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Já se passa um ano desde as eleições gerais que conduziram ao poder o actual executivo. À época, o país ainda digeria o tumulto pós-eleitoral, depois de a Comissão Nacional de Eleições ter divulgado os resultados a 24 de Outubro. As ruas haviam falado em protesto, e a tensão pairava, mas subsistia uma esperança, acreditava-se que a transição de poder político traria consigo um novo fôlego, um recomeço.
Dominava a convicção, partilhada até por sectores mais cépticos dentro e fora da Frelimo, de que seria preciso uma dose extrema de criatividade para governar pior do que o executivo anterior. O país parecia exaurido, mas vivo. E, ironicamente, essa certeza de que “pior era impossível” revelou-se o primeiro erro de avaliação colectiva.
Como outrora aconteceu na transição de Guebuza para Nyusi, a história repetiu-se. Guebuza, que fora diabolizado, acabou por ser reabilitado pela memória do seu sucessor. Hoje, o mesmo processo se verifica com Nyusi. A comparação entre o passado recente e o presente imediato tornou-se cruel, se o consulado anterior foi sinónimo de desgaste, o actual representa o desencanto.
Há um ano, enquanto se tentava gerir o ruído das urnas, o país ainda dava sinais de funcionalidade. Havia uma percepção de que, apesar da captura das instituições do Estado, alguma ordem resistia. A máquina administrativa, ainda que emperrada, mantinha algum ritmo. Contudo, o que se seguiu à contestada vitória eleitoral foi o colapso de uma frágil confiança nacional. O país mergulhou num ciclo de descrédito, incerteza e apatia.
O último desafio (manifestações) colocado ao Governo de Nyusi deixou um rasto ambíguo, e obrigou a uma saída sem legado, embora tenha consolidado o controlo político, enquanto Presidente da Frelimo, sobre o Estado e neutralizado a Renamo como força de oposição efectiva. Mas o seu herdeiro político, nascido das entranhas da Frelimo, não correspondeu às expectativas. Chapo, anunciado como o rosto da mudança, tornou-se símbolo da continuidade. O “nhonguismo”, antes uma metáfora de poder autoritário, parece agora institucionalizado, disfarçado em discursos de renovação e promessas de eficiência.
O Governo actual não demonstra rumo. Falta-lhe visão estratégica, coerência e coragem reformista. Multiplicam-se discursos presidenciais cheios de esperança, mas vazios de racionalidade prática. Fala-se de atrair investimento estrangeiro, mas o país continua refém de um ambiente de insegurança e desconfiança. Os raptos persistem, a interferência política na justiça mina a credibilidade do Estado, o caso da Total é apenas o mais visível, e a instabilidade política bloqueia qualquer vontade de investimento sério.
O combate aos cartéis e à corrupção resume-se a palavras. Na prática, consolidam-se novos grupos de interesse com beneplácito do poder político. O Executivo cria task forces paralelas para contornar falhas estruturais do Estado, tentando resolver pontualmente crises como o pagamento de salários, mas, ao fazê-lo, aprofunda o fosso institucional e alimenta práticas de improvisação que corroem a sustentabilidade a longo prazo.
O diálogo nacional, que poderia ser um espaço de recomeço, está sequestrado pela mesma lógica de controlo. Dentro da Frelimo, as vozes críticas rareiam, ou calam-se. O medo tornou-se uma forma de governo, e o silêncio, uma política. Sem debate interno, o partido perde o sentido de direcção, e o país paga o preço.
Hoje, Moçambique parece prisioneiro de uma sucessão sem ruptura. O poder político mudou de rosto, mas não de essência. A esperança que floresceu após as eleições foi consumida por uma realidade amarga, a de que o país continua a ser governado por quem confunde estabilidade com estagnação. Um ano depois, a nação vive entre a ilusão do progresso e o peso de um desencanto que cresce a cada dia, como se o futuro tivesse sido adiado outra vez.



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