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Estêvão Chavisso
Os ponteiros marcam 23:53. Uma vez mais, estou sentado diante do ecrã do meu computador, na quarta chávena de um café barato à espera de uma “grande ideia”.
No interior do meu bloco de notas já cansado, uma caneta separa as páginas por mim rabiscadas há alguns dias, quando uma ideia que me pareceu genial me ocorreu.
Hoje, nesta noite, estas notas não fazem qualquer sentido. O conforto da secretária dá-me, no entanto, a aparente sensação de estar inspirado para escrever.
Tenho, no mínimo, 3.000 caracteres por organizar para que um leitor que mal conheço leia e compreenda o que quis dizer aqui, numa altura em que as colunas dos jornais em Moçambique são mais “chatas” que a página de necrologia.
Eu tenho de convencer-me a mim, primeiro, que a minha coluna é diferente. Eu tenho de acreditar que, no meio do caos, alguém vai ler, por mais que seja naquele momento inútil em que as pessoas se sentam na sanita com o telemóvel na mão para ver se o tempo passa mais depressa.
De quando em vez, com olhos fixos no ecrã, ensaio um parágrafo, que pouco tempo depois é eliminado sob o espectro desesperado que se quer auto-crítico.
“Eu não sou o Fernando Manuel”, murmuro, enquanto acendo mais um cigarro e deixo-me levar por um instante, com os olhos no tecto.
Tenho tantas histórias, personagens e ideias, mas hoje parece-me tudo insosso. Nada de jeito me ocorre, mas tenho um compromisso nesta coluna com pessoas que mal conheço e este jornal estará disponível na terça-feira, com ou sem o meu texto.
Tanto faz, desabafo, poucos minutos antes de começar um novo parágrafo, que viria também a ser eliminado, dois minutos depois. Mas por que razão eu escrevo, questiono-me, após um profundo suspiro.
Há 13 anos, quando comecei, carregava um ilusório propósito: queria mudar o mundo com a caneta.
Em diferentes estilos e géneros, era uma escrita ingénua, mas fácil, já que carregava um propósito, por mais ilusório que fosse.
Esteticamente desajeitada, fazendo jus à confusão que sempre foi a minha cabeça, era uma escrita emotiva e apaixonada, saída do punho de um “miúdo” que tinha coragem para sonhar.
Hoje, quando pouco daquele miúdo resta, não sei ao certo o que realmente me motiva a perder mais uma noite à procura de palavras para preencher esta coluna.
Na altura, era uma volta por um universo peculiar, sob o qual repousava a alegórica impressão de se estar a ser fiel ao que eu sentia. Era, sem dúvida alguma, mera impressão, na medida em que, depois de dactilografadas, as palavras são todas estranhas para quem as escreve. Têm vida própria.
Há sempre dois ou três (bons) amigos que gostam dos teus rabiscos e fazem questão de o dizer. A eles sempre fui e sou grato, já que um elogio aqui outro acolá são sempre sons agradáveis aos ouvidos – principalmente quando se pode ganhar algumas moedas com isso.
Mas, se calhar, eu escreva por mero deleite. Se calhar seja apenas a manifestação esplêndida de um perfil narcisista e infinitamente egocêntrico, cuja ambição é “Dizer”. Se calhar é apenas pura masturbação.
Dediquei a última década a escrever para os outros e sobre outros. Hoje, devo admitir, sem grandes propósitos nem ilusões, eu escrevo para mim e sobre mim.
Eu escrevo para dentro, num encontro com as letras que me projecta o prazer de organizar as palavras. É um processo puramente voluntário, numa escrita nunca pomposa e totalmente receptiva.
Sem ilusões, sou simplesmente Eu: nu, como literalmente estou quando escrevo cada uma destas crónicas que semanalmente aqui partilho.
É um percurso totalmente desinteressado e cada vez mais desvinculado de metodologias que se querem universais. É um exercício subjectivo, simples e honesto e que dispensa títulos ou palmadas nas costas.
Reúno histórias do meu passado e as personagens são normalmente pessoas que amo, próximas ou distantes, cujos dramas dão cor a estes pequenos rabiscos grafados em papel branco que aqui partilho com cada um de vós às terças-feiras.
De parágrafo em parágrafo, são momentos singulares de uma pequena mente confusa, cicatrizes eternizadas em folhas brancas, partilhadas com pessoas que não conheço, embora as ame.
Escrevo como se de um compromisso se tratasse. Escrevo como se eu conhecesse cada uma das pessoas que, ao consultar este jornal, escolhe religiosamente “Um Café e a Conta” para ver o que eu tenho para dizer.
No entanto, por vezes, como hoje, honestamente, nada tenho a dizer, mas, como sempre, pelo menos, estou aqui e certamente estarei na próxima semana.



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