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Alexandre Chiure
Decidi, mais uma vez, neste espaço, voltar a escrever sobre os partidos políticos na oposição, mas não para os criticar como o fiz em ocasiões anteriores ou expor publicamente as suas fraquezas, carências ou defeitos. Nada disso.
Desta vez quero dar-lhes alguns conselhos, se não mesmo oferecer uma assessoria gratuita como minha contribuição para que cresçam politicamente e consigam eleger pelo menos um ou dois deputados cada ou, no mínimo, ocupar alguns lugares nas assembleias municipais e provinciais.
No fundo, o que quero é que tenhamos uma oposição forte e capaz de, não só, fazer críticas a quem está a governar e dizer que está tudo errado, mas, sobretudo, para trazer um discurso diferente do habitual, de insultos, e passar a privilegiar a busca de soluções para os problemas que enfermam o povo moçambicano.
O primeiro exercício que cada uma das formações políticas na oposição deve fazer, em particular os extra-parlamentares, é dizer aos moçambicanos qual é a sua identidade. Se é um partido da direita ou da esquerda. Se defende os ideais da extrema-direita ou da extrema-esquerda ou, pura e simplesmente, é de centro.
É importante que isso esteja claro, pois é assim como cada partido pode ter o seu público ou construir a sua base de apoio. É que há entre os eleitores aqueles que se simpatizam com organizações partidárias que defendem, por exemplo, a igualdade social, o papel activo do estado na economia e a justiça distributiva, caracteristicas próprias de um partido de esquerda.
Partidos que entendem que o Estado deve controlar os sectores estratégicos e regular o mercado para evitar abusos, que apoiam impostos progressivos (quem ganha mais, paga mais) para financiar serviços públicos. Este grupo de formações políticas é pelos serviços públicos fortes ou por um investimento maciço na saúde, educação, transporte e segurança.
Mas há os que gostam de partidos da direita que são por uma economia do mercado, livre concorrência ou pelo capitalismo. Defendem propriedade privada, menor intervenção do Estado na economia, a privatização de empresas públicas e a preservação de valores tradicionais, moral e da religião. São, igualmente, por impostos mais baixos.
Outra faixa de eleitores apoia partidos de extrema-direita que se identificam com o nacionalismo forte, o controlo rigoroso das fronteiras e a defesa da família tradicional. Opõem-se fortemente à imigração e à globalização. Consideram o movimento imigratório como uma ameaça à identidade nacional e aos empregos locais. Apoiam a deportação de estrangeiros.
É justamente o que está a acontecer na África do Sul. Os partidos políticos que alimentam o discurso anti-imigração são da extrema-direita e, por incrível que pareça, arrastam consigo uma faixa significativa de eleitores sul-africanos. Curiosamente, todos estão representados no parlamento. São os casos de uMkhonto we Sizwe, de Jacob Zuma, com 58 deputados, ActionSA, que passou de movimento anti-imigração para um partido (seis assentos) e Patriotic Alliance (nove lugares).
Os da extrema-esquerda defendem a abolição do capitalismo, o fim da propriedade privada dos meios de produção e a criação de uma sociedade sem classes. São por uma economia planificada, poder popular, anti-globalização, justiça social e ambiental. Estamos a falar dos socialistas que têm os seus seguidores.
Então, senhores presidentes dos partidos, digam a que grupo pertencem, o que é que defendem, ou seja, qual é a vossa identidade para serem conhecidos e votados como tal.
O segundo exercício é o de abraçar uma causa e desenvolver toda a actividade política em torno da mesma.
O que vejo na arena política do país são partidos maioritariamente generalistas, a favor do vento. Não se sabe o que é que eles defendem, no concreto. Isso não funciona. Dificilmente terão seguidores porque são iguais uns aos outros.
Se fossem órgãos de comunicação social, diria que têm a mesma linha editorial. Bastaria comprar um jornal ou assistir ao telejornal de um dos canais de televisão para não se preocupar em gastar dinheiro e tempo com os outros. Alguns, para terem audiência, no caso de canais de televisão, ou conseguir vender, para o caso de jornais, teriam que optar pelo sensacionalismo, especulação ou dramatização dos assuntos.
Há partidos políticos que só pelos seus nomes não precisam de fazer mais nada que não seja trabalhar. Têm toda a vida facilitada. O Partido Trabalhista (PT), de Miguel Mabote, por exemplo. Será que ainda é preciso abraçar uma causa? Claro que não, pois já o é.
O PT tem um campo de manobras muito grande, desde a possibilidade de questionar políticas públicas direccionadas para o emprego, passando pela degradação da qualidade de vida dos trabalhadores, às injustiças sociais e salariais, maus-tratos nos locais de trabalho, etc. Só isso, bem explorado, pode fazer com que o partido arraste consigo muito eleitorado.
Os partidos Ecologista, de João Massango, e os Verdes será que é preciso que façam mais alguma coisa para terem uma base de apoio? Nada. Basta actuarem. Gente interessada em questões ambientais é o que não falta e há muito dinheiro nessa área.
As duas formações políticas necessitariam de investigar e denunciar casos de poluição dos rios ou de ambientes no acto de exploração de alguns recursos naturais, como é o caso de ouro, em Manica, carvão mineral, em Tete, o caso de megaprojectos que não respeitam os protocolos ambientais, prejuizos às comunidades, desmatamento do país, problemas de mau reassentamento, a falta de benefícios às comunidades da exploração florestal e não só e tantas outras coisas.
O partido que pegar nestas matérias e trabalhá-las politicamente com seriedade, criticando, sim, mas, sobretudo, trazendo propostas de solução, pode dormir e acordar no parlamento. Pode granjear simpatias do público, sim, mas, acima de tudo, respeito e consideração. Se querem chegar longe na política, aqui estão as dicas. Organizem-se e trabalhem focados em objectivos concretos. Só assim é que podem se tornar relevantes na sociedade.



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