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- “Infelizmente os nossos programas culturais não têm casa…”
A cultura moçambicana está a perder a sua identidade, enquanto artistas, órgãos de comunicação social e o próprio público alimentam um ciclo de mediocridade que privilegia a popularidade fácil em detrimento da criação artística. O alerta é do músico e compositor Roberto Chitsondzo, para quem a degradação do panorama cultural não pode ser atribuída a um único responsável, mas sim a uma sociedade que, aos poucos, deixou de valorizar as suas próprias referências.
Elísio Nuvunga
Interpelado pelo Evidências à margem do lançamento do Veredicto, que se estreou na última sexta-feira, sob direcção de Zé Pires, para responder sobre quem é o principal culpado pelo enfraquecimento da produção cultural nacional, o artista preferiu distribuir “o mal pelas aldeias”, recorrendo à metáfora para defender que a responsabilidade é colectiva.
Segundo Chitsondzo, muitos músicos abandonaram a autenticidade para seguir tendências comerciais, enquanto o público passou a consumir, com maior entusiasmo, conteúdos importados e fenómenos passageiros, relegando para segundo plano as manifestações culturais que marcaram a identidade do país.
“Nós, artistas, fugimos da nossa essência para sermos mais aplaudidos. A sociedade deixou de escutar a sua própria cultura para dar mais likes àquilo que é dos outros”, afirmou.
Para o compositor, Moçambique sempre dialogou com outras culturas, mas essa abertura nunca deveria significar a substituição dos valores artísticos nacionais por modelos importados. Na sua leitura, o problema não está na influência estrangeira, mas na incapacidade de preservar aquilo que distingue a criação moçambicana.
As críticas estendem-se aos órgãos de comunicação social, que, segundo o músico, deixaram de cumprir o papel de promover e formar públicos para a cultura, optando por conteúdos de consumo rápido, polémicas e entretenimento sem profundidade.
“Infelizmente, os nossos programas culturais não têm casa. Aquilo a que a gente assiste é fofoca, aberrações, insultos. Daquilo que deveriam apresentar os nossos colegas, eu não vejo nada.”
Na sua opinião, muitos meios de comunicação transformaram-se em plataformas de promoção da mediocridade, abrindo espaço para actuações sem qualidade técnica e sem qualquer exercício de crítica, contribuindo para a banalização da produção artística nacional.
Chitsondzo considera igualmente que a indústria musical vive hoje excessivamente condicionada pelas tendências internacionais. Géneros como o Amapiano passaram, segundo diz, a orientar as escolhas de muitos artistas, que produzem músicas para responder às exigências do mercado e das redes sociais, em vez de investirem em obras capazes de preservar a memória e a identidade cultural moçambicana.
Apesar do diagnóstico crítico, o músico acredita que o país continua a possuir um património artístico capaz de inverter esta tendência. Recorda que Moçambique é berço de escritores, poetas, compositores e intérpretes de reconhecimento internacional, defendendo que esse legado deve voltar a servir de inspiração às novas gerações.
“Temos muitos livros escritos por moçambicanos, poetas reconhecidos internacionalmente e nós ainda aparecemos a cantar músicas sem conteúdo. Por que é que não vamos buscar um poema e transformá-lo numa música? Temos vergonha de quê?”, questionou.
Para Roberto Chitsondzo, a recuperação da cultura moçambicana dependerá menos das modas e mais da capacidade de artistas, media e sociedade resgatarem a identidade que, durante décadas, fez da música, da literatura, do teatro e da dança instrumentos de formação cívica e afirmação nacional. Enquanto o sucesso continuar a medir-se pelo número de visualizações e não pela qualidade da criação, conclui, Moçambique arrisca-se a perder uma das suas maiores riquezas: a capacidade de contar a sua própria história através da arte.



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