As empresas moçambicanas vão de mal a pior…

OPINIÃO

Afonso Almeida Brandão

A produtividade é, desde 1975 — data em que nos tornamos independentes do jugo Colonial —, o maior cancro da Economia Nacional Moçambicana. Mas a sua resolução tem sido, e é ainda hoje, com raras excepções, o calcanhar de Aquiles da grande maioria das nossas empresas nacionais.

A solução não é fácil, apenas porque numa percentagem enorme, os empresários Moçambicanos não o são: nada sabem do que é ser empresário. Fala-se da falta de instrução basilar do nosso operariado, mas, para mim, isto esconde o verdadeiro mal do país. A título de exemplo, basta olhar para a área da Comunicação Social e para os Jornais e Canais de Televisão que têm surgido, como “cogumelos”, de Norte a Sul de Moçambique, nos últimos tempos, para ficarmos com uma ideia exacta do que afirmamos.

Conheci e trabalhei durante alguns anos em diversos jornais em Portugal e numa delegação de um deles em Inglaterra, sediado em Londres. Depois, em Maputo, na única Televisão Privada a nível da África Austral, no Ano de 1996 (a RTK de boa memória). Foi aqui que encontrei a prova de que a falta de produtividade e empenho profissional não tem nada haver com a falta de escolaridade dos trabalhadores. Um dia, porque geria uma secção Cultural que dava um acolhimento formidável às Artes Visuais, Literatura e à Política Nacional, atrevi-me a sugerir que ao pessoal sob a minha Coordenação fosse dada uma melhoria no salário.

O Administrador e Director da RTK, o então Eng. e Coronel do Exército Moçambicano, Carlos Klint,  concordando embora com a sugestão, disse-me “não poder ir além do então estabelecido” (que era uma miséria, diga-se em abono da verdade!). E disse-me mais ou menos isto: «Moçambique não é Portugal, onde os vencimentos são razoavelmente pagos».  Respondi-lhe afirmativamente que sim e ele sugeriu: «então, veja se as competências profissionais dos jornalistas e dos locutores que temos são equiparadas àqueles com quem o Senhor trabalhou em Portugal ou em Inglaterra». Fiquei estarrecido com a inesperada comparação e só disse que «os 400 Meticais que lhes era pago não chegava para sobreviver, quanto mais para viver…»

Olhou para mim e sorriu, argumentando: «Daqui a duas semanas dê-me a sua resposta sincera e depois veremos o que posso decidir».

Duas semanas depois ele chamou-me ao Gabinete para saber se eu já tinha uma conclusão para transmitir, ao qual respondi: «a produção de trabalho é realmente fraca e a qualidade baixa. Disse que cada colega escreve, em média, duas peças por dia»…

Ele abriu a gaveta da secretária e mostrou-me o mapa da produção dos Serviços Redactoriais da RTP-África, na Delegação, em Maputo, que funciona nas instalações da TVM. Fiquei estarrecido e, se não tivesse visto o mapa do mês, não acreditaria: na RTP-África, na Redacção de Maputo, por dia e por jornalista, a média era de 6 a 7 notícias e uma ou duas reportagens de rua por cada repórter. Na Redacção da RTK,  por dia e por jornalista, era de duas notícias e de uma ou outra reportagem no exterior.

Isto fazendo as mesmas peças, com o mesmo material e em máquinas de escrever e «câmaras de filmar» absolutamente iguais! E ele disse-me: «com este resultado, Sr. Almeida Brandão, qualquer melhoria é uma aventura!»

Havia lá, não só na Redacção de Maputo como em diversos outros sectores, alguns portugueses que, uma vez que iam ter aqui o mesmo trabalho, tinham regressado para Portugal a fim de executar as mesmas peças jornalísticas. As que eram analfabetas eram tanto cá como lá. Mas lá produziam mais, aqui, entre nós, mandriavam! Nada tinha a ver com serem letradas ou iletradas.

