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- Governo minimiza presença de homens armados em Manica
- Homens de AK-47 à paisana e até de calções revistaram até viaturas da Polícia
- Administrador diz que homens que aterrorizam Macossa estão em patrulhamento de rotina
- PRM diz estar a investigar, mas Procurador-Geral já havia alertado para risco de instabilidade
O distrito de Macossa, na província de Manica, transformou-se, nos últimos dias, num verdadeiro território de excepção, onde homens armados com espingardas do tipo AK-47 circulam livremente, montam controlo, revistam viaturas e, segundo relatos e imagens difundidas publicamente, chegam ao ponto de submeter à revista até carros pertencentes à própria Polícia da República de Moçambique (PRM). A coorporação disse estar estar a investigar a proveniência dos mesmos, mas, mesmo antes de terminar este trabalho, o administrador do distrito de Macossa, Albano Muiambo, assegura que os homens armados não constituem qualquer milícia privada nem grupo irregular. Segundo a versão oficial, tratava-se de membros das Forças de Defesa e Segurança (FDS), envolvidos numa missão regular de patrulhamento. A explicação, porém, levanta mais dúvidas do que esclarece, não explica, por exemplo, por que os referidos homens aparecem nas comunidades de calções e de chinelos a exercerem controlo numa zona mineira em disputa
Luísa Muhambe e Redacção
As imagens e relatos criaram um ambiente de inquietação numa região marcada por intensa actividade mineira e por informações sobre uma alegada disputa em torno de uma mina de ouro. Mas, perante o alarme público, o Governo optou por minimizar a situação.
Nas imagens que circularam através das redes sociais, os homens que o Governo garante serem membros das FDS aparecem armados, mas sem uma identificação visível que permita, à primeira vista, associá-los a uma unidade oficial. Na verdade surgem descaracterizados, vestidos de calções e chinelos, enquanto exercem controlo sobre a circulação de pessoas e viaturas numa zona de exploração mineira.
Mais intrigante ainda é o facto de as imagens mostrarem esses homens a revistarem viaturas, incluindo, alegadamente, carros pertencentes à própria Polícia da República de Moçambique.
Os relatos recolhidos no local descrevem um ambiente em que a circulação passou a ser condicionada por homens armados que impunham regras numa área associada a uma alegada disputa sobre a exploração de ouro, mas também no centro da vila sede local.
Segundo informações divulgadas, uma das partes envolvidas no conflito teria accionado homens armados, alegadamente militares, que passaram a exercer controlo sobre a região mineira, onde lavra um negócio fortemente controlado por grandes generais e dirigentes seniores do Estado e do partido no poder.
Durante o período mais fértil do mandato de Filipe Nyusi, o exército chegou a ser usado como força privada para proteger interesses privados de Florindo Nyusi e ajudar a arrancar minas que um dos “putos” mais mimados da ninhada presidencial do consulado passado pretendia, como aconteceu com uma área inicialmente concessionada a Mussumbuluko Guebuza.
“Até agentes da Polícia não podiam chegar à região sem passar pela revista dos homens”, denuncia um morador, descrevendo um cenário de caos e de uma espécie de autoridade paralela.
“Missão de rotina” numa zona de disputa dos grandes
Entretanto, o administrador de Macossa preferiu afastar a existência de qualquer situação de instabilidade, garantindo que o distrito permanece calmo.
“Trata-se de Forças de Defesa e Segurança estatais que realizavam actividades de patrulhamento de rotina na região mineira onde se encontravam, o que gerou um receio infundado na população local”, garantiu Albano Muiambo.
O governante apelou à população para manter a calma e continuar com as suas actividades normais, defendendo maior rigor na divulgação de informações relacionadas com o caso.
“Pautem-se pelo rigor, pela verificação das fontes oficiais e pela responsabilidade, evitando a disseminação de informações alarmistas que visam apenas semear o desassossego no seio das comunidades”, acrescentou.
Mas o apelo à calma não responde às questões centrais levantadas pelas imagens: Que unidade das FDS está destacada para Macossa? Quem ordenou a operação? Qual é exactamente a missão? Por que razão os homens aparecem sem uniforme e sem identificação visível? E, sobretudo, por que motivo uma patrulha de rotina revista viaturas da própria Polícia?
PGR já tinha alertado para homens armados nas zonas mineiras
A preocupação com a segurança em Macossa não surgiu agora. No dia 9 de Julho, durante uma visita de trabalho à província de Manica, o procurador-geral da República, Américo Letela, alertou expressamente para os riscos associados à presença e movimentação de grupos armados nas zonas de garimpo.
Numa intervenção dirigida às comunidades, Letela apelou à vigilância e alertou para o risco de surgimento de focos de instabilidade semelhantes aos que afectam a província de Cabo Delgado.
“Queria pedir aos meus irmãos aqui que cada um de nós seja vigilante. Não podemos admitir e não devemos aceitar que apareça qualquer pessoa para nos instigar a fazer aquilo que está a acontecer em Cabo Delgado. Porque, se isso tiver de acontecer, vamos continuar a explorar a mina? Não. Só conseguimos explorar a mina porque estamos aqui em paz”, advertiu o procurador-geral.
O alerta ganha agora uma dimensão ainda mais preocupante perante a circulação de homens armados em Macossa e as suspeitas de que interesses privados ligados à exploração mineira possam estar no centro do conflito.
PRM dizia estar a investigar, Governo já diz que eram FDS
Outra contradição está na própria sequência dos acontecimentos. Antes do pronunciamento do administrador distrital, a Polícia da República de Moçambique, em Manica, tinha anunciado a abertura de uma investigação para apurar as denúncias sobre a presença de homens armados na região.
“Neste momento, estamos a averiguar, a investigar o caso”, declarou o porta-voz do comando provincial da PRM em Manica, Mouzinho Manasse, sem fornecer mais detalhes sobre as diligências.
A posição da Polícia levanta uma questão adicional: se os homens armados eram, desde o início, membros das Forças de Defesa e Segurança em missão oficial de patrulhamento, por que razão a própria PRM anunciou que estava a investigar a presença desses indivíduos?
Ouro, pedras preciosas e uma zona cada vez mais disputada
Macossa é um distrito de forte potencial mineiro. A região é conhecida pela exploração artesanal e semi-industrial de ouro e regista igualmente a ocorrência de pedras preciosas e semi-preciosas, incluindo turmalina e granada.
A riqueza do subsolo atrai centenas de garimpeiros e interesses económicos, tornando a exploração mineira uma actividade particularmente sensível. É neste ambiente de riqueza mineral, disputas de interesses e presença de homens fortemente armados que Macossa passou a viver dias de tensão.



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