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- As contas explosivas do Banco de Moçambique em 2025
- Cada um dos nove gestores do Banco de Moçambique recebeu cerca de três milhões por mês
- Valor era suficiente para construir entre 120 e 200 salas e tirar entre 6 e 12 mil alunos do relento
- Estado deve 128,9 mil milhões ao Banco de Moçambique desde 2005 e auditor negou de aprovar contas
- Há um rombo de 152,6 mil milhões de meticais que não aparece na demonstração de resultados
O Banco de Moçambique fechou o exercício de 2025 com um resultado líquido negativo de 13.340,5 milhões de meticais, um rombo mais de três vezes superior ao prejuízo de 4.147,5 milhões registado no ano anterior. Enquanto a instituição que tem como missão “preservar o valor da moeda nacional” afunda em perdas sucessivas, os salários dos seus mais altos dirigentes continuam a disparar. Os membros do Conselho de Administração e do Conselho de Auditoria receberam, apenas em benefícios de curto prazo, 300,9 milhões de meticais em 2025, um aumento de 2,2% face aos 294,4 milhões de 2024. De resto, os números espelham o receio de uma instituição que manda passear a Assembleia da República e o Tribunal Administrativo.
Reginaldo Tchambule
Os termómetros têm marcado, nos últimos dias, madrugadas e manhãs frias em várias zonas do país, com temperaturas a rondar os 14°C a 16°C em Maputo e máximas que dificilmente ultrapassam os 24°C a 25°C durante o dia, segundo dados das actualizações recentes do Instituto Nacional de Metereologia (INAM).
Não são valores considerados extremos, mas tornam-se duros quando atravessam a realidade de milhares de crianças que estudam ao relento, sentadas no chão, em pátios improvisados ou debaixo de árvores, sem carteiras, sem salas e sem protecção contra o frio da manhã.
Nessas escolas, logo pela manhã encontram-se alunos encolhidos, cadernos apoiados nos joelhos, mãos a tremer enquanto tentam escrever. O chão gelado substitui a carteira e o vento entra testando a resistência física de petizes que não conhecem o “sabor” de uma sala de aulas.
É o retrato fiel de um país de extremos, onde do outro lado, nos corredores da gestão macroeconómica, os números do Banco de Moçambique relativos a 2025 expõem um contraste difícil de ignorar. A instituição fechou o exercício com um prejuízo de 13,3 mil milhões de meticais.
Mas, ao mesmo tempo, os seus nove principais gestores receberam cerca de 300,9 milhões de meticais em benefícios de curto prazo, o equivalente a cerca de três milhões de meticais por mês para cada um.
Os números constam das demonstrações financeiras individuais e consolidadas do banco central, aprovadas a 14 de Maio de 2026 e auditadas pela Forvis Mazars, que emitiu, mais uma vez (tem sido assim todos anos), uma opinião com reserva,
O problema central, desta vez, não está apenas na gestão interna, mas na relação perigosa entre o Banco e o Estado, que acumula uma dívida histórica de quase 129 mil milhões de meticais ao abrigo da chamada “conta especial de flutuação de valores”.
O Estado não regulariza, desde 2005, um saldo devedor de cerca de 129 mil milhões de meticais na conta de flutuação cambial, além de não terem sido registados juros associados de quase 28 mil milhões.
Salários milionários para gestores num ano de vacas magras
Apesar de o banco central ter registado um prejuízo de 13,3 mil milhões de meticais em 2025, a rubrica de benefícios de curto prazo dos seus administradores aumentou em relação ao ano anterior, o que é visto como contraditório com a disciplina financeira que se exige a uma instituição pública em situação deficitária.
Os números que roçam a escândalo constam da Nota 30 sobre “Gastos com o Pessoal”, o qual revela que a factura total com os trabalhadores do Banco de Moçambique ascendeu a 11.783,2 milhões de meticais em 2025, um salto de 42,7% face aos 8.252,1 milhões de 2024.
Dentro desse bolo, a rubrica “Remunerações dos órgãos de gestão”, concretamente do governador do Banco Central, Rogério Zandamela, seu Conselho de Administração e Conselho de Auditoria, atingiu 300,9 milhões de meticais.
Fazendo as contas de forma directa, esse montante dividido pelos nove gestores corresponde a cerca de 33,4 milhões de meticais por gestor ao ano. Quando repartido pelos 12 meses, cada um recebeu em média cerca de três milhões de meticais por mês.
