Quando o alerta americano chega antes dos tiros

EDITORIAL
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Há uma questão que começa a merecer atenção séria quando se observa a evolução da ameaça terrorista no Norte de Moçambique. Como conseguem os Estados Unidos antecipar, com aparente precisão, momentos de agravamento do risco quando, no terreno, os sinais visíveis parecem apontar em sentido contrário?

A 21 de Agosto, os Estados Unidos actualizaram o seu aviso de viagem sobre Moçambique, mantendo Cabo Delgado no nível 4, que é algo como “Do Not Travel”, a classificação mais elevada de risco e advertindo, de forma particularmente incisiva, para a vulnerabilidade de Pemba a ataques. A avaliação poderia parecer excessivamente cautelosa num momento em que a realidade visível permitia alguma leitura de abrandamento.

Nos últimos meses, apesar da elevada circulação de pequenos grupos insurgentes por diferentes pontos do Norte, os ataques de grande dimensão haviam reduzido. Havia movimentação, incursões localizadas e episódios de violência, mas menos acções capazes de produzir o impacto militar e psicológico observado em outros períodos da insurgência. Essa realidade alimentava uma percepção, ainda que relativa, de que a capacidade operacional dos terroristas poderia estar a diminuir. Os Estados Unidos aparentemente não compraram essa leitura.

Menos de duas semanas depois do alerta, um ataque de dimensão relevante voltou a demonstrar que menor frequência de grandes ofensivas não significa necessariamente perda de capacidade. Pelo contrário, períodos de aparente acalmia podem representar reorganização, mobilidade, reconhecimento de novos territórios e preparação de operações mais ambiciosas. É precisamente aqui que o alerta americano deve suscitar reflexão.

Não se trata de atribuir aos Estados Unidos poderes de adivinhação. Washington possui recursos de inteligência, redes de informação, capacidade tecnológica e mecanismos de avaliação de ameaças que permitem construir cenários a partir de sinais que dificilmente chegam ao conhecimento público. Mas a sequência entre advertência e ataque levanta uma questão incontornável: que informação sustentava uma avaliação tão elevada do risco justamente quando a percepção pública podia apontar para algum enfraquecimento da insurgência?

O ataque subsequente torna a pergunta ainda mais relevante porque parece revelar não apenas capacidade de sobrevivência do grupo, mas potencial de expansão territorial. A ameaça já não deve ser analisada exclusivamente a partir dos tradicionais focos de Cabo Delgado, mesmo que não haja dúvida de que estes não almejam expandir. A mobilidade dos insurgentes e a ocorrência de episódios em áreas anteriormente consideradas periféricas mostram que o mapa do risco pode mudar, mesmo que seja para chamar atenção ou dispersar as Forças de Defesa e Segurança.

Há ainda outra dimensão preocupante. Quando Washington eleva ou mantém determinadas zonas no nível máximo de alerta e, pouco depois, ocorre uma acção capaz de ameaçar directamente cidadãos ou interesses americanos, a advertência deixa de parecer uma simples medida administrativa de precaução consular. Passa a revelar uma leitura antecipada de uma ameaça concreta e dinâmica.

Para Moçambique, a lição deveria ser simples. Não confundir redução de ataques de vulto com redução da capacidade terrorista. Uma insurgência não se mede apenas pelo número de ataques realizados. Mede-se também pela capacidade de circular, recrutar, financiar-se, recolher informação, escolher alvos e surpreender. Um grupo que aparece menos pode não estar necessariamente mais fraco. Pode estar apenas menos visível. E talvez seja exactamente isso que os americanos tenham percebido antes de muitos de nós.

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