A plateia do chico-esperto

OPINIÃO
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Porque é que tendemos a aplaudir quem abusa da nossa confiança?

Shipeni Thovela

Alguém promete ajudar. Muita gente aplaude. A ajuda tarda. E na semana seguinte os aplausos continuam, como se nada fosse.

Quem acompanha a vida pública reconhece a cena, e reconhece o tipo. O povo tem nome para ele: chico-esperto. É o que domina as regras o suficiente para as contornar, lê as pessoas melhor do que lê os contratos e transforma a confiança dos outros em proveito próprio, quase sempre com simpatia e com um bom argumento à mão.

Já tivemos outro nome para uma figura parecida. O chiconhoca, que ficou associado ao discurso de Samora Machel, era o homem que se acomoda e vai levando a vida enquanto os outros constroem. Só que o chiconhoca era censurado pela comunidade. O chico-esperto é aplaudido.

Por que é que uma sociedade que sabe distinguir o certo do errado tende a premiar quem faz do errado um ofício?

A admiração tem origem honrosa, e convém ser justo com ela. Onde as instituições estavam longe e a escassez era a regra, saber safar-se foi uma forma de sobreviver. Quem sabia a que porta bater, quem arranjava solução quando o sistema falhava, merecia respeito. O mal veio depois, quando deixámos de perguntar a quem serve a solução, e o engenho que resolve o problema de todos e o que resolve o de um só à custa de muitos passaram a usar a mesma palavra.

Julgamos pelos resultados, porque se vêem, e raramente pelos métodos, porque dá trabalho conhecê-los. Quem chegou longe parece ter razão, e isso dispensa-nos de investigar como lá chegou. Há ainda o receio de parecer ingénuo: condenar o esperto obriga a admitir que se esteve perto de ser enganado, e é mais cómodo passar para o lado dos que ganham. A honestidade, entretanto, vai sendo tomada por falta de esperteza.

Mas a razão mais verdadeira é a menos confessável. O chico-esperto faz sem pudor aquilo que muitos de nós guardamos para a imaginação: toma o atalho, pede desculpa depois e sai ileso. Confesso que já me apanhei a admirar, por um instante, quem se safou com jeito de uma situação difícil. Aplaudimo-lo, em parte, pela coragem de fazer o que não ousaríamos.

Nenhum chico-esperto prospera sem plateia, e a plateia mudou. Entre muitos jovens, da geração Z e de parte dos millennials, os modelos de vida deixaram de ser o médico, o advogado, o agricultor, o empreendedor ou o activista, e passaram a ser o artista, o dançarino, o músico, o influenciador. A explicação é em parte simples: o médico não aparece no ecrã às sete da manhã, e o cantor aparece. A admiração vai para quem se vê todos os dias, e vê-se todos os dias quem as redes escolhem.

A maioria dos artistas e criadores são profissionais honestos, e admirar quem dança ou canta bem é legítimo e até saudável. O que preocupa é passar do talento, que é real, para o juízo moral, que ninguém lhe pediu. Quem dança melhor não fica, por isso, a saber viver melhor, e quem tem milhões de seguidores não passa a ter razão em tudo. Há autoridade que nasce da competência e das regras, e há a que nasce da devoção a uma pessoa. Num palco assim, essa devoção serve de álibi ao chico-esperto.

Neil Postman avisava, ainda antes da internet, que uma sociedade pode ser arruinada por aquilo que ama e não por aquilo que odeia, e que o perigo está em tratar tudo, da política à educação, como entretenimento. Hoje isso cabe no bolso: o acesso às redes passou a contar entre as despesas que se defendem até ao fim, mesmo quando o orçamento aperta.

E o que se faz com esse acesso? Quem lê os comentários debaixo de uma polémica encontra de tudo: vozes ponderadas, que as há, e uma maré de insulto e de certezas sem informação. Insultar não custa nada, e o que não custa nada multiplica-se. Um debate que se faz a gritar dificilmente forma quem peça contas ao chico-esperto.

Daí a lealdade de adepto. O público cria, com figuras que nunca o conhecerão, uma intimidade que só existe de um lado, e que os sociólogos estudam há décadas. Quando o ídolo erra, o seguidor sente a crítica como um ataque pessoal, porque o ídolo passou a fazer parte de quem ele é. Defende-o como se defende uma equipa de futebol: ninguém espera que o adepto condene o seu avançado por uma falta, só que aqui, muitas vezes, já não se trata de uma falta no relvado. É por isso que o chico-esperto raramente é abandonado pelos seus: quem o defende não está a julgar um acto, está a defender-se a si próprio.

