COVID em África: poucas vacinas, poucas mortes…

OPINIÃO

Luca Bussotti

Parece uma contradição, mas a realidade que se apresenta hoje, ano 3 da Covid-19, nos proporciona exatamente este cenário: o continente africano conseguiu vacinar menos de 12% da sua população, tendo, como média global, um nível de vacinação de 50,9%, com a Europa a liderar esta classificação, com 70,2% da sua população vacinada. Mas, ao mesmo tempo, é o continente em que se registou um número limitado de óbitos ligados a esta virose, cerca de 243.000, de aproximadamente 5,5 milhões totais, com cerca de 11 milhões de contagiados por um total a escala global de 378 milhões.

 

A tais dados, é preciso acrescentar que a campanha de vacinação – já extremamente fraca, inclusive por causa dos compromissos falhados dos países mais ricos para com África – conseguiu utilizar apenas 65% das doses disponíveis, por razões, por assim dizer, estruturais ao continente: falta de seringas para injectar a vacina anti-Covid, falta de frigoríficos para conservar os imunizantes e por aí fora.

 

Diante deste quadro, muitos observadores e cientistas se perguntaram o motivo da relativamente baixa mortalidade em África devido à Covid. Algumas das razões encontradas são óbvias, outras muito menos: entre as primeiras, é preciso recordar que o vírus da Covid está sendo particularmente violento com as pessoas mais velhas, ao passo que em África a população é mediamente jovem (20 anos, contra 43 da União Europeia).

 

Também existem, até hoje, dúvidas sobre a capacidade de levantamento efectivo, por parte de muitos países africanos, com relação aos casos de Covid-19, pelo que está sendo formulada a hipótese de um número subestimado de casos. Porém, mesmo assim, em nenhum país africano houve uma morte massiva devido a esta doença, que teria sido visível mesmo a olho nu, e que também não foi detectada através do cálculo das “mortes em excesso” relativamente à média dos anos anteriores a 2020 e 2021. Neste caso, a diferença existe, mas não é tão relevante de justificar uma chacina devido à Covid-19, com a excepção da África do Sul.

 

Entretanto, feitos salvos estes elementos, que indubitavelmente têm influído na determinação das estatísticas oficiais actuais, outros elementos mais profundos e menos intuitivos devem ser recordados: acima de tudo, a estrutura social africana tende a excluir a presença, nos vários países, de asilos para anciãos. Isso significa que a vida comunitária e em lugares fechados de pessoas idosas é pouco comum, salvo, em parte, na África do Sul, onde, não por acaso, a pandemia tem afectado duramente. Um cenário completamente diferente se vive na Europa, onde os muitos anciãos costumam ser aglomerados em asilos, uma vez que inúmeras famílias já não conseguem cuidar deles, por falta de tempo e de uma vida profissional muito acelerada e competitiva. E foram justamente nos asilos para idosos que, pelo menos na primeira fase, logo em 2020, registaram-se os mais terríveis episódios de mortes colectivas devido à pandemia.

 

Finalmente, centros científicos de excelência começam a interrogar-se sobre uma questão: não será possível que parte da população africana já tivesse uma qualquer forma de imunização contra um vírus como o da Covid-19, pertencente à família dos vírus Sars?

 

É esta, provavelmente, a estrada mais interessante do ponto de vista científico, mas também da consideração social da ciência e da epidemiologia. Até o momento, estamos navegando no mar das hipóteses: há quem defende que o contacto contínuo com a malária tenha favorecido o desenvolvimento de anticorpos contra a Covid-19, assim como com outras viroses da família da Sars; entretanto, segundo os exames laboratoriais observados pelo médico do Malawi Kondwani Jambo, cerca de 80% da população do seu país mostrou já possuir formas de resistência à Covid-19. Um dado impressionante, que ainda não tem uma explicação certa, mas que provavelmente coloca na direção certa: por qual razão ainda não se sabe, mas a população africana, é verdade jovem, mas também em muitos casos não gozando de boa saúde, resulta quase que naturalmente imunizada contra a Covid-19. Mais uma vez, dados objetivos seriam necessários para comprovar, a nível continental, esta descoberta feita no Malawi: e só um exame serológico específico poderia confirmar este dado.

Entretanto, apesar do optimismo que os dados nos proporcionam, outro elemento certo é que a variante Ômicron tem encontrado grande difusão justamente em África: isso significa que as razões da campanha de vacinação continuam actuais, e que um compromisso mais sério por parte dos países ricos para com África seria desejável e até urgente.