O Jornalismo também tem um tecto de Vidro

OPINIÃO
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Celina Henriques

Ela grava a entrevista no telemóvel, no meio de uma manifestação em Maputo, e envia por WhatsApp para a redacção antes de o colega chegar ao carro. É rádio comunitária, é jornal privado, é televisão pública, pouco importa. É assim que, hoje, se faz jornalismo em Moçambique: com equipamento próprio, tempo próprio, formação própria. E é precisamente aí, nesse “próprio”, que começa uma história que o país ainda não quis olhar de frente.

Um estudo académico recente, conduzido junto de doze jornalistas, seis directores de redacção e dois formadores universitários moçambicanos, chegou a um número que devia incomodar qualquer redacção séria: duas em cada três jornalistas actualizam as suas competências digitais por iniciativa própria, sem qualquer apoio institucional. Apenas uma em quatro domina edição de vídeo, a competência hoje mais valorizada, e mais bem paga, nas redacções digitais. Um director de jornal admite-o sem rodeios: a formação fica por conta de cada uma, “não tem sido a instituição a garantir isso”.

O padrão que os dados revelam não é de exclusão explícita. É mais subtil, e por isso mais difícil de combater: as tarefas técnicas, actualização de sites, edição de imagem e vídeo, vão maioritariamente para os homens; às mulheres sobra, muitas vezes, aquilo que uma das jornalistas entrevistadas descreve como “conteúdo leve”. Um director de redacção resume o paradoxo com uma franqueza rara: as mulheres “são mais competentes e dedicadas”, mas “não são dadas oportunidades”. Reconhece-se o mérito. Nega-se o acesso. É a definição exacta daquilo que a investigadora Margaret Gallagher chamou, há quase quatro décadas, de “barreiras invisíveis” e que, quase quarenta anos depois, continuam de pé.

O custo que ninguém contabiliza

Há uma forma de olhar para estes números que raramente se discute nas redacções, e que devia entrar na conversa: o preço. Cada curso pago do próprio bolso, cada computador comprado em prestações e cada programa de edição aprendido em noites sem descanso representa um investimento privado que deveria ser responsabilidade das empresas de comunicação. Não é uma despesa neutra nem simbólica, é dinheiro real, tirado do salário de quem já ganha, em muitos casos, menos do que os colegas homens em funções equivalentes, para financiar a formação que a própria empresa deveria oferecer como condição de trabalho. Quando duas em cada três jornalistas pagam a sua actualização profissional, o que está a acontecer, na prática, é uma transferência silenciosa de custos da empresa para a trabalhadora, um subsídio invisível que elas dão às redacções, e que nunca aparece em nenhum balanço.

Convém dizer isto com clareza, para que ninguém pense tratar-se de exagero: os números não nasceram em Moçambique nem terminam em Moçambique. O Projecto Global de Monitorização dos Media, o maior estudo mundial sobre género e notícias, apurou este ano que as mulheres continuam a representar apenas 26% das pessoas ouvidas, vistas ou citadas nas notícias em todo o mundo, menos de um terço, quando são metade da população. Moçambique não é excepção a uma regra internacional. É, isso sim, um caso onde a regra se cruza com fragilidades próprias: redacções digitais nascidas por necessidade e não por estratégia, equipamento obsoleto, orçamentos que mal chegam ao impresso, quanto mais ao digital.

E há um dado que devia doer particularmente: das jornalistas com presença activa nas redes, a maioria relata já ter sido alvo de assédio online, insultos, ameaças, em casos mais graves, montagens humilhantes e intimidação sobre a localização da família. A resposta institucional, quando existe, tende a culpabilizar quem foi atacada: sugere-se que sejam “menos visíveis”, que mudem a fotografia de perfil. A responsabilidade de evitar a violência é devolvida a quem a sofre, não a quem a pratica. O resultado, contam as próprias jornalistas, é a auto-censura, deixar de escrever sobre certos temas não por falta de coragem, mas por cansaço de pagar sozinha o preço de fazer o trabalho.

