Bispos Católicos escrevem: Moçambique “perece sem rumo” e nem projecto comum

DESTAQUE POLÍTICA

A Conferência Episcopal de Moçambique (CEM) voltou a demonstrar preocupação, na última sexta-feira, com a prevalência da brutalidade em Cabo Delgado, destacando que os recursos naturais estão a ser subtraídos com “total falta de transparência”, o que alimenta “a revolta e o rancor no coração dos jovens”. Aliás, a CEM destaca ser difícil que os jovens tenham perspectivas “se o próprio país parece não ter rumo e um projecto comum, no qual são convidados a serem colaboradores activos”.

A insegurança que se vive em Cabo Delgado, caracterizada pela violência extrema que semeia luto e fuga de milhares de pessoas das suas casas em busca de um destino seguro, foi objecto de reflexão dos bispos católicos de Moçambique, que estiveram reunidos, há dias, na primeira sessão plenária de 2021, durante três dias.

Numa declaração aprovada na referida sessão plenária, descreve-se um cenário trágico, não só de violência causada pelo extremismo islâmico, mas também dos efeitos da insegurança alimentar e de fome que afectam as populações, bem como a violência que de várias formas se alastra no país, e tudo isso num contexto de pandemia da Covid-19.

O CEM vai muito mais longe, observando que o país está sem rumo, não se aventa nenhum projecto comum e não há perspectivas para os jovens, o que faz com que estes se tornem presas fáceis do terrorismo islâmico.

“Como podem ter os jovens perspectivas se o próprio país parece não ter rumo, um projecto comum, no qual são convidados a serem colaboradores activos e que alimentem a sua esperança? É nossa posição de que nada justifica a violência. Nem a situação difícil, de falta de uma perspectiva colectiva, partilhada como uma nação, nem ressentimentos, nem a intolerância ou interesses de parte, de natureza religiosa, política ou económica, devem desviar-nos, como um POVO para o caminho de qualquer tipo de insurgência”, lê-se numa declaração aprovada na Sessão Plenária que decorreu durante três dias em Maputo.

Por essa razão, o CEM escreve que neste contexto é fácil aliciar pessoas, cheias de vida e de sonhos, mas sem perspectivas e que se sentem injustiçadas e vítimas de uma cultura de corrupção, a aderirem a propostas de uma nova ordem social imposta com a violência ou a seguir ilusões de fácil enriquecimento que conduzem à ruína.

Os bispos moçambicanos lastimam a trágica situação que vive a população de Cabo Delgado, onde as pessoas indefesas são mortas, feridas e abusadas, e vêem os “seus bens pilhados, a intimidade dos seus lares violada, suas casas destruídas e cadáveres de seus familiares profanados”, para além de serem obrigadas a abandonarem a terra que os viu nascer e onde estão sepultados os seus antepassados.

Interesses de vária natureza e origem

A CEM alerta que cresce e consolida-se a “percepção de que por de trás deste conflito há interesses de vária natureza e origem, nomeadamente de certos grupos de se apoderarem da nação e dos seus recursos”.

Os bispos advertem que os recursos da região estão a ser explorados com total falta de transparência, o que alimenta a revolta e o rancor, no coração dos jovens, que se tornam fonte de descontentamento, de divisão e de luto, quando deveriam ser postos ao serviço das comunidades locais e tornarem-se fonte de sustento e de desenvolvimento.

São “recursos que, em lugar de serem postos ao serviço das comunidades locais e tornarem-se fonte de sustento e de desenvolvimento, com a construção de infra-estruturas, serviços básicos, oportunidade de trabalho, são subtraídos, na total falta de transparência, alimentando a revolta e o rancor, particularmente no coração dos jovens, e tornando-se fonte de descontentamento, de divisão e de luto”, escrevem os bispos.

“Reconhecemos que um dos motivos fortes que move os nossos jovens a se deixarem aliciar e a juntarem-se às várias formas de insurgência, desde a criminalidade ao terrorismo, ou também aquela outra insurgência, não menos nociva, do extremismo político ou religioso, assenta na experiência de ausência de esperança num futuro favorável por parte dos nossos jovens”, lembra o episcopado.

A CEP refere que, para a maioria dos jovens, “não há oportunidades de se construir uma vida digna”, a sociedade e decisores “ignoram o seu sofrimento e não escutam a sua voz”.

Os bispos de Moçambique reafirmam que nada justifica a violência, manifestam a total solidariedade com os mais fracos e com os jovens que anseiam uma vida digna e lembram que as religiões têm uma grande contribuição a dar na  resiliência das comunidades e perseguir um ideal de sociedade unida e solidária.

“Como missão da Igreja Católica tem sido sempre nosso compromisso colaborar para o bem da nação, apontando os perigos e esperando sempre que quem tem responsabilidades busque as devidas soluções”, afirma a CEM.

Os bispos de Moçambique pedem que as forças políticas nacionais, as organizações presentes no país, as comunidades internacionais unam esforços e socorram as populações deslocadas, criem mais oportunidades de trabalho e de desenvolvimento para todos e apelam para que “todos contribuam para a pacificação, protegendo a população, fechando as vias de financiamento à guerra, isolando e travando indivíduos ou grupos que tiram proveito da tragédia de Cabo Delgado”.

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