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- Relatório expõe crescimento alarmante da indústria da mentira em Moçambique
- MISA revela que notícias falsas triplicaram em 2025, tendo a política como principal alvo
- Facebook e páginas que imitam órgãos de comunicação social lideram a disseminação
A desinformação em Moçambique deixou de ser um fenómeno esporádico associado apenas aos períodos eleitorais para se transformar num problema permanente, organizado e com capacidade de influenciar o debate público, fragilizar instituições e alimentar a polarização política. A conclusão consta do mais recente Relatório sobre o Estado da Desinformação no Espaço Digital em Moçambique 2025, elaborado pelo MISA Moçambique através da plataforma MISACheck, que alerta para uma crescente “industrialização” da produção de conteúdos falsos no país.
Evidências
O documento traça um retrato preocupante do ambiente digital moçambicano. Ao longo de 2025 foram detectados 81 casos de desinformação, quase três vezes mais do que os 28 registados no relatório anterior, referente ao segundo semestre de 2024.
Embora o aumento seja parcialmente explicado pelo facto de o novo estudo abranger doze meses de monitoria, o MISA considera que os números reflectem igualmente uma tendência clara. A desinformação tornou-se um fenómeno sistémico, alimentado pela expansão das redes sociais, pela crescente utilização de ferramentas de inteligência artificial e pela forte polarização política que caracteriza o país.
Segundo o relatório, mais de 86% dos casos identificados correspondiam a informações totalmente falsas, fabricadas de raiz para manipular a opinião pública. Apenas uma pequena parte dizia respeito à manipulação de factos reais ou a informações ainda não comprovadas.
Para os investigadores, esta realidade demonstra que os agentes da desinformação já não se limitam a distorcer acontecimentos existentes, mas passaram a produzir conteúdos completamente inventados, numa lógica de produção contínua destinada a influenciar percepções públicas.
Política continua no centro da manipulação, com Frelimo e ANAMOLA no topo
Tal como aconteceu durante o período eleitoral, a política voltou a concentrar a maior parte dos conteúdos falsos. O relatório conclui que a disputa política e a polarização entre apoiantes da FRELIMO, da oposição e dos novos movimentos políticos criaram um ambiente particularmente favorável à circulação de notícias falsas.
Entre os casos identificados figuram alegações falsas de que o Tribunal Penal Internacional teria suspendido a tomada de posse do Presidente da República, Daniel Chapo; rumores sobre a alegada demissão do Chefe do Estado; uma suposta confissão de fraude eleitoral atribuída ao antigo Presidente Filipe Nyusi; falsas notícias sobre o apoio do Presidente português Marcelo Rebelo de Sousa ao partido ANAMOLA; e ainda informações fabricadas segundo as quais Venâncio Mondlane teria sido convidado para uma reunião na Casa Branca.
O estudo identifica igualmente um padrão recorrente de falsas notícias envolvendo mortes, atentados, raptos e prisões de figuras públicas. Entre os alvos estiveram Daniel Chapo, Filipe Nyusi, Venâncio Mondlane, Ossufo Momade, Joaquim Chissano, Bernardino Rafael, Paulo Chachine, Verónica Macamo e várias outras personalidades da vida política nacional.
As próprias instituições do Estado também surgem entre as maiores vítimas. O Conselho Constitucional, a Comissão Nacional de Eleições, a Procuradoria-Geral da República, o Tribunal Administrativo, o Banco de Moçambique, a Polícia da República de Moçambique, o SERNIC e diversos ministérios foram frequentemente associados a informações falsas destinadas a gerar descrédito institucional ou falsas expectativas relacionadas com salários, concursos públicos e programas governamentais.
A investigação mostra que a desinformação deixou igualmente de ter apenas motivações políticas. O espaço digital passou a ser utilizado para esquemas de burla que exploram o elevado desemprego e a vulnerabilidade económica da população.
Ao longo do ano circularam falsas campanhas de recrutamento para o Instituto Nacional de Estatística, alegados programas presidenciais de emprego para jovens, falsas propostas de aumento do salário mínimo, inexistentes subsídios universais para funcionários públicos e esquemas fraudulentos que utilizaram nomes de figuras públicas e de instituições financeiras para enganar cidadãos.
Na área da saúde também proliferaram conteúdos enganosos sobre HIV/SIDA, vacinação, medicamentos, segurança alimentar e alegados esquemas de extracção ilegal de órgãos humanos, demonstrando que praticamente nenhum sector escapou à vaga de desinformação.
Facebook lidera máquina de desinformação
O relatório aponta o Facebook como a principal plataforma utilizada para disseminar conteúdos falsos em Moçambique, seguido pelos grupos de WhatsApp, que funcionam como mecanismos rápidos de redistribuição de mensagens, vídeos e áudios.
Um dos aspectos mais preocupantes identificados pelo MISA é a proliferação de páginas que imitam órgãos de comunicação social. Muitas utilizam designações como “News”, “Notícias” ou “Portal”, simulando tratar-se de meios de comunicação credíveis. Outras recorrem mesmo à utilização indevida da imagem gráfica de televisões e jornais conhecidos para conferir aparência de autenticidade às publicações.
Segundo o estudo, a ausência de autores identificáveis, o recurso sistemático ao anonimato, títulos sensacionalistas, foto-montagens e documentos falsificados revelam uma estratégia deliberada de manipulação da informação e de obtenção de receitas através da viralização dos conteúdos.
Apesar do agravamento do problema, o MISA considera que Moçambique continua atrasado na criação de um quadro jurídico específico para responder aos desafios do ambiente digital. Até este ano, o país dispunha apenas da Lei das Transacções Electrónicas para regular parcialmente o espaço digital. Entretanto, foram aprovadas as leis de Segurança Cibernética e de Crimes Cibernéticos, estando igualmente em preparação uma lei sobre protecção de dados pessoais.
Ainda assim, o relatório alerta para o risco de uma eventual legislação ser utilizada para restringir a liberdade de expressão e de imprensa sob o argumento do combate à desinformação. Perante este cenário, o MISA defende uma resposta multissectorial que envolva Governo, órgãos de comunicação social, plataformas digitais, academia e sociedade civil.



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