Juventude, Entretenimento, Responsabilidade e Futuro de Moçambique

OPINIÃO
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Shipeni Thovela

No último fim-de semana-prolongado, a Praia da Macaneta, em Marracuene, tornou-se o retrato de um problema que Moçambique tem preferido não olhar de frente. As imagens que circularam mostravam uma faixa de areia tomada por uma multidão muito acima da sua capacidade, sem controlo de acessos, condições sanitárias ou coordenação entre organizadores e público. Uma cidadã anónima descreveu a experiência como caótica e perigosa. Dias depois, o Presidente do Município de Marracuene dirigiu-se publicamente à população para reconhecer falhas e pedir desculpas, enquanto o jurista e ambientalista Carlos Serra alertava para o que o episódio revela sobre a regulação, o ordenamento do território costeiro e o risco público do entretenimento de massas.

A Macaneta não é um caso isolado. É o expoente mais recente de um padrão que se repete, com variações, na Praia de Bilene, em Ponta do Ouro, na Praia de Xai-Xai e no Tofo, sobretudo nos feriados prolongados e nas festas de fim de ano, sempre que multidões jovens se deslocam em massa para locais de lazer, o consumo de álcool atinge picos, e a exposição a riscos, de acidentes a violência sexual, aumenta na mesma proporção em que diminui a supervisão. Este artigo não pretende condenar o lazer nem a juventude, mas perguntar o que este padrão diz sobre a relação que uma parte da nova geração moçambicana constrói com o tempo livre, com o corpo e com o país, e que custo isso pode ter para o futuro colectivo.

Os registos das brigadas de limpeza que actuam na Macaneta nos dias seguintes a estes episódios dão corpo material a esta leitura. Entre garrafas, latas e sacos de lixo, os voluntários têm recolhido sistematicamente peças de roupa íntima abandonadas na areia, imagens que o próprio Carlos Serra documenta publicamente nas suas acções de limpeza. Não é um pormenor anedótico, mas um indício, entre outros possíveis, de que aquilo que ali acontece, sobretudo durante a noite, pode extravasar a ideia de simples convívio de praia e envolver exposição sexual desprotegida, ainda que uma única imagem não baste para medir a escala exacta do fenómeno.

Há um contraste difícil de ignorar. A mesma juventude que, em reportagens de rua sucessivas, hesita ou erra ao identificar quem foi o primeiro Presidente da República de Moçambique, ou comete erros ortográficos em palavras da instrução primária, é a que, em cada feriado prolongado, se mobiliza em massa para as praias e os espaços de entretenimento. Ridicularizar quem erra não ajuda, pois o sistema educativo tem responsabilidades próprias, já tratadas noutros textos deste espaço de opinião. Importa antes assinalar a desproporção entre a energia, o tempo e os recursos que os jovens moçambicanos mobilizam para o lazer e o investimento equivalente na sua formação cívica, histórica e cultural.

Este padrão não é exclusivamente moçambicano, nem novo enquanto fenómeno geracional. O consumo de álcool, o uso experimental de drogas e a exploração da sexualidade fazem parte, em maior ou menor grau, da entrada na vida adulta em praticamente todas as sociedades. O que distingue o caso moçambicano não é o comportamento em si, mas o contexto, com indicadores de literacia e conhecimento cívico ainda frágeis, um mercado de trabalho incapaz de absorver a maioria dos jovens que terminam o ensino secundário ou superior, e uma indústria de entretenimento que cresce mais depressa do que a capacidade do Estado de a regular. Nesse contexto, o entretenimento deixa de ser convívio social para se tornar, para uma parte da juventude, o principal eixo organizador da sua identidade e do seu tempo.

A reincidência é o que transforma um hábito social em algo próximo do vício. Não é o facto isolado de um jovem beber ou experimentar substâncias num evento, mas a repetição sistemática, feriado após feriado, de um padrão que absorve recursos financeiros, tempo de estudo ou de trabalho e saúde física e mental, sem um investimento equivalente em conhecimento, competências ou participação cívica.

O custo deste padrão não é apenas moral ou estético. É mensurável em pelo menos quatro planos, três de risco imediato e um de risco estrutural.

No plano da saúde pública, o consumo excessivo de álcool e de substâncias ilícitas em ambientes de grande concentração humana, associado a relações sexuais desprotegidas, agrava, à escala nacional, indicadores que Moçambique já reconhece como problemáticos, como a gravidez precoce, as infecções sexualmente transmissíveis, incluindo o HIV, e um consumo de álcool que começa cada vez mais cedo, custos que recaem, mais tarde, sobre um sistema de saúde já sobrecarregado.

No plano da segurança, episódios como o da Macaneta, sem controlo de acesso, plano de evacuação ou presença policial e de socorro proporcional, seriam, em qualquer outro país, motivo de investigação séria sobre responsabilidade civil e criminal de organizadores e autoridades. A isso soma-se um risco recorrente na imprensa nestas épocas, o dos acidentes de viação fatais provocados pela condução sob o efeito do álcool nas estradas que ligam Maputo a estes destinos, sobretudo nas festas de fim de ano. A diferença entre um fim-de-semana caótico e uma tragédia com mortos mede-se, muitas vezes, apenas pela sorte.

