Anchia Talapa e ala Nyusi tentam forçar revisão dos Estatutos da OJM para alargar idade dos membros até 45 anos

DESTAQUE POLÍTICA
  • Sede pelo poder e estratégia do terceiro mandato dividem jovens da Frelimo

Os jovens da Frelimo saíram divididos da I Sessão Extraordinária do Comité Central da Organização da Juventude Moçambicana (OJM), que teve lugar no passado dia 30 de Outubro, na Escola Central do partido, na cidade da Matola, província de Maputo, devido a uma estranha agenda de revisão do Estatuto do braço juvenil do partido no poder, para alargar a idade dos membros até 45 anos, uma estratégia que visa garantir que a actual secretária-geral, Anchia Talapa, já no limite da idade, possa renovar o mandato, tendo em foco a sua manutenção no Comité Central por inerência de funções, mas também para salvaguardar os interesses da ala Nyusi que pretende forçar o terceiro mandato ou a eleição de um candidato a si leal.

Reginaldo Tchambule

A “jota” está em polvorosa. Longe dos discursos bonitos e da aparente concórdia que foi demonstrada para fora, a última sessão extraordinária do Comité Central da OJM foi de todo fracturante para o braço juvenil da Frelimo, que saiu mais dividida em alas e reforçou cada vez mais o tribalismo.

O encontro extraordinário, que acontece a menos de dois meses do II Congresso daquele órgão social do partido Frelimo, agendado para  26 a 29 de Novembro de 2021, na Província de Nampula, tinha como objectivo aprovar os instrumentos que serão usados no dia-a-dia da vida da OJM.

Mas na verdade, segundo o Evidências apurou, este foi o pretexto encontrado pela ala liderada por Anchia Talapa e Mety Gondola (antigo secretário geral da OJM e braço direito de Celso Correia), para forçar o debate de uma possível alteração dos Estatutos da OJM, com vista a alargar a idade limite de militância na OJM dos actuais 35 para 45 anos, para acomodar o grupo que actualmente controla a “jota” e garantir poder durante as próximas lutas internas.

A sugestão da revisão dos estatutos da OJM e alargamento da idade dos membros para 45 anos veio da própria secretária geral da OJM, Anchia Talapa.

No entanto, Evidências sabe que é apenas um pretexto para poder renovar e perpetuar-se à frente dos destinos da OJM, e por via disso garantir a sua continuidade como membro do Comité Central do partido Frelimo, por inerência de funções. É que, agora, ela está no limite de idade para continuar como membro da organização e está, por isso, impedida de recandidatar-se.

O anúncio da proposta de revisão dos estatutos para acomodar os interesses do grupo que detém o poder actualmente gelou a sala de sessões da Escola Central do partido Frelimo na Matola, e imediatamente alguns membros, sobretudo do sul do país, mostraram alguma oposição à ideia, pois querem que ela cumpra estatutos e cesse funções no Congresso.

No entanto, mesmo com oposição, o assunto da revisão dos estatutos para acomodar o contestado alargamento da idade dos membros, acabou sendo agendado para ser no II Congresso da OJM de 26 a 29 de Novembro, que para além de rever os estatutos, se a ideia passar, poderá eleger o próximo secretário-geral da OJM ou reconduzir Anchia Talapa.

Uma orquestra comandada por Celso Correia e Mety Gondola

Alguns jovens da “jota” suspeitam que a ideia de rever os estatutos para alargar a idade dos membros até 45 anos está inserida no âmbito da estratégia que está a ser ensaiada para o terceiro mandato de Filipe Nyusi. É que, Anchia Talapa é filha de Margarida Talapa e uma vez fora da liderança da OJM as chances de chegar ao Comité Central são quase nulas.

É que, Margarida Talapa é acusada de nepotismo, por arrastar consigo a filha, Anchia Talapa; o genro, Manuel Formiga (actualmente suplente), e o sobrinho, Faizal António. Nos últimos anos tem sofrido pressão interna para que não meta quase toda família nas listas para o Comité Central, tal como se viu no XI Congresso.

Anchia Talapa substituiu no cargo Mety Gondola, de quem é leal e ambos têm estado a deslocar o centro do poder da “jota” para Nampula. Mety Gongola é braço directo de Celso Correia e têm estado juntos na estratégia de protecção de Filipe Nyusi e membros do actual governo de possível responsabilização criminal no fim do presente ciclo de governação, por via de um terceiro mandato ou mesmo a eleição de um novo candidato da Frelimo capaz de ser controlado remotamente.

Celso Correia quer controlar os jovens do partido por via de Anchia Talapa, enquanto, com apoio de Mety Gondola, vai montando o xadrez ao nível das províncias e distritos, para garantir que o próximo Comité Central seja favorável a qualquer uma das manobras que estão sendo ensaiadas para não deixar o poder escapar. Parte significativa do órgão deliberativo mais importante entre congressos será eleita nas sessões provinciais, antes da eleição dos membros de nível central no XII Congresso, agendado para Setembro do próximo ano.

Celso Correia, que esteve na linha da frente na compra de consciências para a eleição de Filipe Nyusi como candidato em 2014, tem agora a sua disposição dois dos maiores sacos azuis do actual governo, o Fundo Nacional de Desenvolvimento Sustentável (FNDS) e a Agência de Desenvolvimento Integrado do Norte (ADIN), através dos quais tem estado a comprar lealdade nas províncias. Uma das armas tem sido o Sustenta, cuja parte do dinheiro e meios foram parar nas mãos de pessoas sem terra e sem histórico de trabalhar a terra. 

Em Maio, nas vésperas do Comité Central, a dupla Celso Correia e Mety Gondola, secretário de Estado da Província, tentou fazer eleger Emiliano Mailquela, recorrendo para o efeito a compra de votos, como parte de uma estratégia para colocar primeiros secretários provinciais e distritais da sua confiança para facilmente manipular as internas.

No entanto, mesmo com tanto dinheiro gasto comprando delegados, Celso Correia e Mety Gondola tiveram a primeira derrota e foram rechaçados em Nampula. Emiliano Mailquela acabou perdendo diante de Luciano André de Castro, com 58 contra 65 votos.

Mety Gondola é actual braço direito de Celso Correia e ambos têm sido vistos juntos em reuniões de hotéis em Maputo e em Nampula, provavelmente desenhando estratégias de assalto à Ponta Vermelha. Têm sido vistos com frequência, reunidos em hotéis, naquilo que pode ser o alinhamento de estratégia para atacarem as outras províncias.