “chapas” e até 141 mil meticais para autocarros e viaturas articuladas, esta seguna-feira voltou a ser de autêntico martírio para milhares de passageiros que se amotinaram nas paragens, mas o transporte escasseava e a esperança de um chapa a chegar parecia, para muitos, uma espera sem fim. À medida que as horas avançavam, o cenário repetia-se em vários pontos da cidade: enchentes crescentes nas paragens e passageiros disputando cada lugar disponível nos poucos veículos em circulação. Os “chapeiros” afirmam já não acreditar nas promessas de compensação feitas pelas autoridades e admitem voltar a paralisar caso não haja medidas concretas nos próximos dias.

Edmilson Mate, Elísio Nuvunga e Redacção

Após a paralisação do transporte na cidade de Maputo, que se seguiu ao anúncio da subida do preço de combustíveis na passada quarta-feira, o Governo tentou remediar a situação, na passada sexta-feira, anunciando a reintrodução do subsídio directo aos transportadores, como forma de conter a subida do transporte.

Como tal, fixou cerca de 35.470 meticais para operadores de transporte semi-colectivo de passageiros (“chapas”) e até 141 mil meticais para autocarros e viaturas articuladas. Segundo o secretário de Estado dos Transportes, Chinguane Mabote,  o cálculo da compensação terá em conta critérios como lotação da viatura; distância percorrida e consumo de combustível.

Os transportadores ouviram atentos, mas, contrariamente ao que era expectativa do Governo, não retomaram aos trabalhos durante o fim-de-semana que se seguiu e, esta segunda-feira, mantiveram os motores de seus carros desligados para o desespero de milhares de passageisos que se viram obrigados a desistir de se dirigirem ao trabalho ou a actividades lectivas, no caso dos alunos.

A paralisação de transportes privados, que respondem à demanda dos perto de dois milhões de passageiros diários na área metropolitana de Maputo, teve efeitos mais visíveis nas cidades de Maputo e Matola.

Desde as primeiras horas da manhã, longas filas voltaram a formar-se nas principais paragens do Grande Maputo, numa demonstração de que o problema dos transportes está longe de ser resolvido, apesar de o Governo ter tentado fazer uma demonstração de força, com introdução de novos autocarros, questão longe de satisfazer a demana, como se viu já no fim desta segunda-feira, em que, na hora da ponta, o sistema de transportes roçou o colapso, com os “My Loves” e mototaxistas a voltarem a ser alternativa. Casos houve em que os mototaxistas viram-se obrigados a transportar três passageiros de uma só vez.

Trabalhadores chegaram atrasados ou foram obrigados a recorrer a alternativas mais caras, enquanto muitos estudantes enfrentaram dificuldades para chegar às escolas e universidades. Em vários pontos da cidade de Maputo e da Matola, houve relatos de aulas condicionadas devido à ausência de alunos e professores sem meios de transporte.

Transportadore já não confiam no Governo

Os transportadores afirmam que a promessa do Governo de criar mecanismos de compensação para aliviar os custos do sector perdeu credibilidade. “Já ouvimos muitas promessas. O combustível sobe, as peças sobem, tudo sobe, mas quando pedimos apoio só aparecem reuniões”, queixou-se um operador da rota Museu–Zimpeto.

Numa tentativa de acalmar os ânimos e evitar o colapso total do sistema de transporte urbano, o presidente do Município de Maputo, Rasaque Manhique, anunciou medidas destinadas a seduzir os operadores, entre elas o licenciamento gratuito para transportadores que actuam no município. A iniciativa é vista pelas autoridades municipais como uma forma de reduzir encargos administrativos e incentivar o regresso dos chapas às estradas.

Contudo, entre os operadores prevalece a incerteza. Muitos consideram que a isenção de taxas de licenciamento é insuficiente perante a escalada dos custos de operação, sobretudo do diesel, principal factor de produção do sector dos transportes.

A ameaça de nova paralisação continua sobre a mesa. Alguns transportadores avisam que poderão voltar a recolher os veículos caso o Executivo não cumpra com suas promessas e não apresente soluções consideradas reais e sustentáveis para o sector. Enquanto isso, a população continua refém de um sistema de transporte frágil, incapaz de responder à crescente procura urbana.

Outro transportador disse ao Evidências que a paralisação das actividades poderá continuar porque os operadores já não acreditam nas “velhas” promesas do Governo, que no final do dia não são cumpridas.

“Não é a primeira vez que o Governo promete resolver esta situação. Já disse no passado e nada fez. É por isso que muitos defendem aumentar a tarifa para a sua sobrevivência”, explicou.

Na rota Baixa-Facim, um dos “chapeiros” explicou que a redução de viaturas em circulação está directamente ligada à escassez de combustíveis e ao aumento de custos de operação após última actualização dos preços de compra.