É este o contraste que os números expõem com clareza. De um lado, crianças a estudar no chão frio por falta de salas de aula básicas; do outro, uma estrutura de topo que, mesmo num ano de prejuízo elevado, mantém rendimentos mensais que, por si só, representam valores muito acima da realidade salarial da maioria do país.
Só para se ter uma noção do que este valor representa, 300,9 milhões de meticais que são consumidos por nove pessoas seriam suficientes para construir mais de uma centena de salas de aula completas em várias províncias do país.
Considerando um custo médio de construção de uma sala de aula equipada, incluindo estrutura básica, cobertura, carteiras e quadro, a rondar entre 1,5 e 2,5 milhões de meticais por unidade, o valor pago apenas em remunerações dos nove órgãos de gestão do banco central em 2025 permitiria construir aproximadamente entre 120 e 200 salas de aula novas.
Se tivermos em conta que, em Moçambique, a média de alunos por sala de aula no ensino primário varia geralmente entre 50 e 60 alunos, podendo ser ainda superior em algumas escolas urbanas mais pressionadas pela procura, apenas a rubrica de remuneração dos órgãos de gestão de uma única instituição pública, num ano de prejuízo, teria potencial para criar condições de aprendizagem para entre 6 mil e 12 mil alunos.
Na prática, isso significa que milhares de alunos hoje expostos ao relento, sentados no chão frio e debaixo de árvores, podiam ter uma condição diferente só com o que ganham em remunerações os gestores do Banco de Moçambique.
Conta do Banco de Moçambique usada para tapar burracos do fundo de pensões
Mais impressionante é a variação na rubrica “Custos com benefícios a empregados”, que passou de um valor negativo de 965,9 milhões em 2024 para uns positivos 1.497,5 milhões em 2025, uma oscilação de mais de 2,46 mil milhões de meticais. A justificação dada nas notas é técnica mas reveladora:
“Os retornos estimados do exercício apresentaram um valor inferior ao somatório dos custos financeiros e dos serviços correntes”. Por outras palavras, o fundo de pensões dos trabalhadores está a gerar menos do que o esperado, e o banco central tem de cobrir a diferença, um custo que, no limite, é suportado por todos os moçambicanos.
A Nota 32, sobre “Partes Relacionadas”, detalha que o pessoal‑chave de gestão, ou seja, os mesmos membros do Conselho de Administração e do Conselho de Auditoria, recebeu exactamente os mesmos 300,9 milhões de meticais em benefícios de curto prazo nas contas individuais e consolidadas.
Não há qualquer menção a cortes voluntários ou contenção salarial, apesar do resultado líquido negativo e do agravamento do défice de capital próprio, que caiu de 17.821,4 milhões positivos em 2024 para 15.370,1 milhões em 2025, uma diminuição de quase 2,5 mil milhões.
A Nota 21 – “Responsabilidades com benefícios dos empregados” mostra que o valor actual das responsabilidades por serviços passados do fundo de pensões disparou para 42.707,4 milhões de meticais em 2025, contra 34.308,0 milhões em 2024, um aumento de 24,5% num único ano. O fundo de pensões, gerido pela subsidiária Kuhanha, tem activos de 30.579,9 milhões, resultando num passivo líquido de 12.127,5 milhões (um défice três vezes superior aos 4.084,7 milhões de 2024).
O relatório do Banco de Moçambique revela ainda um aumento significativo nas despesas com aluguer de instalações no ano de 2025. De acordo com a Nota 31 (“Outros Gastos Operacionais”), os custos com arrendamento mais do que duplicaram, passando de 51,8 milhões de meticais em 2024 para 129,5 milhões de meticais em 2025. Este aumento está incluído na rubrica “Serviços de terceiros”, que totalizou 2.952,7 milhões de meticais no período.
Este crescimento nas despesas de aluguer, aliado a outras rubricas, como os salários que subiram de 8,7 para 12,3 mil milhões, contribuiu para o agravamento do prejuízo do banco central, que fechou o ano com um resultado negativo de 12,8 mil milhões de meticais
O rombo que ninguém quer assumir: o Estado deve 129 mil milhões ao BdM
O ponto mais explosivo das demonstrações financeiras está, porém, na Nota 16 – “Flutuação de Valores”. Ao abrigo do artigo 14 da Lei Orgânica do Banco de Moçambique (Lei n.º 1/92, de 3 de Janeiro), os ganhos e perdas cambiais não realizados das posições activas e passivas em moeda estrangeira são colocados numa “conta especial de flutuação de valores”. Se no final do exercício o saldo for devedor, o Estado é obrigado a regularizá‑lo através da emissão de títulos da dívida pública a favor do Banco.
