Fernando Jone acusa Sebastião Mussanhane de protagonizar “guerra (pessoal) aberta” contra si

DESTAQUE POLÍTICA
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  • Crise no PODEMOS está longe de dar tréguas
  • Jone considera individual a posição de Mussanhane contra a sua reposição no cargo
  • Se não conseguimos resolver as guerrilhas entre nós, não faz sentido sonhar em exercer o poder”
  • “As divisões internas podem comprometer a credibilidade do PODEMOS perante os eleitores
  • Considera saudável a relação com Forquilha, mas admite que este pode estar a ser agitado

A crise interna no Partido Optimista pelo Desenvolvimento de Moçambique (PODEMOS) está longe de dar tréguas. Mesmo depois da intervenção do Conselho Constitucional (CC), que anulou a eleição de Carlos Tembe para o cargo de Segundo Vice-Presidente da Assembleia da República e determinou a reposição de Fernando Jone na função, as divergências internas parecem ter ganho novos contornos. Em entrevista ao Evidências, Fernando Jone aponta directamente o chefe da bancada parlamentar do PODEMOS, Sebastião Mussanhane, como um dos principais actores da contestação à sua reposição no cargo, acusando-o de estar a transformar uma divergência política numa disputa pessoal.

Luisa Muhambe

Ao comentar o Acórdão n.º 5/CC/2026, Fernando Jone afirmou que a decisão representa a reposição da legalidade e da verdade num processo que culminou com a sua retirada da Mesa da Assembleia da República. Para o deputado, o pronunciamento do Conselho Constitucional demonstra que as instituições devem funcionar dentro dos limites estabelecidos pela lei.

“É uma situação confortante no sistema jurídico nacional. O acórdão vem repor a verdade e, por isso, não estaria de outra forma senão manifestar grande satisfação”, afirmou Jone.

O conflito ganhou contornos jurídicos depois de a bancada parlamentar do PODEMOS retirar a confiança política a Fernando Jone, abrindo caminho para a sua substituição no cargo de Segundo Vice-Presidente da Assembleia da República.

Apesar do confronto político e jurídico, Jone afirma que, no seu entendimento, a sua relação com o PODEMOS continua positiva. O deputado procura, porém, separar aquilo que considera serem os interesses institucionais do partido das posições individuais de alguns dos seus membros.

“Eu considero que a relação até aqui é positiva. Apenas tenho ouvido, através de pessoas, certos pronunciamentos aos quais, até ao ponto, não ligo”, afirmou.

Para Jone, algumas das manifestações públicas contra a sua reposição no cargo não devem ser confundidas com decisões formais do partido.

“Uma coisa é a verdade, outra coisa são os desesperos que as pessoas manifestam perante a verdade”, disse.

A declaração surge num momento em que Sebastião Mussanhane terá manifestado publicamente que não reconhece Jone no cargo de Segundo Vice-Presidente da Assembleia da República, apesar da decisão do Conselho Constitucional.

Para Jone, a posição assumida pelo chefe da bancada parlamentar representa uma opinião puramente individual e não necessariamente uma posição institucional do partido.

“Se ele dissesse que o partido reuniu-se de emergência e deliberou sobre isso, seria outra coisa. São opiniões individuais das pessoas. É a opinião dele, é a vontade dele”, explicou.

“Ele já declarou guerra aberta contra mim”

É neste contexto que Fernando Jone acusa directamente Sebastião Mussanhane de manter uma disputa pessoal consigo. Segundo o deputado, a actual tensão não resulta apenas de divergências políticas ou partidárias, mas de um conflito pessoal que, na sua leitura, estaria a ser transportado para dentro do PODEMOS.

Jone afirma ainda que Mussanhane terá, há algum tempo, anunciado aquilo que classificou como uma “guerra aberta” contra a sua pessoa.

“Ele tem problemas pessoais comigo. Ele já chegou a declarar ‘guerra aberta’ contra mim”, afirmou Jone, acrescentando que possui uma mensagem na qual, segundo ele, o chefe da bancada parlamentar teria feito essa declaração.

O deputado relaciona essa alegada hostilidade com o processo que culminou na retirada da confiança política e na perda do cargo na Assembleia da República.