“A situação está complicada. O combustível está caro e, em alguns casos, nem se consegue abastecer facilmente. Assim já não dá para trabalhar, muito menos fazer receita para entregar ao patrão porque, como sabem, o motorista não recebe e entrega receita todos os dias. Não tem vantagem”, disse indignado.

Avaliações escolares comprometidas

Nas paragens, o cenário é de desespero e incerteza. Passageiros ouvidos pelo nosso jornal contam cenários de “arrepiar”. Os utentes relatam longas horas de espera, caminhadas forçadas e gastos adicionais para se fazer aos seus destinos.

Maria João, residente da Matola, contou que foi obrigada a sair de casa ainda de madrugada para conseguir chegar ao trabalho na cidade de Maputo.

“Saí pouco depois das quatro horas porque já sabia que não haveria transporte suficiente. Mesmo assim, apanhei filas enormes e tive de caminhar uma longa distância”, disse.

Já Ernesto Cossa, estudante universitário, afirmou que muitos alunos estão a enfrentar dificuldades para chegar às aulas devido à escassez de “chapas” e ao agravamento das tarifas, o que está a comprometer a realização de avaliações.

“Estamos a gastar muito mais dinheiro do que o normal. Há rotas onde os preços aumentaram de repente e quem não tem dinheiro suficiente acaba por caminhar. Estamos em semana de avaliações. Tenho uma irmã que está na quarta classe e hoje tinha avaliação, mas não teve como ir à escola”, lamentou.

Por sua vez, Ana Jamisse, trabalhadora doméstica, explicou que além do cansaço provocado pelas longas caminhadas, muitos passageiros são obrigados a recorrer a transportes alternativos mais caros para evitar faltar ao emprego.

“Estamos a sofrer muito. O salário já não chega porque quase todo o dinheiro fica no transporte. Há dias em que fazemos parte do percurso a pé porque não conseguimos pagar os novos preços”, contou.

Município de Maputo tenta seduzir transportadores com licenciamento gratuito

O presidente do Conselho Municipal da Cidade de Maputo, Rasaque Manhique, apelou esta segunda-feira à união entre o município, associações de transportadores e operadores não licenciados para aliviar o sofrimento da população nas paragens, numa altura marcada pela crise no sector dos transportes públicos.

Durante a sua intervenção, Manhique reconheceu o momento “conturbado” que a cidade atravessa e defendeu que o foco principal deve ser o bem-estar da população.

“A nossa população está a sofrer nas paragens e não devemos continuar da forma em que nos encontramos”, afirmou, explicando que o Governo central disponibilizou novos autocarros que começaram a circular ontem, numa tentativa de reduzir os constrangimentos enfrentados pelos munícipes.

Apesar disso, Manhique defendeu que o esforço não será suficiente sem a integração dos transportadores não licenciados no sistema formal de transporte.

O presidente do município recordou que, no ano passado, o Conselho Municipal promoveu, por duas vezes, campanhas gratuitas de regularização de transportes sem licença, mas lamentou a fraca adesão de alguns operadores.

“Não gosto muito de tratá-los por ilegais. Trato-os por não licenciados”, disse, anunciando o relançamento imediato de uma nova campanha gratuita de licenciamento, destinada a todos os transportadores que ainda operam fora do sistema formal.

De acordo com Manhique, o município poderá criar brigadas móveis para deslocar-se até aos locais onde os operadores trabalham, com o objectivo de facilitar o processo de regularização.

“Vamos até ao encontro destes transportadores para os licenciar”, garantiu, apelando às associações de transportadores para colaborarem com o município na identificação e integração dos operadores ainda não licenciados.

ATROMAP minimiza impacto

Por seu turno, o presidente da Associação dos Transportadores Rodoviários de Maputo (ATROMAP), Batista Macuvule, apelou aos operadores não licenciados para aderirem ao processo de regularização, defendendo que a medida poderá permitir que mais transportadores beneficiem das compensações anunciadas pelo Governo.

Falando à imprensa após a reunião com as autoridades municipais e representantes do sector, Macuvule afirmou esperar que os operadores informais passem a licenciar as suas viaturas.

“Esperemos que todos os não licenciados comecem a licenciar as suas viaturas, de modo que se façam ver ao público os benefícios da compensação”, afirmou.

Questionado sobre o actual cenário do transporte público, o dirigente explicou que, neste momento, apenas os transportadores licenciados continuam a operar, apesar dos elevados custos enfrentados pela classe.

“São somente os licenciados que estão a trabalhar, porque a factura é penosa para eles”, disse, reconhecendo os efeitos negativos e já visíveis nas estradas da cidade.

“As pessoas querem deslocar-se de um ponto para o outro, hospitais não conseguem deslocar-se. Então, esse impacto é negativo, e não é isso que nós queremos”, lamentou.

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