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Alexandre Chiure
O actual secretário-geral da Frelimo, Chakil Aboobacar, é, simplesmente, diferente da maioria dos seus antecessores. Não é arrogante. Não se mete em polémicas e não humilha os próximos. Os seus discursos são direccionados para dentro do partido, aos seus camaradas, aos dirigentes do partido aos vários níveis.
Deferentemente de alguns que passaram por aquele posto, ele sabe ser e estar como número dois da casa. Está a fazer o que se espera de um secretário-geral. Puxar orelhas aos seus camaradas quando é necessário o fazer.
Critica os seus subordinados sempre que preciso para melhorarem o seu desempenho. Lembrar-lhes, sistematicamente, nas suas visitas às bases, de que devem cumprir com o que prometeram ao povo, quer durante as eleições autárquicas de 2023, quer nas das assembleias provinciais, legislativas e presidenciais de 2024. É assim mesmo como as coisas devem ser feitas. Os meus parabéns!
Num dos seus excelentes discursos, Chakil Aboobacar disse que as promessas são para serem cumpridas porque e que quando elas foram feitas ao povo, os camaradas não disseram que não tinham dinheiro para as implementar. É motivo para bater palmas.
Mas, então, onde é que as coisas se estragam? É na acção. Bem que os discursos são bons e é um bom lembrete para quem está a governar, quer a nível dos municípios, quer das províncias e distritos, no sentido de que se devem manter activos e servirem, como deve ser, às massas, mas começam a cansar os ouvidos quando não são acompanhados de acções práticas.
O secretário-geral está, a pouco e pouco, a habituar os seus camaradas de que só fala e não toma medidas para corrigir o mal ou correr com dirigentes arrogantes, corruptos que mais se preocupam com o seu bolso do que em servir às comunidades.
Com os seus discursos cheios de conteúdo, cria uma grande expectativa nas pessoas que esperam ver, depois, algo de concreto e não acontecer nada. O que está mal continua mal. O que está bem continua bem. Não tardará chegar o dia em que os seus camaradas se limitarão, simplesmente, a ouvir e ignorar tudo que ele disser.
Não tardará chegar o dia em que ninguém mais se vai assustar ou se preocupar com as suas críticas, chamadas de atenção ou advertências porque todo o mundo sabe, de antemão, que nada lhes vai suceder. Isso não é bom, não, senhor, representa uma ameaça à sua governação.
Chakil recomenda, por exemplo, que seja abanada a árvore para caírem frutas podres, numa alusão a dirigentes que não trabalham ou de má conduta. Só que, nesse exercício, há algumas dessas frutas que, mesmo assim, não caem e acabam por secar na própria planta. Para caírem, é preciso que alguém as arranque com a ajuda de um arco ou pau comprido. É essa coragem que está a faltar. De o partido desfazer-se de dirigentes corruptos.
Em uma ou duas ocasiões, Chakil Aboobacar fez um discurso violento contra o lambe-botismo. Chegou a dizer que, de tanto escovarem, acabam por ferir as costas dos dirigentes. Entendi esta sua intervenção como uma clara declaração de guerra contra os lambe-botas que pululam em diferentes canais de televisão, mas nada. Uma mão ataca-os e a outra, cheia de carinhos, bate-lhe as costas e diz: vão em frente.
Os lambe-botas estão nos mesmos sítios e com fortes sinais de vitalidade. Estão bem nutridos, indicação clara de que alguém ligado ao poder político ou ao mundo empresarial está a financiá-los. Eles estão cheios de oxigénio e força para defenderem, vezes sem conta, o indefensável. Pessoas que longe das câmaras são pela verdade.
Em suma, há um forte risco de o executivo do partido perder credibilidade dentro e fora da Frelimo e, acima de tudo, a oportunidade de fazer revolução interna, expurgando os dirigentes ou membros indesejáveis. O ambiente político é propício para o efeito. Só falta a acção. Aliás, o SG tem um forte apoio político do presidente do partido.
Quando do encerramento da décima primeira Reunião Nacional de Quadros em Chimoio, Daniel Chapo definiu os limites do campo sobre o quais deve decorrer o jogo. Disse que na Frelimo não há lugar para ladrões, corruptos e traficantes de drogas. Em termos severos, afirmou que no partido não há plateia para lambe-botas. Excelente.
O presidente do partido Frelimo alertou que não se vai tolerar que membros do partido usem o poder conferido pelo partido ou pelo estado para humilhar os cidadãos, sugar os recursos do povo ou exigir pagamentos a quem procura o emprego. Bem dito.
Chapo, que anunciou, na ocasião, o início de uma nova era e de renovação a partir de dentro do partido, determinou, energicamente, que Frelimo não é um santuário de criminosos. Significa que quer o secretário-geral, quer o presidente do partido, têm a situação bem estudada, os problemas e os inimigos internos bem identificados. Como sempre, falta o mais importante de tudo: A acção, o que se segue depois do discurso.
Que os dois estão alinhados, não há dúvidas. Que há sincronismo nos seus discursos, está claro. Insisto que a única coisa que falta é transitar da teoria à prática. Não podem os dois só discursarem. É preciso que, em algum momento, se sentem, tomem decisões e as executem. Operar uma revolução interna propriamente dita e fazer história. Fazer com que o partido se distancie de comportamentos desviantes da parte de alguns membros. Suspender e, até, expulsar membros considerados mal comportados ou corruptos.
Não é novidade para ninguém que há membros que compram a consciência de quem vota, a nível de alguns órgãos internos da Frelimo, para ascenderem a certos cargos. Alguns se tornam membros desses órgãos. Outros ficam em lugares cimeiros ou elegíveis nas listas de candidatos a deputados da Assembleia da República.
Não estou a inventar a roda. A direcção do partido sabe muito bem desta situação preocupante e desabonatória aos processos eleitorais internos. Se é verdade que a Frelimo não é um santuário de criminosos, é preciso acabar com estes níveis corrupção, não através de discursos, mas de medidas duras e concretas. Haja coragem e comprometimento com as mudanças internas que se espera que sejam feitas na Frelimo e no país.



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