97% das “mãos” que processam o gás de cozinha e petróleo leve em Temane são de jovens moçambicanos

DESTAQUE ECONOMIA
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  • Jovens engenheiros moçambicanos começam a assumir indústria de petróleo e gás

14h20. O sol dourava a planície de Inhassoro, espantando a humidade de uma chuva que se fez sentir pela manhã e que, nalgum momento, ameaçava estragar a festa, quando os Presidentes Daniel Chapo e Cyril Ramaphosa cortaram a fita e descelaram a lápide, escrevendo um novo capítulo na história energética do País que, pela primeira vez, passava a produzir gás de cozinha e petróleo leve. No entanto, o verdadeiro marco da inauguração da primeira Unidade Integrada de Processamento de Hidrocarbonetos em Temane, Inhassoro, não estava apenas no gás de cozinha agora processado em solo nacional, mas nas mãos que tornam possível este feito: 97% da mão-de-obra especializada que participou na construção, recepção e instalação de máquinas, arranque e comissionamento da complexa planta são jovens engenheiros e técnicos moçambicanos, num testemunho vivo de capacitação para assumir a indústria de petróleo e gás e soberania técnica.

Reginaldo Tchambule

Pela primeira vez na história, Moçambique está a processar gás de cozinha e petróleo no seu próprio território e quase inteiramente pelas mãos de jovens engenheiros e técnicos moçambicanos.

Na recém-inaugurada Infra-estrutura Integrada de Processamento de Hidrocarbonetos (IPF), em Inhassoro, 97% da mão-de-obra que construiu, instalou, arrancou, comissionou e agora opera a fábrica é nacional, um marco que simboliza a maturidade crescente do sector energético nacional.

“Cerca de 97% da mão-de-obra dos engenheiros e técnicos que participaram no arranque e comissionamento da fábrica somos nós”, testemunhou Juvêncio Massinguil, jovem engenheiro de petróleos de 30 anos, a quem foi confiado o cargo de gestor de produção daquela fábrica.

Juvêncio é o rosto e líder de uma fornalha de engenheiros e técnicos moçambicanos que agora assumem o desafio de produzir gás de cozinha e petróleo leve para alimentar as famílias moçambicanas e a indústria nacional.

Formado inicialmente na Escola Profissional local, num programa financiado pela petroquímica sul-africana Sasol e pela Empresa Nacional de Hidrocarbonetos (ENH), Massinguil prosseguiu os seus estudos em Engenharia e Mestrado na Universidade Eduardo Mondlane e completou um MBA na África do Sul. Hoje, é Gestor de Produção da IPF, liderando equipas e operações que garantem a entrada do gás moçambicano no mercado com qualidade de nível internacional.

“Vimos esta fábrica nascer desde a terra plana, sem nada, e acompanhámos cada equipamento que chegava. Todo o processo técnico foi feito por nós”, afirmou com orgulho Massinguil, visivelmente orgulhoso, referindo-se ao sonho de gradualmente os técnicos moçambicanos irem assumindo a indústria de petróleo e gás, não só em Inhambane como nos outros cantos do País.

“Já somos capazes de operar nossas próprias fábricas de hidrocarbonetos”

Segundo o engenheiro, a IPF foi concebida de forma totalmente diferente de grandes projectos anteriores no País, numa clara referência aos projectos liderados pela ENI, TotalEnergies e outros cuja participação de mão-de-obra especializada nacional ainda é incipiente.

“Esta fábrica é diferente das outras. Não esperámos pela entrega para começar a aprender. Nós acompanhámos cada etapa da construção, recebemos os equipamentos, fizemos os testes, fizemos o comissionamento. Hoje, quem está na sala de controlo somos nós, filhos desta terra. Já somos capazes de operar as nossas próprias fábricas”, vincou Massinguil, anunciando o começo de uma nova era.

Massinguil, que fez parte das equipas deslocadas ao estrangeiro para acompanhar a fabricação de equipamentos, na Europa e na Ásia, assegura que esta experiência consolidou a confiança técnica nacional.

“Nós moçambicanos, já somos capazes de operar as nossas próprias fábricas de hidrocarbonetos. Houve desafios, sim, e pedimos suporte quando necessário. Mas hoje desligamos e religamos o sistema sem depender de ninguém de fora”, ajuntou.

Para o engenheiro, esta conquista também ajuda a combater a narrativa recorrente de que Moçambique não possui capacidade técnica para projectos complexos.

“Às vezes ouve-se que não temos capacidade para lidar com tecnologia desta dimensão. Mas estamos aqui, somos prova concreta. Esta fábrica é operada por jovens formados aqui e lá fora. É importante que esta mensagem chegue aos moçambicanos. Nós vamos entregar esta fábrica às próximas gerações. Fomos nós que a vimos nascer, fomos nós que a recebemos. Isto é diferente de qualquer projecto anterior. É história. Se amanhã surgir outra fábrica semelhante, ou até mais complexa, nós já temos a experiência necessária para repetir a história”, reforçou.

Outro ponto destacado por Massinguil é a superior qualidade do GPL produzido localmente que chega a superar o importado. O engenheiro explica que o processo foi feito em coordenação com o regulador do sector e com os distribuidores nacionais, que têm padrões rigorosos.

“O carregamento que fizemos aqui foi até melhor do que muito do gás que recebemos de fora. Produzimos dentro dos padrões exigidos pela legislação nacional e pelos distribuidores internacionais. Tivemos de garantir que o nosso GPL seria aceite sem reservas e conseguimos”, afiançou.

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