Independência de quem, para quem?

OPINIÃO
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Edmilson Mate

O Estádio da Machava, agora chamado Estádio da Independência Nacional, foi novamente o palco escolhido para as celebrações dos 50 anos da independência de Moçambique. Meio século depois da conquista que libertou o país do domínio colonial português, esperava-se uma enchente de cidadãos, como em 1975, quando a esperança popular era comum e a vitória era de todos. Mas desta vez, o cenário foi outro: o estádio esteve longe de estar lotado. A maioria das pessoas presentes eram membros da OJM, da OMM e de outros braços do partido Frelimo. Mesmo assim, nem com a mobilização interna foi possível encher o espaço que, um dia, simbolizou o triunfo popular.

Esse vazio não é apenas um grito silencioso de quem já não se sente parte, mas também uma revelação da distância entre o povo e o partido que governa. Revela a falta de identificação entre a a sociedade e aqueles que dizem representá-la. O povo já não se vê nestas comemorações. Já não sente que aquela conquista seja sua. E a pergunta que fica é: porquê?

A resposta, para mim, é simples: porque o povo se sente excluído. Porque o tempo passou e a Frelimo avançou sozinha, deixando o povo entregue à sua sorte. E os números de exércitos de pobres fala por si só, a esperança foi trocada por sobrevivência. Os discursos foram ficando repetitivos e as promessas vazias. A vida, essa, foi-se tornando cada vez mais difícil. Segundo a Estratégia Nacional de Desenvolvimento (ENDE) 2025–2044, a pobreza em Moçambique aumentou 87% nos últimos dez anos do governo do Ex-presidente Filipe Nyusi, atingindo, em 2022, cerca de 65% da população. A independência que o povo realmente almeja não é a que se canta nos gabinetes; é a que se vive no dia-a-dia. A verdadeira liberdade é ter o que comer, é ter uma escola para estudar, é ter um hospital com medicamentos, é ter um emprego que permita viver com dignidade. A independência que se quer é concreta, não retórica.

Durante anos ouvimos que a agricultura é o nosso grande trunfo para o desenvolvimento. Mas o que foi feito, de facto, para tornar este sector uma prioridade nacional? Como é possível que um país com terras férteis e abundantes continue a depender de comida importada? Surgiu o projecto sustenta, que até hoje discutimos o principal objectivo desse projecto, o que estamos a fazer com o nosso país ? Pois o que falta não é potencial, é vontade política. Precisamos de parar e repensar que país estamos a construir. E sobretudo: para quem?

O País não pode ser de um partido. A independência não pode servir para sustentar estruturas partidárias eternas enquanto o povo continua a sofrer de fome. É preciso romper com a ideia de que o poder pertence a um grupo fechado. O poder é do povo. E é ao povo que se deve prestar contas, não apenas em tempos eleitorais, mas todos os dias.

E quanto aos jovens? Onde estão inseridos neste projecto de nação? Moçambique tem uma das populações mais jovens da África Austral. Cerca de 66% dos 33 milhões de habitantes tem menos de 25 anos. No entanto, esses jovens vivem sem orientação, sem oportunidades reais, sem voz. Que incentivos o governo tem dado à juventude? Que portas tem aberto? Que políticas tem implementado para aproveitar o talento, a energia, a criatividade dos jovens? Nenhuma sociedade cresce se ignora a sua juventude. E nenhum país tem futuro se deixa os seus jovens à margem, sem esperança, sem presente.

O povo de 1975 não é o mesmo de hoje. E não se trata apenas de tempo, mas de consciência. O povo de hoje já não procura um partido, procura soluções. Já não se move por símbolos, mas por respostas. Está cansado de ser apenas espectador da história que ajudou a construir. Está cansado de carregar uma bandeira que já não sente sua. Está cansado de viver num país onde a liberdade é celebrada em palcos blindados, por pessoas protegidas, enquanto a maioria sobrevive em silêncio.

A reflexão, portanto, não deve estar apenas no número de cadeiras ocupadas no estádio. O que está em causa é o distanciamento crescente entre o povo e quem governa. A Frelimo continua a governar, mas já não mobiliza como antes. Já não comove. Já não une. O povo abriu os olhos. E isso não é ingratidão, é maturidade. O país envelheceu, e com ele envelheceram também as fórmulas de manipulação. O povo quer mais do que bandeiras e discursos. Quer dignidade.

Quer participação. Quer respeito.

Cinco décadas depois, voltamos à pergunta essencial: independência de quem, para quem? Porque se o povo não está incluso, não há liberdade que se possa comemorar. Não há pátria que se sustente de costas voltadas para quem a constrói. O povo não quer só assistir. Quer pertencer. Quer decidir. Quer viver.

E talvez esse seja o maior desafio dos próximos 50 anos: fazer com que a independência, finalmente, chegue a todos.

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