Em 31 de Dezembro de 2025, o saldo devedor acumulado ascendia a 128.977,7 milhões de meticais. E o Estado não o regulariza desde 2005. Isto significa que, há mais de duas décadas, o Governo vem ignorando a lei, deixando o banco central com um activo teórico no balanço que nunca se concretiza.
A Forvis Mazars foi contundente na sua “opinião com reserva” que reedita uma realidade penosa que se vem registando nos últimos anos e é ciclicamente ignorada pelo próprio Banco de Moçambique.
“Continuamos a constatar que o Estado moçambicano não assume as suas responsabilidades desde o exercício de 2005, no montante acumulado de 128.977.662 milhões de meticais. Adicionalmente, o Banco também não procedeu ao registo, nas suas demonstrações financeiras individuais e consolidadas, dos juros e rendimentos associados a esta dívida do Estado moçambicano, no montante de 27.698.958 milhões de meticais”, sublinha. Ou seja, o Banco poderia ter registado mais 27,7 mil milhões de receitas de juros se o Estado tivesse cumprido a lei. Mas não o fez. E, para agravar, o sistema contabilístico do banco central “não permite a extracção do mapa de reavaliação cambial por moeda”, o que levou o auditor a afirmar: “não nos foi possível obter evidência de auditoria suficiente e apropriada relativamente aos saldos acima referidos”.
As alterações contabilísticas que escondem a realidade
As demonstrações financeiras de 2025 trouxeram duas mudanças de política contabilística que merecem análise crítica. A primeira, descrita na Nota 4, diz respeito ao ouro monetário. Até 2024, o Banco registava conjuntamente as variações de preço e as variações cambiais do ouro numa única rubrica de “Flutuação de Valores”.
Entretanto, a partir de 1 de Janeiro de 2025 decidiu separar as coisas. As variações de preço do ouro passaram a ser reconhecidas em reservas de reavaliação no capital próprio, e apenas as variações cambiais continuam na flutuação de valores.
Como resultado, segundo o auditor, o capital próprio do Banco foi artificialmente inflacionado com 13.824,2 milhões de meticais de “ganhos de reavaliação de ouro” (Nota 24), numa altura em que o resultado líquido era profundamente negativo. Sem este expediente, o défice de capital próprio seria ainda mais grave.
A segunda alteração foi a reclassificação de depósitos a prazo e overnight da categoria “justo valor através de rendimento integral” para “activos financeiros ao custo amortizado”. Isto permitiu evitar reconhecer no resultado as perdas não realizadas desses activos.
A Nota 25 revela que, a 31 de Dezembro de 2025, a diferença entre o custo de aquisição e o justo valor dos activos financeiros ao justo valor através de rendimento integral era de menos 152,6 mil milhões de meticais, um rombo que não aparece na demonstração de resultados.
O risco de liquidez e a dependência dos bilhetes do Tesouro
A 31 de Dezembro de 2025, os “Bilhetes do Tesouro emitidos em nome do Estado e outros instrumentos monetários” totalizavam 530.938,8 milhões de meticais, representando 55% do passivo total do Banco. Estes bilhetes são emitidos pelo próprio Banco de Moçambique para financiar o Estado e para gerir a liquidez do mercado monetário.
A posição líquida do Banco, quando se olha ao detalhe por maturidades (Nota 5.3), é alarmante: nos prazos até um mês, o banco central apresenta uma posição líquida negativa de 248,6 mil milhões de meticais. Isto significa que, a muito curto prazo, o Banco tem mais obrigações de pagamento do que activos líquidos para as cobrir. A gestão do risco de liquidez é classificada como “elaborada com base em projecções de fluxos de caixa”, mas a dependência de bilhetes do Tesouro, cujo reembolso depende do próprio Estado, coloca o banco central numa posição frágil.
Procurando compreender como é que o Banco de Moçambique conseguiu ter um prejuízo de 13,3 mil milhões num ano em que os seus rendimentos totais (juros, comissões, operações cambiais) atingiram 4.516,3 milhões de meticais, os auditores descobriram que os “juros e gastos equiparados” dispararam para 21.021,7 milhões, impulsionados pelos “Juros de Bilhetes do Tesouro emitidos em nome do Estado”, que atingiram 19.686,6 milhões. O Banco paga juros elevados para vender os seus próprios bilhetes no mercado, num ciclo perverso, ou seja, financia o Estado, mas compromete as suas próprias contas.



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