O paradoxo moçambicano

A política é, precisamente, o sector onde Moçambique tem melhores números. Basta descer um degrau para a economia real para a fotografia mudar por completo. Segundo dados oficiais do Iinstituo Nacional de Estatística (INE), mais de metade das mulheres na força de trabalho (55,1%) não sabe ler nem escrever em nenhuma língua, quase o dobro da taxa entre os homens (29,2%). E, mesmo depois da entrada em vigor de uma nova Lei do Trabalho pensada para reforçar a protecção da maternidade, a proporção de mulheres no total de novos empregos formais criados em 2024 manteve-se praticamente inalterada, à volta de 28-29%. Uma parte dos próprios empregadores admitiu, em estudos sobre o tema, que pensaria duas vezes antes de contratar uma mulher em idade reprodutiva,  prova de que uma lei bem-intencionada, sem medidas que acompanhem o seu custo para quem contrata, pode produzir o efeito contrário ao que promete.

O jornalismo digital, com os seus 67% de auto-formação e a sua única em quatro jornalistas a dominar edição de vídeo, encaixa-se exactamente neste padrão intermédio: nem a excepção positiva da política, nem o fosso bruto da economia informal, mas um sector onde o mérito é reconhecido em palavras e negado em oportunidades. A lição que estes três retratos ensinam, lidos em conjunto, é incómoda mas necessária: representação formal não é o mesmo que condição material, e uma lei aprovada não é o mesmo que uma lei que funciona. Números bons num sector não compram nem substituem os números maus de outro. Cada sector e, dentro de cada sector, cada instituição concreta, tem de responder pelos seus próprios resultados.

A lição que isto ensina é incómoda mas necessária: representação formal não é o mesmo que condição material. Pode haver mulheres sentadas no parlamento e, ao mesmo tempo, jornalistas a pagar do próprio bolso a formação que a redacção se recusa a financiar. Os números bons de um sector não compram nem substituem os números maus de outro. Cada sector tem de responder pelos seus próprios resultados.

A quem cabe agir

Um problema com esta forma estrutural, repetido em sectores diferentes, com mecanismos parecidos, não se resolve com um único responsável. Há, pelo menos, três mãos que têm de se mexer ao mesmo tempo, e nenhuma substitui as outras.

Ao Estado cabe transformar princípios constitucionais em obrigações verificáveis. A Estratégia Nacional de Inclusão Digital, integrada na ENDE 2025-2044, fala em inclusão digital de forma genérica; precisa de metas específicas para o sector mediático, com dados desagregados por género publicados anualmente, hoje, ao contrário do que acontece com o mercado de trabalho em geral, não existe um retrato oficial e regular sobre quantas mulheres ocupam funções técnicas ou de decisão nas redacções moçambicanas. Cabe também ao Estado corrigir o efeito perverso já visível na nova Lei do Trabalho, se a protecção da maternidade está a afastar empregadores em vez de os obrigar a partilhar o custo, é preciso rever o desenho do incentivo, não abandonar a protecção. E cabe-lhe, através de entidades como o GABINFO ou em articulação com o Sindicato Nacional dos Jornalistas, tornar obrigatória a existência de protocolos de resposta ao assédio online como condição para licenciamento ou apoio institucional aos órgãos de comunicação social.

Às redacções cabe deixar de tratar a formação técnica como um problema pessoal de cada jornalista. Orçamentos de capacitação em edição de vídeo, análise de dados e inteligência artificial aplicada ao jornalismo têm de incluir, deliberadamente, as mulheres, não por bondade, mas porque a auto-formação nas margens do horário de trabalho tem um tecto que a formação institucional não tem. Cabe-lhes também escrever e divulgar, não arquivar numa gaveta, políticas claras contra o assédio online, com canais seguros de denúncia e consequências reais para quem ataca, em vez de sugerir às vítimas que mudem a fotografia de perfil. E cabe-lhes publicar, mesmo que internamente, quantas mulheres e quantos homens ocupam funções técnicas e cargos de decisão, o que não se mede, dificilmente se corrige.