No plano económico, o tempo e o rendimento de uma geração jovem, já limitados numa economia com escassez de emprego formal, são direccionados de forma desproporcional para o lazer, em vez de poupança, formação ou empreendedorismo, um padrão que compromete, a prazo, a capacidade produtiva do país.

No plano cívico e demográfico, porventura o mais estrutural, está um país cuja maioria da população é jovem, e cujo dividendo demográfico só se torna vantagem se essa juventude tiver conhecimento cívico, disciplina e capacidade de participação informada na vida pública. Uma geração que desconhece a história fundacional do país dificilmente constrói com ele um laço de pertença que resista à emigração, ao desinteresse político ou à manipulação.

É tentador reduzir este tema a uma única causa, a família, a escola, ou “a juventude de hoje”, mas a honestidade analítica exige distinguir níveis de responsabilidade, sem o transformar numa acusação genérica a uma instância única.

A família continua a ser o primeiro espaço de formação de limites e valores, e a erosão da autoridade parental, num contexto de urbanização acelerada e de famílias monoparentais ou ausentes por razões económicas, retirou a muitos jovens a supervisão que antes vinha do agregado alargado. A escola, por seu lado, tem um currículo de educação cívica e história nacional que precisa de ser avaliado não pelo que prescreve, mas pelo que fica retido, e as reportagens que motivam este artigo sugerem um desfasamento sério entre os dois.

Dentro da responsabilidade familiar, há uma dimensão que merece destaque próprio, a presença de adolescentes, menores de idade, nestes ambientes. Não é indiferente que uma faixa etária ainda dependente de supervisão parental circule sem acompanhamento em espaços onde o álcool é generalizado e a exposição a contactos sexuais não regulados é real, como os próprios achados na areia sugerem. Deixar um adolescente ir a uma festa sem perguntar com quem, para onde ou a que horas regressa é também uma decisão dos pais. Exigir vigilância policial sobre os filhos não é a resposta, mas a ausência de limites claros e de conversas honestas sobre risco contribui para o problema tanto quanto a ausência de fiscalização municipal. Atribuir exclusivamente ao Estado a responsabilidade por um menor sem supervisão é evitar uma responsabilidade que começa, primeiro, em casa.

Os municípios, enquanto autoridades licenciadoras de eventos e gestores do espaço público costeiro, têm responsabilidade operacional directa sobre a segurança física de episódios como os da Macaneta, de Bilene ou da Ponta de Ouro, cabendo-lhes definir capacidades máximas, exigir planos de contingência aos organizadores e fiscalizar o seu cumprimento. O pedido público de desculpa do Presidente do Município de Marracuene é um gesto de responsabilização institucional que deve ser reconhecido e enaltecido, e deve ser seguido de medidas concretas, não de um gesto pontual.

Por fim, o próprio sector do entretenimento, promotores de eventos, bares, discotecas e operadores turísticos, beneficia directamente deste padrão de consumo e tem uma responsabilidade ética e comercial raramente discutida, a de não desenhar a sua oferta em torno da maximização do consumo de álcool e da lotação, sem consideração pela segurança ou pelo bem-estar de quem a consome.

Criticar sem apontar saída é pouco útil. Quatro linhas de acção, todas já testadas noutros contextos, parecem particularmente aplicáveis à realidade moçambicana.

Primeiro, o reforço efectivo da educação cívica e histórica, não como memorização para exame, mas como formação de pertença, uma linha que esta coluna já defendeu a propósito dos ritos de iniciação, aplicável ao ensino da história fundacional do país.

Segundo, a regulação técnica, e não política, de grandes eventos, com capacidades máximas fixadas por lei, licenciamento condicionado a planos de segurança e saúde, e fiscalização municipal com poder de suspender eventos incumpridores, aplicada de igual modo a Marracuene, à Bilene, à Praia de Xai-Xai, a Ponta do Ouro e ao Tofo.

Terceiro, o envolvimento da sociedade civil e das confissões religiosas, que mantêm uma capacidade de mobilização sobre a juventude que o Estado, sozinho, não tem, desde que actuem em complementaridade com a escola e a família, e não em substituição moralista das duas.

Quarto, e sem dúvida o mais difícil, a criação de alternativas de lazer que não girem exclusivamente em torno do álcool e da exposição ao risco, desporto organizado, cultura, voluntariado, de forma a dar à energia hoje canalizada quase em exclusivo para a praia e a discoteca outras válvulas de escape legítimas e atractivas.

A Praia da Macaneta vai esvaziar-se até ao próximo feriado prolongado, e o ciclo tende a repetir-se, salvo se o pedido de desculpa for seguido de medidas concretas, e se o desconforto destes episódios for aproveitado para uma reflexão mais ampla sobre o tipo de geração que Moçambique está a formar. Não está em causa negar à juventude o direito ao lazer ou à experimentação própria da idade, que existe e deve ser respeitado. Está em causa perguntar se um país com os desafios que enfrenta pode dar-se ao luxo de ver uma parte significativa da sua energia jovem consumida, feriado após feriado, sem o contrapeso de conhecimento cívico, disciplina e sentido de futuro que lhe permitam continuar, no dia seguinte, a construir o país que tanto celebra aos fins-de-semana.

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