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- O que restou do homem que era dado como sucessor de Nyusi e já movimentava Maputo e Durban
- Impressão e carregamento de camisetes de Roque Silva tinham começado cerca de duas semanas antes
- Material com rosto e nome de Roque Silva tinha sido produzido na África do Sul e transportado antes da votação
- Carga era concentrada num armazém na Matola e transporte teria contado com facilidades na fronteira
- Após a reviravolta no CC, terão sido dadas ordens para interromper a produção e destruir ou queimar as camisetes
- Derrota de Roque Silva acabou acompanhada pela renúncia à secretaria-geral e à Comissão Política
Circulando sozinho pelos corredores da XVI Conferência Nacional de Quadros da Frelimo, ou, por vezes, ladeado por figuras de menor exposição política, Roque Silva já não lembra o homem poderoso que, há pouco mais de dois anos, era apontado nos corredores do partido como “futuro Presidente”. Reduzido hoje à condição de mero membro do Comité Central, o antigo secretário-geral da Frelimo parece ter desaparecido dos grandes palcos do partido. O isolamento que passou a marcar as suas aparições contrasta com a influência que lhe era atribuída nos meses que antecederam o Comité Central que escolheu Daniel Chapo como candidato presidencial da Frelimo, em Maio de 2024. O seu afastamento dos centros de decisão, a renúncia à secretaria-geral e à Comissão Política, depois da derrota na corrida interna, e o posterior desaparecimento dos holofotes explicam a desilusão de um homem que muito antes de a Comissão Política incluir o seu nome na contestada lista de pré-candidatos, sectores que apostavam na sua vitória já se comportavam como se a sucessão estivesse decidida. A convicção era tamanha que, segundo relatos obtidos pelo Evidências, camisetes e outro material com o rosto e o nome de Roque Silva começaram a ser produzidos cerca de duas semanas antes da reunião que definiria o candidato presidencial da Frelimo.
Evidências
Dos cerca de 3.000 delegados e convidados que, entre 21 e 23 de Agosto, se reuniram numa tenda gigante montada no bairro Chitémbwe, na cidade de Chimoio, para a XI Conferência Nacional de Quadros da Frelimo, havia uma figura que chamava atenção precisamente pelo contrário daquilo que, durante anos, a tornou incontornável nos grandes encontros do partido. Roque Silva estava lá, mas já não era o Roque Silva que todos conheceram.
Circulando muitas vezes sozinho pelos corredores ou ladeado por figuras de menor exposição política, o antigo secretário-geral da Frelimo tornou-se uma presença quase rara no espaço público, reduzido hoje à condição de simples membro do Comité Central. A imagem contrasta radicalmente com a do homem que, há pouco mais de dois anos, ocupava o centro das movimentações para a sucessão de Filipe Nyusi e era tratado, nos corredores do partido, como “futuro Presidente”.
A aposta era tão forte que a produção das camisetes com o rosto e o nome do então secretário-geral da Frelimo não esperou pelo veredicto do Comité Central. Segundo relatos obtidos pelo Evidências, a operação começou cerca de duas semanas antes da reunião que, entre 3 e 5 de Maio de 2024, viria a produzir um resultado completamente diferente daquele que os promotores da candidatura de Roque Silva esperavam, conduzindo-se o então improvável Daniel Chapo para candidato presidencial pela Frelimo.
A mercadoria era produzida em Durban, na África do Sul, e acondicionada em caixas para seguir por estrada até Moçambique. Não se tratava, segundo os relatos, de uma entrega isolada. Havia uma cadeia de transportadores mobilizada para garantir que o material chegasse ao destino e uma estrutura de recepção preparada do lado moçambicano.
Da fronteira ao armazém, com escolta
O destino de parte da carga era um armazém na Matola, onde as camisetes e outro material de campanha eram concentrados antes da sua distribuição.
Segundo pessoas familiarizadas com a operação, os motoristas tinham instruções para contactar um número específico assim que chegassem à fronteira da Ponta do Ouro. Do outro lado da linha estaria uma pessoa previamente identificada, que orientava a passagem da carga, sem pagamento de direitos aduaneiros e sem a tramitação normal.
Os relatos indicam que, depois da entrada em território nacional, os transportadores eram escoltados por viaturas até ao local de descarga. Entre os veículos mencionados estão Toyota Mark X e BMW.
A descrição sugere que os motoristas não circulavam simplesmente com uma carga comercial e um destino previamente indicado. Havia uma rede de pessoas, liderada por cidadãos de origem asiática, descritos como “monhés”, que sabia da chegada da mercadoria, aguardava pelos transportadores e encaminhava a carga até ao ponto definido.
Uma certeza que acabou em derrota
A aposta em Roque Silva não se limitava à produção de camisetes. Segundo fontes ouvidas pelo Evidências, uma constelação de empresários da praça e apoiantes já havia sido mobilizada para sustentar a sua candidatura e pagava a granel o acesso privilegiado à mesa do lobby do consulado daquele que tinham quase certeza que estaria agora a governar.
A confiança na vitória era alimentada pela percepção de que a máquina política montada em torno da sucessão funcionaria a seu favor. A Comissão Política colocou e blindou apenas três nomes. Daniel Chapo, Roque Silva e Damião José foram os três nomes propostos pela Comissão Política da Frelimo em Maio de 2024 para suceder a Filipe Nyusi.
Daniel Chapo e Damião José, numa lista que acabou por juntar sob pressão Francisco Mucanheia e Esperança Bias, eram mera fauna acompanhante. Mas fruto da vingança de todos os grupos que se sentiram marginalizados, Daniel Chapo acabaria por vencer a disputa, mesmo não tendo entrado na corrida para vencer.
A operação preparada para Roque Silva começou então a ser desmontada. Segundo os relatos, naquela mesma noite, foram dadas instruções para interromper a produção e dar destino ao material que já estava pronto, incluindo destruição. Parte do stock que permanecia na África do Sul teria sido igualmente alvo de orientações para ser queimado.
Para além da destruição de centenas de caixas com milhares de camisetes e outro material de campanha já com rosto e nome estampados, a derrota teve consequências imediatas para Roque Silva.
A 5 de Maio de 2024, depois da escolha de Daniel Chapo como candidato presidencial da Frelimo, Roque Silva deixou a secretaria-geral do partido e renunciou igualmente ao lugar na Comissão Política. A decisão encerrou uma trajectória de forte exposição e influência dentro da organização e transformou um homem antes super poderoso, que chegou a dizer que “o partido tem que te querer, para você se querer”, numa figura que não lembra de longe a sombra do que um dia foi.



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