Share this
Cinquenta e um anos depois da proclamação da Independência Nacional, Moçambique continua a debater-se com alguns dos mesmos desafios que marcaram o pós-1975: pobreza, desemprego, dependência externa e fraca transformação da riqueza natural em bem-estar para a população. Foi neste contexto que as celebrações deste ano ficaram marcadas pelo surgimento de um novo conceito no discurso político nacional: a necessidade de conquistar uma “segunda independência”, desta vez económica, assente na produção, produtividade e criação de riqueza dentro do país.
Edmilson Mate
Moçambique continua a ser um dos países mais pobres do mundo e dependentes da ajuda externa e do financiamento internacional. A agricultura continua a empregar mais de 70% da população, mas permanece marcada por baixos níveis de produtividade, reduzido investimento e elevada vulnerabilidade às secas, ciclones e cheias. A economia informal continua a absorver mais de 80% da força de trabalho nacional, enquanto a dívida pública e as limitações orçamentais restringem a capacidade do Estado para investir em infra-estruturas e serviços sociais.
Embora os indicadores macroeconómicos revelem avanços em sectores como educação, saúde, expansão da rede viária e acesso à energia; o contraste entre o potencial do país e a realidade vivida por milhões de moçambicanos continua a alimentar o debate em torno da chamada “segunda independência”: uma independência económica capaz de libertar o país da dependência externa e transformar riqueza natural em bem-estar colectivo.
Foi precisamente esta ideia que dominou as celebrações do 51.º aniversário da Independência Nacional, realizadas na cidade de Maputo. O Presidente da República, Daniel Chapo, destacou que a independência política conquistada em 1975 deixou de ser suficiente para garantir a verdadeira soberania nacional.
“O grande desafio do nosso tempo é transformar a liberdade conquistada pelos combatentes em prosperidade concreta para todo o povo moçambicano”, afirmou, destacando que Moçambique entrou numa nova fase da sua história, na qual a principal batalha passa pela conquista da independência económica.
“Por estas razões, a segunda independência chama-se produção e produtividade. Chama-se trabalho árduo. Chama-se disciplina. Chama-se patriotismo e nacionalismo económico”, declarou.
A mensagem surge numa altura em que o país enfrenta dificuldades financeiras significativas, escassez de divisas e elevados níveis de endividamento público, ao mesmo tempo que procura relançar grandes projectos de gás natural e recuperar a confiança dos investidores internacionais. A dívida pública moçambicana ronda actualmente os 91% do Produto Interno Bruto e continua a ser considerada insustentável pelas instituições financeiras internacionais.
Chapo defendeu igualmente a necessidade de uma nova cultura nacional baseada na integridade, mérito, responsabilidade e combate à corrupção, considerando que a boa gestão dos recursos públicos constitui um elemento central da independência económica.
Ao dirigir-se à juventude, o Presidente sustentou que cabe às novas gerações liderar esta nova fase da libertação nacional, tal como a geração de 1964 conduziu a luta armada pela independência política.
A defesa da segunda independência surge num país frequentemente descrito como um paradoxo económico. Moçambique possui algumas das maiores reservas mundiais de gás natural, importantes depósitos de grafite, rubis, areias pesadas e carvão mineral, para além de vastas extensões de terra arável e uma localização estratégica no Oceano Índico.
Ainda assim, milhões de moçambicanos continuam dependentes da agricultura de subsistência e do sector informal para garantir a sobrevivência diária. O desemprego continua particularmente severo entre os jovens, precisamente o grupo que representa a maioria da população nacional. Todos os anos, centenas de milhares de jovens entram no mercado de trabalho sem que a economia consiga gerar empregos formais suficientes para os absorver.
Chissano acredita no potencial do país
Entre os convidados das celebrações esteve também o antigo Presidente da República, Joaquim Chissano, que manifestou confiança na capacidade do país para alcançar níveis de desenvolvimento comparáveis aos de outras nações.
Falando à imprensa à margem das cerimónias, Chissano destacou a resiliência demonstrada pelos moçambicanos ao longo das últimas cinco décadas. O antigo estadista considera que o país dispõe hoje de condições mais favoráveis do que aquelas existentes em 1975, apontando sobretudo para uma juventude mais escolarizada, com maior acesso ao conhecimento, à tecnologia e à inovação.
“O povo moçambicano nunca deixou de trabalhar nas dificuldades. Sempre trabalhou e sempre teve esperança. Hoje temos uma juventude muito esclarecida, uma juventude que pode pesquisar e inovar. Portanto, a nossa esperança é maior”, defende
Num exercício de optimismo, Chissano afirmou acreditar que, dentro de mais cinco décadas, Moçambique poderá posicionar-se ao nível das nações mais desenvolvidas.
“Daqui a 51 anos seremos um povo ao nível de outras nações desenvolvidas, porque já temos as bases e temos pessoas que querem fazer”, subscreve.
Sempre presente nos eventos do Estado, o presidente do PODEMOS, Albino Forquilha, oferece uma leitura semelhante, embora mais crítica. Para o dirigente político, a independência política conquistada em 1975 ainda não conseguiu traduzir-se plenamente em melhorias concretas na vida da maioria dos cidadãos.
“Um dos objectivos fundamentais, que é de facto a liberdade e a independência económica, ainda está por ser alcançado”, disse Forquilha, defendendo que os próximos anos devem representar uma ruptura em relação às últimas décadas, através de políticas orientadas para a criação de oportunidades económicas e melhoria das condições de vida da população.



Facebook Comments