“Ele próprio propôs a perda de confiança e a perda de lugar. É ele. Não é o partido. É ele que está a empurrar o partido para essa posição”, acusou.

As declarações colocam Mussanhane no centro da actual disputa interna no PODEMOS, num momento em que a decisão do Conselho Constitucional obriga o partido a lidar com as consequências políticas e institucionais da reposição de Jone.

Relação com Albino Forquilha continua “saudável”

Apesar das acusações dirigidas ao chefe da bancada parlamentar, Fernando Jone faz uma distinção em relação ao presidente do PODEMOS, Albino Forquilha. Sobre a relação com o líder do partido, Jone afirma que continua a considerá-la saudável.

“Eu considero a relação saudável. Eu sempre vou ao gabinete dele, bato à porta e converso com ele normalmente. Nunca tive impedimento. Pego no telefone, ligo, converso normalmente”, disse, explicando que mantém contacto directo e regular com Forquilha.

Jone admite, contudo, que o presidente do partido possa estar a receber informações que influenciem a sua percepção sobre o conflito.

“Ele pode ser influenciado”, reconheceu.

O deputado considera que rumores ou informações falsas podem contribuir para criar animosidades dentro da organização, sobretudo quando estão em causa disputas políticas e posições de liderança.

“A mentira exerce efeitos, dependendo da capacidade ou da maturidade do indivíduo que recebe a mentira. Há pessoas que são levadas pela mentira. Mais tarde podem descobrir que era mentira, mas, enquanto isso, o estrago já se fez”, argumentou.

Apesar disso, Jone insiste que não identifica, pelo menos publicamente, uma situação de inimizade com Albino Forquilha.

“Eu não considero que tenha alguma inimizade”, afirmou, acrescentando que, sempre que necessário, continua a procurar o presidente do partido para discutir questões internas.

Disputa pessoal ameaça aprofundar fissuras no partido

A disputa entre Jone e Mussanhane coloca o PODEMOS perante um novo desafio interno, num momento em que a formação política procura consolidar a sua posição no cenário político nacional.

Para Fernando Jone, a capacidade de resolver conflitos dentro da própria organização será determinante para a credibilidade do partido perante os eleitores. O deputado considera contraditório que uma formação política que pretende assumir responsabilidades na governação do país não consiga solucionar os seus próprios conflitos de forma institucional e em respeito pelos seus estatutos.

“Os partidos fazem parte do sistema político nacional e têm a expectativa de apresentar as suas ideias, as suas intenções e fazer-se escolher para gerir o Estado moçambicano”, afirmou.

Por isso, defende que o PODEMOS deve pautar-se pelo cumprimento das leis nacionais e das suas próprias regras internas.

“Se o partido fugir do sistema nacional das leis, estará em contramão para se fazer eleger”, advertiu Jone, descrevendo que os conflitos internos são observados pelos cidadãos e podem afectar a imagem pública de uma organização política.

“As pessoas que estão de fora estão a ver como é que o partido se comporta. Como é que um partido consegue resolver situações mesquinhas, mentirinhas dentro do seu partido? Se não consegue resolver dentro do seu partido, como é que conseguirá resolver num território tão vasto como Moçambique, do Rovuma ao Maputo?”, questionou.

“Não faz sentido sonhar com o poder sem resolver as guerrilhas internas”

Para Fernando Jone, o episódio deve servir de reflexão sobre a capacidade do PODEMOS de gerir os seus próprios conflitos antes de procurar convencer os eleitores de que está preparado para governar o país.

“A primeira coisa é a gente saber gerir dentro do nosso próprio território. Nesse caso, na nossa própria casa, que é o partido”, defendeu, deixando um alerta à direcção da formação política.

“Se a gente não for à altura de resolver algumas guerrilhas dentro do partido, então não faz sentido sonhar que, em algum momento, nós possamos impressionar as pessoas para nos votarem e exercermos o poder político”, concluiu.

Enquanto isso, Fernando Jone invoca o Acórdão do Conselho Constitucional como uma reposição da legalidade. No entanto, as posições divergentes dentro do próprio PODEMOS revelam que a decisão judicial ainda está longe de encerrar a disputa política em torno da sua permanência na Mesa da Assembleia da República.

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