É o país que somos e os hábitos que criamos, ou que deixamos criar. E, para justificar esta balda que é a execução do trabalho, onde cada qual se «desenrasca» como pode, temos o exemplo do próprio Governo, para o qual produzir é vergonhoso. Temos muito mais de 40 mil funcionários públicos a nível do País, o que constitui um assalto consentido à Nação. E isto se estes números não forem superiores…

Estive cerca de um ano e dois meses como Director de Informação da ex-RTK e consegui fazê-la crescer, procurando, com dificuldade, novos profissionais na praça que fossem competentes e trabalhadores. E tive reuniões com a Agência GOLO, à época, para que fosse a concessionária de toda a Publicidade para a RTK, acordo que foi concretizado e assinado, entre ambas as partes, com a presença do próprio Eng. Carlos Klint, Eng. Bento Massas e a minha.

E tudo correu às maravilhas, digamos assim. Mas, verdade seja dita, o moçambicano ADORA DINHEIRO e quando vê a entrar muito dinheiro “pela porta dentro” da sua Empresa perde a cabeça…

Escusado será dizer o que se  passou a seguir. Mas podemos adiantar que meio ano depois a RTK encerrava as suas instalações e abria falência. E toda a gente foi para a rua, «sem apelo nem agravo», num total de 20 funcionários…

Nunca a RTK pagou um metical “furado” fosse a quem fosse. À Agência GOLO e ao seu proprietário Sr. António Fonseca ficou a dever uns bons milhões de Meticais; a mim, cerca de 350 Milhões de Meticais e a todos os restantes trabalhadores da Televisão Privada os valores oscilavam entre os 4.500 e os 10.550 Meticais. Tudo isto em meados de 1996. Era muito “taco” para aquela altura… Fomos para o Tribunal e o caso arrastou-se por dois longos anos. Foi nosso Advogado, na altura, o saudoso Dr. Máximo Dias. De nada serviu, pois ficamos todos “a arder”… E um dos principais accionistas, à época (imaginem!), era o primeiro-ministro, o Dr. Pascoal Mocumbi… e outros “figurões” do Partido FRELIMO.

Ora, se as empresas e o próprio Estado dão “estes” exemplos de inoperacionalidade, de “maus pagadores” e de pouca seriedade e prontidão qualificada e honesta, e ao mesmo tempo de laxismo no trabalho, como poderá exigir a outros trabalhadores mais produção?

E os servidores do Estado também vão pelo mesmo caminho. Será por  não serem escolarizados? Há quem diga que uma boa parte deles nem sequer possuem o 12º Ano… Porém, se no campo Estatal as coisas são assim e em alguns casos são por falta de formação e educação escolar na sua maioria — ao que sabemos —, então teremos de observar que em muitas outras empresas o caso deixa a desejar. E na Comunicação Social nem se fala… E não interessa descer a pormenores, no que respeita à formação académica dos nossos Jornalistas, Operadores de Câmara, Locutores de Rádio e Televisão. E como a Classe não tem um Sindicato que os proteja e legalize a profissão, mais difícil se torna. O sonho dos Colegas Albino Magaia e Hilário Matusse nunca chegou «a bom porto»…

Pensamos que a principal prova está na nossa própria condição de país exportador de mão-de-obra, que já vem do tempo Colonial Português. É duro reconhecer este facto, mas apraz perguntar: quem fez e organizou as terras daquilo que foi o ex-Ultramar? Os sábios? Os engenheiros? Nem sequer foram os poderosos! E, ainda, com esta etiqueta: que realizámos uma colonização humana e elevatória dos autóctones!

Nenhum dos que nos sucederam na Colonização, após 1975 — é bom que se diga! — realizou um trabalho igual ou sequer parecido com o dos portugueses e de muitos milhares de cidadãos moçambicanos —, desde que Moçambique se tornou Independente, e isso dói-me como moçambicano e cidadão que sou. Para além da valorização das terras, das suas matérias-primas, ainda elevamos em conjunto o nível humano da generalidade da população moçambicana com a miscigenação em massa!

A verdade é que todos  os grandes homens que estudaram as questões e os resultados das diversas Colonizações ocorridas são unânimes em que nenhuma se assemelha, sequer, em Humanismo à dos portugueses e de muitos moçambicanos que foram intervenientes! Não podemos ignorá-lo, embora custe admiti-lo… E quem é da minha Geração dar-me-à razão.

