HCB responde aos “Nativos de Songo” e esclarece que metade dos trabalhadores da empresa é de Tete

DESTAQUE ECONOMIA
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Um grupo de 50 cidadãos que se apresenta como “Nativos de Songo” enviou recentemente uma carta à Hidroeléctrica de Cahora Bassa (HCB), reivindicando maior prioridade no acesso ao emprego e mais benefícios económicos para os residentes da vila que cresceu à volta da barragem. A resposta da empresa, transformada numa extensa nota informativa, rejeita qualquer lógica de exclusividade territorial no recrutamento, embora metade dos trabalhadores daquela empresa estratégica sejam da Província de Tete e 20% da própria Vila de Songo. Na sua carta-resposta, a HCB defende que o empreendimento pertence a todos os moçambicanos e acusa implicitamente os promotores da iniciativa de tentarem transformar o diferendo num espaço de pressão pública e de desgaste institucional.

A troca de correspondência abriu uma discussão que há muito circulava de forma difusa entre moradores, antigos trabalhadores e jovens da região: até que ponto uma comunidade que vive ao lado de um dos maiores empreendimentos hidroeléctricos de África sente que participa efectivamente da riqueza produzida ali?

Durante muito tempo, Cahora Bassa foi apresentada ao país como uma promessa em betão. A barragem surgia nos discursos oficiais como prova de capacidade técnica, símbolo de soberania e demonstração de que Moçambique podia ocupar um lugar estratégico no mapa energético da região. Em Songo, contudo, a relação com aquele paredão monumental sempre teve outra espessura. A paisagem da vila cresceu encostada às turbinas, às linhas de alta tensão, ao movimento dos engenheiros e às rotinas de uma empresa cuja presença moldou o comércio, os bairros, os transportes e até o imaginário de sucessivas gerações. Cresceu também a expectativa de que a proximidade física ao empreendimento acabaria, inevitavelmente, por se converter em proximidade económica.

É nesse ambiente que se compreende a recente troca de correspondência entre a Hidroeléctrica de Cahora Bassa e um grupo de cidadãos que se apresenta como “Nativos de Songo”. A expressão escolhida pelo próprio grupo já ajuda a perceber a natureza do desconforto. A discussão passa pelo emprego, mas move-se sobretudo em torno da pertença. Quem nasceu à volta da barragem sente, em muitos casos, que carrega uma relação histórica com ela, quase como se parte da sua identidade colectiva tivesse sido construída em torno daquela infraestrutura gigantesca plantada sobre o Zambeze.

A resposta da HCB desmonta, com números, a ideia de exclusão sistemática. Dos 739 trabalhadores efectivos actualmente existentes, 356 são provenientes da província de Tete, o que equivale a 48,22% do total. Só a Vila do Songo representa 152 trabalhadores efectivos, o que corresponde a 20,5% do universo global da empresa. A administração acrescenta ainda que os mais de 500 trabalhadores eventuais recrutados pela empresa são oriundos da própria vila, medida apresentada como parte do esforço de mitigação do desemprego local.

Os dados permitem à empresa sustentar que Songo ocupa um espaço relevante na estrutura laboral da HCB. Ainda assim, a dimensão do mal-estar que emerge da correspondência sugere que a discussão dificilmente se resolve por via estatística. O sentimento que atravessa parte da juventude local parece alimentar-se de uma percepção mais difusa e acumulada ao longo dos anos: a ideia de que a barragem produz riqueza em escala nacional, enquanto a vila continua a lidar com limitações que não condizem com a magnitude simbólica e financeira do empreendimento instalado ao seu lado.

Talvez por isso a HCB tenha sentido necessidade de responder não apenas com percentagens, mas também com um inventário extenso de intervenções económicas e sociais realizadas na região. O documento enumera estradas reconstruídas, feiras comerciais, mercados, programas de incubação de negócios, apoio ao empreendedorismo, absorção progressiva de trabalhadores eventuais, criação de fornecedores locais e o Projecto Transformar, lançado em 2025, que a empresa apresenta como um mecanismo de dinamização económica baseado em agricultura integrada, pecuária, avicultura, piscicultura, energia solar e processamento alimentar.

A certa altura, o texto deixa transparecer uma compreensão silenciosa do problema: a HCB percebe que o emprego directo já não consegue absorver a expectativa social criada em torno da barragem. A resposta encontrada passa pela tentativa de construir um ecossistema económico paralelo, capaz de distribuir rendimento através do comércio, da agricultura, dos transportes e do pequeno empreendedorismo. É uma mudança importante porque revela uma empresa que deixou de actuar apenas como produtora de energia e passou gradualmente a desempenhar funções próximas às de um agente de reorganização territorial.

Mesmo assim, o centro da tensão permanece intacto. Quando a HCB afirma que não pode “provincializar” nem “tribalizar” o acesso ao emprego, está a defender uma ideia de empresa nacional aberta a todos os moçambicanos. A frase carrega um peso político considerável num país onde os grandes projectos frequentemente convivem com comunidades que sentem ter pago os custos territoriais e sociais do desenvolvimento sem colher benefícios proporcionais à dimensão do investimento.

No fim, o debate levantado em Songo talvez seja menos sobre números de contratação e mais sobre expectativas acumuladas ao longo de décadas. A barragem continua a ser vista como um activo estratégico para o país, mas também como uma presença diária na vida da vila. Entre os dados apresentados pela empresa e o sentimento manifestado pela população local, permanece o desafio de encontrar um equilíbrio capaz de reduzir a distância entre a riqueza produzida e a percepção de inclusão de quem vive ao lado dela.

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