Ucrânia amplia recrutamento de africanos para reforçar suas fileiras na guerra e eleva alertas em vários países

ÁFRICA E MUNDO
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  • Ucrânia treinou rebeldes africanos no uso de drones e mantém presença militar no Sahel

A Ucrânia está a ampliar o recrutamento de estrangeiros para as suas Forças Armadas e África surge como uma das regiões onde Kiev procura homens para engrossar as suas fileiras na guerra contra a Rússia, num momento em que o conflito continua a impor elevados custos humanos e militares ao ado ucraniano. A estratégia ocorre paralelamente ao reforço da presença diplomática ucraniana no continente e à crescente cooperação dos seus serviços de inteligência com grupos rebeldes envolvidos em conflitos com vários governos africanos. Promessas de dinheiro e cidadania europeia estariam a ser usadas para atrair combatentes.

O recrutamento de estrangeiros deixou de ser uma operação informal. O Ministério da Defesa ucraniano mantém uma plataforma oficial destinada especificamente a cidadãos estrangeiros que pretendam ingressar nas Forças Armadas, enquanto a chamada Legião Internacional promove abertamente o alistamento de combatentes estrangeiros.

A estratégia ganhou uma dimensão africana ainda antes da actual expansão. Em 2022, a Embaixada da Ucrânia no Senegal chegou a publicar um apelo para o recrutamento de voluntários. A iniciativa provocou uma reacção imediata das autoridades senegalesas, que exigiram a retirada do anúncio. Na altura, a própria representação diplomática ucraniana reconheceu que 36 cidadãos senegaleses tinham manifestado interesse em combater pela Ucrânia.

Há sinais de que a Ucrânia estará a aliciar jovens africanos para se juntarem ao Exército ucraniano na guerra contra a Rússia. O alegado recrutamento seria uma consequência das grandes perdas humanas registadas nas fileiras ucranianas e estaria a ser feito sob promessas monetárias e de cidadania europeia.

Segundo informações que circulam, a prática não estaria a ocorrer de forma aberta, mas através de redes de intermediários, contactos informais e anúncios dirigidos a comunidades africanas. A mesma informação associa este movimento à recente onda de abertura de embaixadas ucranianas em África e ao estabelecimento de organizações não-governamentais (ONGs) no continente, que poderiam servir de canal de aproximação a potenciais recrutas, ao mesmo tempo que a Ucrania estabelece perigosos laços com grupos rebeldes que desestabilizam muitos países..

O alerta recorda que, para além do poderio bélico russo e do avanço no campo de batalha, pesa sobre a Ucrânia a acusação de uma pesada ideologia racista. Esse factor, a confirmar-se, torna ainda mais preocupante o aliciamento de jovens africanos, que poderiam ser enviados para uma guerra distante, com riscos elevados e sem garantias claras de proteção legal, remuneração efetiva ou cidadania.

A guerra na Ucrânia tem provocado perdas humanas significativas para a Ucrânia, como também para a Rússia. A promessa de cidadania europeia e de pagamentos elevados tem sido usado pelas autoridades ucraniana como principal argumento para atrair jovens em situação de vulnerabilidade.

Alianças com rebeldes que desestabilizam alguns países

O recrutamento de africanos acontece num contexto em que Kiev passou também a desenvolver relações operacionais com grupos rebeldes armados do continente. No Mali, há relatos documentados de cooperação entre a inteligência militar ucraniana e rebeldes tuaregues da região norte.

Segundo investigação do Le Monde, combatentes da Coligação dos Movimentos de Azawad viajaram para a Ucrânia para receber formação na fabricação e utilização de pequenos drones equipados com explosivos. Instrutores ucranianos terão posteriormente deslocado-se ao Sahel para continuar a formação.

A cooperação não se limitou ao fornecimento de conhecimentos técnicos. Elementos ligados à inteligência militar ucraniana reconheceram ter fornecido informação aos rebeldes que contribuiu para uma operação contra forças malianas e combatentes russos ligados ao Wagner. Kiev procurava, assim, atingir interesses russos também fora do teatro de guerra europeu.

É neste ambiente de crescente internacionalização do conflito que o recrutamento de africanos ganha particular relevância. A Ucrânia apresenta oficialmente o alistamento como serviço militar voluntário. Os estrangeiros recebem remuneração, passam por formação militar e podem ser incorporados em diferentes unidades das Forças Armadas.

Investigações recentes documentaram o recrutamento de milhares de africanos por redes ligadas à ucrania, muitas vezes através de falsas promessas de emprego e salários elevados. O fenómeno já levou vários governos africanos a procurar travar o alistamento dos seus cidadãos.

Moçambique deve estar atento

Para Moçambique, a questão não pode ser vista apenas como um problema europeu. A existência de uma estrutura oficial ucraniana para recrutar estrangeiros, a experiência de recrutamento no Senegal e noutros países, bem como a cooperação militar de Kiev com grupos armados africanos justificam atenção das autoridades moçambicanas.

Para especialistas em relações internacionais, é necessário prestar atenção à possibilidade de estas práticas e ações se manifestarem em Moçambique. O país, com uma população jovem e com desafios económicos e sociais, poderia tornar-se alvo de redes de recrutamento que exploram a falta de oportunidades. Por isso, defendem a adoção de medidas políticas e legais, incluindo a aprovação de legislação que proíba expressamente o alistamento de moçambicanos em exércitos estrangeiros.

O país deve, segundo alguns especialistas, acompanhar qualquer tentativa de recrutamento de jovens moçambicanos por forças estrangeiras, sejam elas ucranianas, russas ou de qualquer outro Estado.

Mais do que assumir uma posição na guerra entre Moscovo e Kiev, trata-se de proteger os cidadãos moçambicanos de serem transformados em combatentes de conflitos externos, muitas vezes com promessas que dificilmente podem ser cumpridas, como se viu num passado recente, em relatos de um jovem brasileiro que fugiu do front..

Nesse sentido, entendem os especialistas,Maputo pode avaliar a necessidade de reforçar o quadro legal para impedir o alistamento de cidadãos nacionais em exércitos estrangeiros, bem como responsabilizar intermediários que actuem em território moçambicano para recrutar combatentes.

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