Share this
- Concentração de contratos estratégicos de gás do Rovuma numa única empresa
A eventual adjudicação do contrato EPC (Engineering, Procurement and Construction) do projecto Rovuma LNG à empresa italiana Saipem está a alimentar preocupações crescentes em torno da excessiva concentração de poder operacional na indústria do gás natural em Moçambique. Embora a decisão pertença formalmente à operadora ExxonMobil e aos seus parceiros, especialistas do sector alertam que a questão ultrapassa o âmbito comercial e assume contornos estratégicos para o futuro energético do país.
Reginaldo Tchambule
Se os sinais do mercado se confirmarem, a Saipem passará a deter responsabilidades de execução em praticamente todos os grandes projectos de gás natural liquefeito da Bacia do Rovuma, uma situação sem precedentes e que poderá criar uma dependência estrutural de uma única empresa estrangeira na exploração do principal activo económico de Moçambique.
O actual mapa do gás moçambicano revela uma presença dominante da Saipem em toda a cadeia dos grandes investimentos energéticos nacionais.
A empresa participa na execução do projecto Coral Sul FLNG, responsável pela primeira exportação de gás natural liquefeito do país. Tudo indica igualmente que terá um papel central no desenvolvimento do futuro Coral Norte FLNG, concebido como uma réplica quase directa da plataforma actualmente em operação.
Ao mesmo tempo, a empresa italiana encontra-se envolvida na execução do projecto liderado pela TotalEnergies em Afungi, considerado o maior empreendimento de gás natural liquefeito em terra firme do continente africano.
Caso se confirme a atribuição do Engineering, Procurement and Construction (EPC) do Rovuma LNG pela ExxonMobil, a mesma empresa passará a controlar operacionalmente todos os principais projectos de GNL de Moçambique.
Dependência excessiva pode transformar-se em vulnerabilidade nacional
Esta concentração excessiva de risco num único operador está a ser encarada por players do sector como algo que dificilmente seria aceite em sectores estratégicos de outras economias dependentes de recursos naturais.
A principal preocupação não reside na capacidade técnica da Saipem, amplamente reconhecida na indústria internacional de petróleo e gás, mas sim no grau de exposição que Moçambique poderá passar a ter face ao desempenho financeiro e operacional de uma única empresa.
Há poucos anos, a Saipem atravessou uma das maiores crises da sua história, sendo obrigada a avançar com uma profunda reestruturação financeira e um aumento de capital de dimensão histórica para assegurar a continuidade das suas operações.
Durante o pior momento da crise, a Saipem registou um prejuízo líquido acumulado de 2,467 mil milhões de euros no ano fiscal de 2021. Esse volume de perdas gerou um alerta financeiro (profit warning) e desencadeou a reestruturação da companhia.
Embora a empresa tenha conseguido recuperar, o episódio deixou uma lição importante para o sector energético internacional: nenhum país deve colocar os seus activos estratégicos nas mãos de um único prestador de serviços, independentemente da sua reputação ou dimensão.
A pergunta torna-se inevitável: o que aconteceria aos projectos de gás moçambicanos caso a empresa enfrentasse novas dificuldades financeiras, operacionais ou jurídicas?
Num cenário extremo, segundo um reputado especialista que que pediu para falar na condição de anonimato, um problema interno numa única empresa poderia afectar simultaneamente o Coral Sul, o Coral Norte, o projecto da TotalEnergies e o Rovuma LNG, comprometendo investimentos avaliados em dezenas de milhares de milhões de dólares e colocando em risco o sonho de transformar Moçambique num dos maiores exportadores mundiais de gás natural liquefeito.
A concentração também levanta preocupações ao nível do equilíbrio negocial entre o Estado moçambicano e os grandes fornecedores internacionais, pois, num mercado competitivo, diferentes “EPCistas” disputam contratos, pressionando preços, aumentando padrões de eficiência e criando incentivos para melhores prazos e melhor execução das obras. Quando uma única empresa passa a dominar praticamente todo o mercado disponível, essa pressão concorrencial desaparece.
A fusão com a Subsea7 acrescenta novas incertezas
As preocupações aumentam ainda mais devido ao processo de fusão em curso entre a Saipem e a empresa norueguesa Subsea7, previsto para ser concluído no segundo semestre de 2026.
A operação dará origem a uma nova gigante global do sector offshore, frequentemente designada nos mercados como “Saipem7”, e que terá uma estrutura de gestão partilhada entre as duas organizações.
Na prática, isso significa integrar equipas, culturas empresariais, processos internos e sistemas de gestão de projectos profundamente distintos, precisamente durante os anos críticos de execução das maiores obras energéticas da história de Moçambique.
Segundo o mesmo especialista, a indústria internacional oferece vários exemplos pouco animadores sobre este tipo de operações. A fusão entre a TechnipFMC, concluída em 2017, acabou por revelar dificuldades significativas de integração e terminou com a separação das empresas apenas quatro anos depois.
Mais dramático foi o caso da fusão entre McDermott International e Chicago Bridge & Iron Company em 2018, cujo fracasso operacional contribuiu para a insolvência da empresa menos de dois anos depois.
Para Moçambique, a perspectiva de confiar a execução dos seus maiores projectos energéticos a uma empresa que estará simultaneamente a gerir uma complexa integração corporativa representa um risco que não pode ser ignorado.
O custo invisível: o impacto sobre o conteúdo local
Existe ainda uma dimensão frequentemente ausente dos grandes anúncios corporativos: o impacto sobre o conteúdo local. Fontes ligadas ao sector indicam que muitas empresas moçambicanas já se encontravam posicionadas para integrar a cadeia de fornecimento da Technip Energies, considerada por diversos actores da indústria como uma das empresas com melhor histórico em matéria de formação técnica, transferência de conhecimento e integração de fornecedores nacionais.
Ao longo dos anos, a Technip desenvolveu programas estruturados de capacitação em vários países produtores de petróleo e gás, apostando na criação de competências locais e na incorporação progressiva de quadros nacionais nas suas operações.
Caso a Saipem venha efectivamente a conquistar também o contrato da ExxonMobil, muitas dessas expectativas poderão ficar comprometidas. Para centenas de pequenas e médias empresas moçambicanas, a diferença entre os dois modelos pode traduzir-se na diferença entre participar efectivamente da riqueza do gás ou permanecer apenas como espectador de investimentos bilionários.



Facebook Comments