É verdade que muitas redacções enfrentam enormes limitações financeiras. Mas precisamente por isso importa perguntar se a escassez explica tudo ou se também reproduz prioridades antigas que continuam a colocar as mulheres longe das áreas consideradas mais estratégicas. Quando há dinheiro para renovar equipamento, ele tende a chegar primeiro às funções já ocupadas por homens. Quando há uma vaga numa formação externa, financiada por um parceiro internacional, tende a ser preenchida por quem já está mais próximo do centro de decisão. A escassez é real; a forma como ela é distribuída não é neutra.

Às próprias jornalistas cabe transformar em força colectiva aquilo que hoje é, sobretudo, estratégia individual. As redes informais de apoio entre colegas, os grupos de WhatsApp onde se partilham oportunidades e se sobrevive em conjunto ao desgaste, já existem e funcionam; o passo seguinte é dar-lhes forma organizada, através do sindicato do sector ou de associações profissionais, como por exemplo a associação de mulheres jornalistas, para que o assédio e a discriminação deixem de ser histórias contadas em privado e passem a ser dados sistematizados, capazes de pressionar redacções e reguladores. A resistência individual, por mais admirável que seja, tem um custo de saúde e de tempo que não é sustentável a longo prazo, e não substitui a mudança estrutural que só a acção colectiva e institucional conseguem impor.

O que fica por dizer

Não se trata de vitimizar ninguém. As jornalistas moçambicanas não são figuras passivas nesta história, organizam-se, ensinam-se umas às outras, aprendem sozinhas com tutoriais, planificam o tempo ao detalhe para conciliar redacção e casa. Nove em cada dez continuam optimistas quanto ao futuro da profissão. Essa resistência merece ser dita com respeito, não com pena. Mas é preciso também dizer, sem branduras, que resiliência individual não substitui política institucional. Uma jornalista que se forma sozinha às três da manhã, depois de terminar as tarefas domésticas, não está a resolver um problema estrutural, está a compensá-lo, ao seu próprio custo.

Este não é um problema que se resolva com boa vontade ou com discursos em Março e Abril, à volta do Dia da Mulher. Resolve-se com decisões concretas, que custam dinheiro e exigem vontade: orçamentos de formação técnica que incluam, deliberadamente, as jornalistas; políticas escritas e conhecidas, não arquivadas numa gaveta, contra o assédio online, com canais seguros de queixa e consequências reais para quem ataca; investimento em equipamento que não obrigue ninguém a “usar um computador quase obsoleto”, como descreveu uma das participantes do estudo.

As redacções moçambicanas têm hoje uma escolha. Podem continuar a tratar a desigualdade de género como um dado adquirido, invisível porque “sempre foi assim”. Ou podem entender que um jornalismo mais justo para as suas jornalistas é, também, um jornalismo mais completo para os seus leitores.

Quando uma jornalista abandona a profissão por exaustão, ou deixa de investigar determinados temas para evitar perseguições online, não é apenas ela que perde. Perde a sociedade, que fica privada de olhares, fontes e histórias que talvez nunca cheguem ao espaço público. Perde o leitor que nunca vai saber da reportagem que não foi escrita porque quem a poderia escrever preferiu o silêncio à exaustão. A escolha não pertence só ao Estado, nem só aos directores de redacção. Pertence também a quem lê, a quem partilha, a quem decide que jornalismo vale a pena defender.

Uma redacção onde as mulheres têm menos oportunidades é também uma redacção onde o país vê menos de si próprio. Porque quem conta as histórias influencia, inevitavelmente, as histórias que ficam por contar.

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