Rabeca, a Descendente de Reis e Rainhas

OPINIÃO
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Estêvão Chavisso  

A memória mais sagrada da minha adolescência na periferia de KaMavota está ancorada às noites no quintal da minha mãe a ouvir histórias sobre a sua vida em Manjacaze, terra onde ela nasceu, a quase 300 quilómetros da capital moçambicana.

Ao luar, no calor húmido do verão da periferia de Maputo, Rabeca Mondlane contou-me a história de um passado de homens nobres, numa terra onde tradicionalmente os apelidos tinham mais peso que nomes.

Eram histórias que atravessaram séculos, sobreviveram aos diferentes processos de aculturação, passadas de geração em geração, muitas vezes à volta da fogueira em terras onde poucos ousavam sonhar.

A minha mãe acreditava que circulava nas nossas veias “sangue puro”, uma espécie de “descendência distante” das últimas linhagens da família de um dos vários “Hossanas”, sub-reis do vasto Império de Gaza.

Um dado que eu não precisei sequer recorrer à reconstrução da árvore genológica da família dela para descartar quando mais adulto, mas, para mim e para ela, naquela altura, fazia todo o sentido, já que preenchia de legitimidade aquelas noites ao luar em KaMavota.

Com um olhar lacrimejante e o tímido sorriso de lado tipicamente Machangana, Rabeca contou-me a história de homens e mulheres cuja bravura e percurso não constavam dos manuais oficiais, desconstruindo, com base na tradição oral, a simplista visão que me era impingida todos os dias nas aulas.

Mais do que meros limites cronológicos (1824 – 1895), Rabeca contou-me folclore do Império de Gaza, a dinâmica e costume dos povos “ngunis”, a importância dos curandeiros e as metamorfoses que marcaram as diferentes fases do último reduto da resistência contra a bárbara ocupação colonial portuguesa.

Eram histórias de um lugar de existência colectiva, terras onde a fartura e a miséria eram compartilhadas.

Diferente do que eu aprendia na escola, eram histórias com vida, personagens e sentimentos, dramas que não estavam escritos em livros, mas viviam na memória colectiva de um povo que nunca deixou de sorrir, embora motivos não faltassem – tanto ontem como hoje.

Rabeca, cujos registos académicos não foram mais do que a 4.ª Classe, ensinou-me que eu era descendente de reis e rainhas e não de escravos, alertando-me, quase sempre, que o mundo tentaria dizer-me o oposto.

Era algo que ela queria que carregasse comigo, não necessariamente para provar o meu valor, já que este nunca esteve em questão, mas para que eu nunca perdesse a conexão com a minha origem e identidade, independentemente de onde o destino me levasse, como se ela soubesse que, como o meu pai (um bom Madjonedjone), o meu destino era a estrada.

Ela explicou-me que as argolas de ferro nos pés e no pescoço de mulheres, homens e crianças na Rampa dos Escravos em Mossuril representavam um capítulo da nossa história que não deve ser esquecido, para evitar que se repita, mas não era o que nos definia.

A natural indignação adolescente que estas imagens me criavam era profunda e, com ela, a raiva contra os autores morais deste sistema que nos dizimou aos milhares, destruiu a nossa cultura e apagou a nossa história, com consequências que até hoje prevalecem.

Com aquele leve sorriso de lado tipicamente Machangana, como sempre, a resposta da minha mãe era mesma: “De onde nós somos, o ódio não tem espaço no coração das pessoas, independentemente do que se passou”.

Precisei de algumas décadas, maturidade e discernimento, para perceber que esta resposta, dada sempre com uma tranquilidade atípica perante um adolescente enfurecido e com desejo de vingança, era a prova de que realmente Rabeca Mondlane é descendente de reis e rainhas.

A nobreza do pensamento daquela senhora de 4.ª classe eu encontraria mais tarde folheando Senghor, Mandela, Appiah e Fanon, banhado, como se deve imaginar, de fundamentos filosóficos e políticos. Mas era exactamente o mesmo espírito.

A história dos nossos povos não começa na escravatura árabe ou na transatlântica.  Há um passado civilizacional de grandeza e glória que nos caracterizou em vários períodos da história e que nos deve orgulhar, com grandes contribuições para a humanidade.

Mas, mais do que isso, como africanos, a nossa principal virtude, que devia ser a nossa maior contribuição para a Humanidade, está na verdadeira ética da solidariedade colectiva escondida em cada um dos nossos corações, onde, como diria aquela senhora de 4.ª classe nascida em Manjacaze, o ódio não tem espaço. Esta é a principal prova da nossa nobreza.

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