O xenófobo que há em todos nós

OPINIÃO
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Estêvão Chavisso

Há um pequeno xenófobo escondido em todos nós. Esta é provavelmente uma afirmação delicada, num contexto sensível face à aparente condenação unânime da opinião pública às atrocidades que os estrangeiros vivem hoje na África do Sul.

Com o argumento da necessidade de “legalizar” os estrangeiros, maioritariamente negros e pobres, curiosamente a principal força de trabalho em sectores de baixa renda, o discurso do ódio que marca a época em que vivemos um pouco por todo lado ganhou forma nas principais cidades sul-africanas, com a violência a ser filmada em protestos promovidos pelos movimentos “March and March” e “Operação Dudula”.

Este problema, recorrente na África do Sul e com algum grau de conivência do poder político e judicial, revela a amnésia colectiva de um povo que sentiu na pele as consequências de um regime segregacionista (Apartheid), mas, hoje, face aos desafios socioeconómicos que atravessa e a descrença no discurso político que marca as novas gerações na África Austral, escolhe, cobarde e violentamente, “atacar o mais fraco”: o imigrante, o bode expiatório do século XXI na geopolítica mundial.

No entanto, mais do que mera amnésia colectiva, está em causa aqui um problema de Identidade. Hoje, a África do Sul vive, em grau mais alto e aos olhos do mundo, o que a Filosofia descreve como “subjectividade neurótica”, quando, ao arrepio da história, uma comunidade decide superiorizar as “identidades omnipresentes”, fechando-se em egos dentro de fronteiras físicas e mentais, na ambição de lhes atribuir uma auto-suficiência inexistente.

A ascensão da extrema-direita no mundo fez com que esta condição “patológica colectiva” fosse comum em todo lado. É o “Volta para a tua terra”, “Lugar de mulher é na cozinha” e “Homem é que homem…”  como frases dominantes e capazes de eleger governos.

O que torna estas premissas políticas atractivas na extrema-direita não é a sua validade ou fundamentação (ambas obsoletas), mas sim a limitação estrutural, epistemológica, moral e cultural, que assombra o pacato homem moderno, que é racista, machista, preconceituoso e xenófobo.

Ao caso da xenofobia na África do Sul, aplica-se o que escreveu José Gil (2009): é a identidade a transformar-se em patologia, assumindo-se o “Eu” como um “Vírus despótico”.

Trata-se de um processo de “territorialização da subjectivação”, um esforço para resistir ao que vem de ‘fora’, no caso os estrangeiros negros, compreendidos como uma ameaça às velhas subjectividades mal construídas, face à falência das utopias de uma sociedade de enormes disparidades económicas consoante a raça, uma herança do Apartheid.

Embora o argumento da necessidade da legalização dos estrangeiros tenha a sua legitimidade, com recurso à violência e ao discurso de ódio, assumir que o gozo das liberdades e direitos básicos de uma pessoa só é possível mediante a pertença a determinada origem geográfica, por sinal delimitada pelo sistema colonial que delapidou o continente, é um atentado aos valores que nortearam a luta colectiva contra a opressão colonial.

São os mesmos valores que a própria África do Sul (negra) precisou de defender para mobilizar os países vizinhos e o continente para apoiar a sua luta contra o Apartheid, que só terminou há 32 anos.

No imaginário popular, romantizado pelos Media e pelas redes sociais, há um aparente grito de revolta colectivo contra o que está a acontecer na África do Sul, sobretudo face às imagens que nos chegam.

Condenam-se os principais rostos do movimento xenófobo e o silêncio cúmplice dos governos locais, mas sobretudo a inércia dos organismos regional e continental, nomeadamente a Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC) e a União Africana.

De facto, estamos perante um silêncio criminoso, mas, em diversos momentos, estes dois organismos deram-nos provas claras de que as suas agendas estão distantes dos seus objectivos, nomeadamente “unidade, coesão e solidariedade entre os povos”.

Mas, na verdade, em África, em cada um de nós, em pequena escala, há um xenófobo, um tribalista e um regionalista, consequência de uma herança cultural de histórico servil e colonial, baseada no “Divide and Conquer”.

Este perfil manifesta-se subtilmente nos comentários e piadas “inocentes”, “gatilhos” metalinguísticos que perpetuam preconceitos.

O “Chingondo”, o “moçambicano de gema” ou “mulato” são algumas das expressões que usamos com frequência. Colectivamente, não percebemos, no entanto, a explícita normalização do preconceito, do tribalismo e do regionalismo que estas frases carregam, vícios que vão passando de geração em geração.

A xenofobia, o tribalismo e o regionalismo são a expressão fiel do perfil do africano moderno, uma extensão da nossa mediocridade epistemológica histórica e cultural, que torna impossível o sonho de Nkrumah: uma verdadeira união africana.

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