Epidemia da cólera supera 9,5 mil contágios e faz 89 vítimas mortais no País

DESTAQUE SAÚDE
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  • Tete e Nampula continuam a liderar o número de mortes, com mais de 80% dos óbitos
  • ONU disponibiliza até dois milhões de dólares para conter novos surtos

A epidemia da cólera continua a representar um dos maiores desafios de saúde pública em Moçambique. Desde o início do actual surto, em Setembro de 2025, a doença já infectou 9.553 pessoas e provocou 89 mortes em todo o País, segundo os dados mais recentes da Direcção Nacional de Saúde Pública (DNSP), referentes ao período compreendido entre 3 de Setembro de 2025 e 25 de Julho de 2026. Em comparação com o balanço divulgado no princípio de Junho, foram registados mais de 450 novos casos e três mortes adicionais.

Luísa Muhambe

A evolução da epidemia continua marcada por fortes desigualdades regionais. Tete permanece como o principal foco de transmissão, acumulando 2.974 casos e 33 óbitos. Cabo Delgado surge em segundo lugar em número de infecções, com 1.137 casos e oito mortes. Já Nampula contabiliza 986 doentes, mas lidera o número de vítimas mortais, com 39 óbitos, o equivalente a quase 44% de todas as mortes registadas no País.

Em Sofala foram confirmados 921 casos e quatro mortes, enquanto Manica soma 386 infectados e três óbitos. A Zambézia registou 146 casos e duas mortes.

No Sul do País, a incidência mantém-se residual. Gaza, a província de Maputo e a cidade de Maputo notificaram apenas um caso cada, sem qualquer registo de vítimas mortais.

Apesar do elevado número de infecções, a taxa de letalidade nacional permanece nos 0,9%, significativamente inferior à observada durante a vaga epidémica entre Outubro de 2024 e Julho de 2025, quando foram notificados 4.420 casos e 64 mortes, com especial incidência na província de Nampula.

A redução do ritmo de transmissão coincide com o fim da época chuvosa, período em que a proliferação da bactéria é favorecida pelas inundações e pela contaminação das fontes de água. No início do ano, pelo menos 42 distritos registavam focos activos da doença. Em Junho esse número reduziu para 16 e, segundo o balanço mais recente, apenas cinco distritos continuam a apresentar transmissão comunitária activa.

Os centros de tratamento recebem actualmente menos de dez novos pacientes por dia, reflectindo o abrandamento sazonal da epidemia.

Ainda assim, as autoridades sanitárias alertam que a cólera permanece uma ameaça recorrente, alimentada pelas dificuldades de acesso à água potável, pelo défice de saneamento básico e pelos frequentes eventos climáticos extremos, como ciclones e cheias.

Perante este cenário, o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA) aprovou um novo Quadro de Acção Antecipatória destinado a financiar intervenções antes que pequenos surtos evoluam para epidemias de grande dimensão.

O mecanismo associa a vigilância semanal dos casos de diarreia aquosa aguda à libertação automática de recursos de emergência, reduzindo o tempo de resposta das autoridades e dos parceiros humanitários. O plano prevê uma dotação inicial de até 1,7 milhões de euros para financiar a distribuição de purificadores de água, kits de higiene, medicamentos e equipas médicas nos distritos de maior risco.

Deste montante, cerca de 1,5 milhões de dólares serão disponibilizados através do Fundo Central de Resposta a Emergências (CERF) durante os dois anos de vigência do programa, com desembolsos de até 750 mil dólares por cada activação. O financiamento será complementado pelas agências das Nações Unidas presentes em Moçambique, elevando o pacote global para aproximadamente dois milhões de dólares.

Com esta estratégia, as Nações Unidas pretendem garantir que os recursos cheguem às comunidades vulneráveis antes que a propagação da doença atinja níveis críticos, privilegiando a prevenção em detrimento da resposta de emergência.

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