Mas há outra evidência, é ainda mais distinta: o êxito que, na generalidade, tem tido muitos dos portugueses e bastantes moçambicanos, diga-se de passagem, que têm emigrado e enchido zonas de nações em todos os hemisférios. Nas décadas de 60, 70, 80 e 90 do Séc. XX e nas décadas de 2000 e 2010, muitos foram aqueles que foram para França, para a Suíça, para Cuba, para ex-União Soviética, Brasil, Inglaterra e mesmo para a Alemanha — com a sua língua mais arrevesada — e se viram invadidos por centenas de nacionais moçambicanos, luso-moçambicanos  e portugueses que lá se instalaram, lá se aclimataram e lá encetaram trabalhos que, alguns, até dos respectivos afazeres se tornaram chefes e patrões. Há que felicitar estes conterrâneos que permanecem no esquecimento…

Algum destes países disse alguma vez não querer lá gente nossa? NÃO. Antes pelo contrário; procuravam-nos porque éramos gente trabalhadora. Quer Portuguesa, quer Moçambicana. Humilde, sim, “mas de garra” em tudo o que era trabalho! Então, porque é que aqui, na sua terra, em Moçambique, as coisas não se passam na mesma ordem de produtividade? No mínimo acho estranho e inacreditável — terei de reconhecer. E a preguiça acaba por imperar, o que é de lamentar…

Para mim – e conheci imensas empresas de Comunicação Social nos anos da minha actividade profissional como Jornalista —  há uma razão de ordem natural. Estão na sua terra, têm muitas terras de cultivo e estão no trabalho e a pensar no que vão semear, mondar ou até colher e aproveitar. Ou até abrem a sua «barraquinha» no Mercado, aproveitando o facto de juntarem algum dinheiro para reforçar a “miséria” que recebem nos seus empregos. Mas esta, sendo uma razão forte, nunca foi, para mim, a maior.

Para mim, a maior é que nós raramente tivemos verdadeiramente industriais, quanto muito alguns empresários! Pedindo desculpa pela expressão, penso que nós tivemos, isso sim, muitos exploradores do trabalho alheio e continuamos a ter em Moçambique e um pouco por todo o Mundo, há que dizê-lo frontalmente. A pagarem miseravelmente aos trabalhadores (quer em Moçambique, quer em Portugal). Nem sempre por força — mas muitos por arranjo de vida. E a imigração persiste.

Vejam se não há, ainda hoje, por este país fora, pessoas que arranjam uns míseros Meticais (ou Euros), montam uma fabriqueta de um artigo que se vende muito, abre um escritório ou uma “barraquinha” de comes e bebes, arranja uns ou umas trabalhadoras, paga-lhes o salário mínimo – ou nem isso – e põe-se a fabricar ou a “governarem-se”.

Quem vão buscar para orientar o trabalho? Um técnico sabedor? Não, porque isso é caro. Então apresenta-se ele, ou um filho, ou o filho de um amigo, sempre alguém que não saiba muito da trama, a dirigir, a orientar, e às vezes a insultar este ou aquela que fez uma asneira. Foi assim que começaram muitas empresas de europeus e moçambicanos em Moçambique.  Conheci um industrial, dono da INCATEL — Fábrica de Sapatos, em Tete, inicialmente, e depois em Maputo —, de valor Capital e uma centena de funcionários/as. Do que fabricava sabia o seu Proprietário, Álvaro alguma coisa, embora tivesse gosto refinado. Um sócio que o ajudava, já não ia meter as mãos, quer nas matérias quer na sua preparação. Mas “meteu as mãos” nas Contas Bancárias e a Empresa abriu falência ao fim de cinco anos. E esse segundo e único sócio era europeu, radicado em Moçambique há vários anos. E por aí anda…

E o sócio maioritário, o sr. Álvaro Lopes, mandou dizer aos trabalhadores que já não precisava mais deles porque o outro patrão o havia roubado…

Este é um dos muitos exemplos que conhecemos e as razões pelas quais as nossas empresas não progridem. Roubam, não são sérios, ganham mal e a falta de conhecimentos e de dimensão dos donos — sejam eles de que nacionalidade forem, africanos, chineses, europeus — é notória. Entretanto, todos eles também não querem lá quem saiba mais que eles e… por aí adiante!

Assim vai Moçambique!!!