Um  “Preto” de Extrema-Direita

OPINIÃO
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Estêvão Chavisso

A principal evidência do colapso estrutural da sociedade moderna está na rápida proliferação de movimentos de extrema-direita no Ocidente, com a direita radical a ocupar hoje 25% dos lugares do Parlamento Europeu (perto de 130 deputados do total de 720 assentos).

A proliferação de movimentos ideologicamente eurocépticos ganha forma e expressão desde o Brexit, com um recurso ao populismo nacionalista e conservacionista, perante uma sociedade moderna desiludida com as democracias neoliberais das últimas décadas.

Entre os principais factores destacam-se, por um lado, a crise económica global resultante, primeiro, do período pós-pandemia e, em segundo, de conflitos de impacto sistémico (Russa -Ucrânia e, recentemente, EUA-Irão).

Por outro, a crise migratória, que reascende um debate sobre identidades, valores, religião e cultura. A percepção de que o Ocidente está a ser invadido ganha cada vez mais força, sendo um dos principais argumentos dos movimentos da extrema-direita mundial.

A estratégia destes movimentos baseia-se sobretudo em três eixos, nomeadamente o populismo (definição de um inimigo comum – que são normalmente as minorias), nacionalismo xenófobo e conservacionista (visão tradicionalista e fundamentalista sobre temas como valores culturais, identidade e migração) e guerra cultural digital (desinformação e manipulação de massas a partir de plataformas digitais).

O perfil dos principais seguidores deste movimento é heterogéneo, desde nacionalistas conservadores, passando pelo cidadão pacato que perdeu a crença nas instituições políticas e económicas, até ao xenófobo e supremacista, incluindo, em alguns casos, neonazis.

O movimento de extrema-direita no Ocidente não questiona necessariamente as ideias políticas de uma esquerda hoje obsoleta, mas sim a ordem institucional estabelecida no quadro do xadrez definido pela democracia, num acto de “rebeldia” que caiu nas graças sobretudo das camadas mais jovens.

Dados agregados mais recentes nos Estudos Eleitorais Europeus (EES) revelam que 21% dos homens com menos de 30 anos apoiam partidos de extrema-direita ou radicais.

Curiosamente, segundo os mesmos dados, embora o óbvio discurso misógino típico destes movimentos, 14% das mulheres abaixo dos 30 anos apoiam a extrema-direita.

No geral, metodologicamente, a extrema-direita identifica os problemas reais e, a partir de discursos de ambiguidade calculada, promove ideias populistas e radicais, mesmo sob flagrante negação da universalidade dos direitos humanos.

Não se trata de um simples desvio civilizacional desde a Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948), o movimento de extrema-direita radical que assalta hoje o Ocidente é a reconfiguração da base ideológica para sistemas totalitários, um manual “simples” de princípios fascistas que pode ser aplicado em qualquer lado do mundo.

O ex-ideólogo de Trump, Steve Bannon, descrito como o articulador da extrema-direita mundial, já declarou publicamente o seu plano de montar uma fundação para estimular a criação de movimentos de extrema-direita na Europa. É neste aspecto que reside o perigo universal para a democracia, sobretudo para sociedades estruturalmente frágeis, como as nossas.

É verdade que jargão político “esquerda ou direita” não se aplica com eficácia ao xadrez político africano, mas a leitura de factos recentes mostra, timidamente, movimentos isolados a recorrerem a estratégias e ideais de extrema-direita: nacionalismos de base etnocêntrica, xenofobia e desinformação.

Na África do Sul, por exemplo, a direita radical de supremacia branca Freedom Front Plus e os seus aliados extra-parlamentares já não são a preocupação. Pelo contrário, curiosamente, hoje, é o próprio preto que se aproxima gradualmente à extrema-direita.

A milícia sul-africana de extrema-direita “Operação Dudula”, já registada como partido político, é um exemplo.  “Put South Africans First” é o slogan que este movimento adopta, um empréstimo à doutrina que elegeu, por duas vezes, Trump nos EUA, típico de direita.

Este movimento sul-africano respeitou criteriosamente a ordem de actuação de movimentos de extrema-direita: primeiro, definir um inimigo comum, de preferência grupos vulneráveis – nada melhor que os estrangeiros (negros).

Segundo, como metodologicamente defende o “manual” de princípios de extrema-direita, colocar em causa o sistema e as próprias instituições do Estado (Polícia e os Serviços de Migração) e, por último, desinformar para manipular a opinião pública.

O principal argumento para os ataques violentos contra estrangeiro negros, já com mortos registados na África do Sul, baseia-se na ideia de que o país está a rebentar pelas costuras, os estrangeiros estão a tirar empregos aos sul-africanos e que o aumento da criminalidade é resultado deste mesmo problema. É um facto que, devido à sua magnitude, a África do Sul é regionalmente a mais procurada, mas estes argumentos estão a ser usados para outros fins, tendo em conta que os dados mostram outra realidade.

Em 2022, um estudo do Institute for Security Studies (ISS), em Pretória, revelava que existem cerca de 3,9 milhões de migrantes (que compõem uma vital força de trabalho dos sectores de baixa renda), ou seja, 6,5% da população, número dentro dos padrões internacionais para uma potência regional com 65,4 milhões de pessoas.

Por outro lado, a ideia de que a criminalidade na África do Sul aumenta devido aos estrangeiros negros é também pura estratégia de desinformação ao estilo da direita radical, tendo em conta que, segundo dados oficiais, apenas 2,3% dos prisioneiros condenados por ano são estrangeiros sem autorização de residência.

Ademais, de acordo com dados da International Catholic Migration Commission (ICMC), cerca de 96% dos postos de trabalho continua a ser ocupado por trabalhadores sul-africanos. A população imigrante tem maior incidência no sector informal e em trabalhos sazonais ou de baixas qualificações, que, embora profundamente importantes, desinteressam à maior parte dos sul-africanos.

A África do Sul é só um exemplo que nos devia fazer pensar sobre a nossa posição como africanos face à acensão de ideais radicais de extrema-direita no mundo actual, sobretudo perante as nossas limitações estruturais, com destaque para a educação, tendo em conta que uma das estratégias deste movimento é a guerra cultural.

A expansão de ideais de extrema-direita em África não seria apenas um retrocesso para as nossas já frágeis democracias, mais do que isso, estes movimentos seriam um barril de pólvora para os conflitos étnicos e tribais latentes, já que, fundamentalmente, baseia-se na “territorialização da subjectivação”.

É uma patologia colectiva de “subjectividade neurótica” em que uma comunidade decide superiorizar as “identidades omnipresentes”, fechando-se em egos dentro de fronteiras físicas e mentais, na ambição de lhes atribuir uma auto-suficiência inexistente.

As consequências da multiplicação destes movimentos seriam gravíssimas, sobretudo num contexto em que as fronteiras foram definidas arbitrariamente, fragmentando povos, culturas e etnias.

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