Guebuza atira contra Nyusi: “O chefe do Comando Operativo (Nyusi) pode esclarecer melhor”

DESTAQUE POLÍTICA

Assumiu responsabilidade política pelo projecto mas remeteu detalhes ao Comando Operativo

Numa audição marcada por constantes cortes de energia eléctrica, depois de na madrugada homens armados terem tentado sabotar o posto de transformação que alimenta a cadeia da máxima segurança, incluindo a tenda da BO, o antigo Presidente da República, Armando Guebuza, assumiu, esta manhã, a responsabilidade (política) pela concepção do Projecto de Protecção da Zona Económica e Exclusiva para defender o país, no entanto, referiu que a parte económica e financeira para a operacionalização da Proíndicus, EMATUM e MAM foi estudada e proposta pelo Comando Operativo, órgão então coordenado pelo actual Presidente da República, Filipe Nyusi, na qualidade de ex-ministro da Defesa Nacional. Aliás, chegou mesmo a sugerir que Filipe Nyusi seja chamado para esclarecer o assunto.

Sem grande surpresa, o antigo Presidente da República, Armando Guebuza, mostrou estar muito a vontade no julgamento do caso das dívidas ocultas, esta quinta-feira, durante a sua audição que era esperada com muita expectativa pela sociedade moçambicana e não só.

Respondendo a questões do juiz e do Ministério Público, Armando Guebuza assumiu responsabilidade, pelo menos política, pela concepção do Projecto de Protecção da Zona Económica Exclusiva, que culminou com a criação das empresas Proindicus, EMATUM e MAM que se beneficiaram dos empréstimos ilegais na ordem de 2.2 mil milhões de dólares norte americanos.

“Assumo responsabilidade pelo criação do SIMP, eu era Presidente da República, queria defender todo o país, incluindo o juiz”, justificou Guebuza, batendo na tecla de que as três empresas faziam parte do Sistema Integrado de Monitoria e Protecção (SIMP).

O antigo chefe do Estado disse que tomou a decisão devido a algumas ameaças à soberania que se registavam na altura, ligadas à entrada ilegal de estrangeiros pelas fronteiras mais a norte do país, para além da intensificação do tráfico de drogas que entravam no país pela via marítima. Igualmente, justificou a decisão apontando ataques piratas e de homens armados da Renamo.

No entanto, referiu ter confiado a negociação de aspectos financeiros e a operacionalização do projecto ao Comando Operativo das Forças de Defesa e Segurança, pelo que remeteu a parte das questões ao antigo ministro da Defesa, Filipe Nyusi.

“Eu fiz um despacho em que delegava os poderes de negociação ao ministro da Defesa (Filipe Nyusi), Ministro do Interior (Alberto Mondlane) e ao Director Geral do SISE (Gregório Leão). Portanto, havia um grupo delegado para negociar, não precisava ser eu a saber (de questões ligadas ao financiamento das empresas). Talvez o chefe do Comando Operativo (Filipe Nyusi) pudesse esclarecer melhor”, disse Guebuza, assumindo, que ele é que orientou o Comando Operativo para procurar financiamento, o que justifica o facto de terem sido Filipe Nyusi (em carta enviada a Manuel Chang) e Gregório Leão a solicitarem garantias a favor das três empresas.

Perante a insistência do Ministério Público, Guebuza voltou a atirar “não sei se estará cá alguém do comandado operativo para explicar… O comando operativo tinha o seu chefe, que era o ministro de Defesa Nacional”, sentenciou, empurrando parte da responsabilidade para Filipe Nyusi.

Na audição Guebuza assumiu também ter conhecido Jean Boustani e Scandar Safa, contudo “o resto que aconteceu, não fui eu que fiz”. Em relação a Nhangumele reconhece que possa ter apresentado um documento na Presidência, contudo, disse que só o conheceu agora no Língamo e que passou a prestar atenção a este depois de ter sido confrontado por um camarada numa reunião do Comité Central.

Refira-se que na madrugada desta quinta-feira, houve uma tentativa de vandalização do PT que alimenta a BO e a audição desta quinta-feira foi marcada por sucessivos cortes de energia eléctrica, que levantaram alguma suspeição. Aliás, um dos cortes aconteceu exactamente quando Armando Guebuza falava sobre o Comando Operativo.

“A questão (opção financeira) foi discutida no Comando Operativo ao qual eu deleguei…”, elaborava Armando Guebuza, antes de ser interrompido por um corte abrupto de energia eléctrica, que durou alguns minutos. Curiosamente, após a reposição, o juiz não deu oportunidade ao declarante para concluir a sua resposta, tendo devolvido a palavra ao Ministério Público para continuar com o interrogatório, gerando a percepção de que queria evitar ao máximo que se falasse do Chefe do Estado.