Moçambique manda milhões, China tira milhões da pobreza

OPINIÃO
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Alexandre  Chiure

O Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional (FMI) agitaram as águas com o seu recente relatório, divulgado há uma semana, que diz que Moçambique está em segundo lugar no ranking dos países mais pobres do mundo.

A classe intelectual do país desencadeou um debate sobre se realmente somos, assim, tão pobres como dizem as instituições de Bretton Woods na sua avaliação ou não passa de um equívoco. Se somos pobres, sim, mas não estamos exactamente naquela posição em que fomos colocados.

O governo, à primeira vista, evitou, ao máximo, emitir uma opinião sobre o assunto. O seu porta-voz, Inocêncio Impissa, ao ser abordado pela imprensa à saída do Conselho de Ministros, foi cauteloso. Não quis nem refutar o estudo, nem aceitar os dados lançados. Prometeu, isso sim, que o documento seria remetido a uma análise para posterior posicionamento, o que me pareceu uma atitude correcta.

Já a ministra das Finanças, Carla do Rosário Fernandes Louveira, ouvida por jornalistas à margem das celebrações de 7 de Abril, Dia da Mulher Moçambicana, diz que Moçambique foi avaliado com base em números de 2019 e que a análise do Banco Mundial se limitou à pobreza de consumo. Entende que os levantamentos internos mostram indicadores diferentes.

O que não sei é se a governante falou a título pessoal ou temos que encarar as suas declarações como o posicionamento oficial e definitivo do Governo sobre o polémico relatório depois de o mastigar. O que ficou claro é que, para ela, o Bando Mundial e o Fundo Monetário Internacional andam distraídos, isso por estarem a trabalhar com dados ultrapassados.

Falta, neste debate, a opinião do actor principal: o cidadão. Seria interessante ouvi-lo para dizer como vivia em 2019, sendo verdade que os dados usados são desse tempo, e como vive hoje. Se era mais pobre do que agora, como a ministra está a dar a entender, ou o Banco Mundial tem razão, a sua qualidade de vida baixou.

Quem não ficou atrás são figuras da proa ligadas ao partido no poder, de que se destacam antigos governantes, que, perante todas as evidências sobre a pobreza no país ou no seio de famílias moçambicanas, buscam argumentos atrás de outros para tentar desacreditar o relatório e convencer-nos de que o Banco Mundial é que está enganado.

Nas redes sociais, alguns internautas, sem fazer contas, reconhecem que o país não está bem. Outros questionam os critérios usados na avaliação do país. Esses entendem que outras ferramentas ignoradas no processo levam a outro tipo de resultado. No fundo, significa, para eles, que dizer que Moçambique é o segundo país mais pobre do mundo é uma questão matemática.

Com a calculadora na mão, fizeram algumas operações baseadas no rendimento per capita e chegaram à conclusão de que Moçambique não está em segundo, mas no sexto lugar no ranking.

Senhoras e senhores, sejam quais forem os cálculos a fazer, fórmulas ou dados a usar, uma coisa é certa: estamos no Top 10 dos países mais pobres do planeta e é mau. Não há como negar isso. Se o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional tivessem dito que estamos em primeiro lugar na lista, eu teria aceitado sem sequer discutir.

Há 50 anos, a China era pobre como Moçambique e marcadamente rural, para além de que estava isolado a nível internacional. A sua economia era planificada e fechada ao comércio externo, muito diferente da potência industrial que se tornou. Quarenta anos depois, a contar de 1976 a 78, quando foram introduzidas reformas focadas na modernização industrial e agrícola, entre 800 e 900 milhões de chineses saíram da extrema pobreza. O governo do país declarou a erradicação deste nível de pobreza em 2020, cumprindo a meta dez anos antes do prazo da ONU.

Moçambique, ao fim de 50 anos, é descrito, pelo Banco Mundial, como o segundo país mais pobre do mundo. A China modernizou a sua indústria e Moçambique escangalhou completamente a sua e, hoje, mais de 80 por cento dos cerca de 33 milhões de moçambicanos vivem na extrema pobreza.

A China projecta, agora, transformar-se, até 2050, numa potência tecnológica e Moçambique? Estamos, desde 1975, quando nos tornamos independentes, a cantar que a etapa a seguir é a independência económica, mas nada de visível está a ser feito para alcançar os objectivos pretendidos que não sejam discursos atrás de discursos sobre o assunto.

A China saiu da pobreza extrema e Moçambique, por culpa própria, continua mergulhado nela até ao cabelo. A sua economia, com níveis de corrupção assustadores, é controlada por cartéis e a administração da justiça, pelo crime organizado.

É vergonhoso que num país como o nosso, com uma das maiores reservas de petróleo e gás do continente africano, madeira, carvão mineral, pedras preciosas diversas e as mais procuradas do mundo e outros recursos, milhares de moçambicanos estejam a viver com menos de dois dólares por dia e, ainda assim, alguém queira desmentir instituições com credenciais internacionais quando dizem que somos dos mais pobres do mundo.

É uma autêntica loucura querer fazer entender que o país é menos pobre do que a avaliação das instituições de Bretton Woods, manipulando números. Onde querem chegar ao afirmarem que não estamos em segundo, mas em quarto ou sexto lugar no ranking? Que diferença faz estarmos numa ou noutra posição? Claramente que nenhuma, pois o país está, na mesma, no Top 10 ou seja pior classificado.

Até hoje, nenhum governo apresentou um projecto sério para o desenvolvimento do país. Um documento bem estruturado, com prioridades, prazos e projecções de metas a alcançar daqui a 20 ou 30 anos ou, mesmo, 50 anos, focado no turismo, agricultura e indústria. Estabelecer que as matérias-primas, como as areias pesadas, devem ser processadas no país, o que significa abrir fábricas e dar emprego aos moçambicanos e os megaprojectos têm que deixar de pagar impostos bonificados.

Ainda não vi um projecto onde venha que até ao ano X o país deverá ser auto-suficiente nesta ou naquela cultura e trabalhar-se para isso. Organizar e financiar agricultores para a massificação da produção do arroz. Há um total desinteresse na produção porque há quem ganha muito dinheiro na importação do produto.

Os principais regadios do país estão subaproveitados e a reclamarem investimento para a sua reabilitação e expansão, mas ninguém está a mexer com isso. Temos o regadio de Nguri, em Cabo Delgado; baixo Limpopo, com 40 mil hectares infra-estruturados, e de Chókwè, com cerca de 200 quilómetros de extensão, ambos em Gaza.

Infelizmente, o que temos são planos quinquenais direccionados para a satisfação de promessas eleitorais e não projectos que abraçam causas como dizer que daqui a X anos queremos ser isto ou aquilo. Curiosamente, no fim de cada mandato, todos os governos apresentam níveis de realização de mais de 70 por cento.

Se esses planos quinquenais, elaborados do jeito que estão, fossem o ideal, o país já teria dado um salto. Não estaríamos, hoje, a continuar a falar da pobreza extrema, mas de um Moçambique desenvolvido. Desde a independência nacional já tivemos cinco governos e 10 planos quinquenais, incluindo o governo de Daniel Chapo, e o país mantém-se teimosamente na pobreza. É que a fazermos as coisas como estamos a fazer, podemos ter a certeza de que não chegaremos a lado nenhum.

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