Tem-se visto, e é o que mais custa ver. Quando um ídolo é acusado de um crime tão grave como a violação, uma parte dos seus fãs não espera pelo que a justiça apurar: volta-se contra a vítima e põe em causa a sua palavra, as suas razões, o seu comportamento. Não está em causa saber se o acusado é culpado ou inocente: isso cabe aos tribunais. Está em causa o que se faz a quem acusou. Em vez de se pedirem explicações a quem foi acusado, exigem-se justificações a quem acusa. E cada vez que isso acontece, outras vítimas aprendem, com razão, que falar sai caro.

Convém, como advogado, separar duas coisas. A presunção de inocência é regra do processo e deve ser respeitada: ninguém é culpado antes de sentença transitada em julgado. Mas protege quem é acusado, e não autoriza a julgar quem acusa. Ao duvidar da vítima na praça, a multidão faz o que a lei proíbe a um tribunal: decide antes de ouvir. E a presunção de inocência também não obriga ninguém a aplaudir. Pedir explicações, esperar pela decisão dos tribunais e, entretanto, não fazer do acusado um herói são atitudes perfeitamente compatíveis com ela.

O verbo cancelar popularizou-se nas redes e conservou a lógica de lá: sem processo, sem contraditório, sem proporção. Aplica-se com facilidade a quem se afasta do grupo, da causa ou da opinião do momento, e falha com a mesma facilidade quando o visado é querido, por graves que sejam os factos. Quem cancela, cancela por simpatia, e por isso nem sempre é coerente. Quando o castigo depende de quem somos e não do que foi feito, deixa de servir a justiça e a comunidade perde autoridade moral. A esperteza ganha licença.

Admito duas objecções sérias a tudo isto. A primeira é que talvez não aplaudamos tanto quanto parece: muita gente encolhe os ombros, e o cinismo (“são todos assim”, “ao menos faz alguma coisa”) é provavelmente mais frequente do que a admiração. Para quem paga a conta, porém, a diferença é pequena, porque o resultado é o mesmo: o abuso fica mais barato e a confiança mais cara.

Essa conta paga-a quem está fora de cena. Cada promessa solidária que demora a cumprir-se torna a seguinte mais difícil. Doa-se menos, pergunta-se mais, associa-se menos gente, e sofrem primeiro as causas que dependiam de que ainda se confiasse. As leis existem porque a confiança é escassa, mas a lei é a última defesa. A primeira é o juízo da comunidade, feito de aplauso e de censura, e quando essa cede nenhum código chega.

A segunda objecção é que sempre houve ídolos. Os pais de hoje tiveram os seus, e há adultos que seguem influenciadores com igual devoção. Seria injusto, e impreciso, fazer da juventude a ré. Há jovens médicos, agricultores, activistas e empreendedores que dão exemplo todos os dias, e o que lhes falta é palco.

Um país não se faz apenas de quem entretém. Faz-se de quem cura, planta, constrói, ensina e julga, e todos eles começaram por ser jovens que viram alguém que quiseram imitar. Se o que vêem premiado é a esperteza sem escrúpulo, concluem que a integridade é um luxo de quem não sabe fazer melhor. Nenhuma aula de educação cívica compensa isso.

Proponho um teste simples, o da luz do dia: aquilo que fiz, faria-o à vista de todos e na presença de quem foi afectado? O engenho que cria passa; o que se aproveita precisa de escuro. Aplique-se a nós próprios, aos que admiramos e aos que seguimos. E depois vêm os hábitos: perguntar de onde vem e para onde vai, exigir contas a quem pede confiança, escolher com mais cuidado a quem damos palco.

O trabalho é partilhado. A comunicação social e as escolas podem dar palco a quem faz, e não só a quem se exibe, e as profissões podem mostrar-se, porque uma profissão que ninguém vê não inspira ninguém. Quem tem milhões de seguidores tem, queira ou não, uma responsabilidade pública, e deve exercê-la. O entretenimento tem o seu lugar; o que não pode é ficar com toda a admiração. Quanto ao aplauso, que é nosso, podemos dá-lo a quem o merece: ao professor, ao enfermeiro, ao agricultor, ao pequeno empreendedor que nunca será tendência e continua a sustentar o que há de sólido no nosso dia-a-dia.

O chico-esperto é um papel, e os papéis só duram enquanto há plateia. A cada um de nós cabe, todos os dias, o gesto mais pequeno e mais decisivo: aplaudir, calar ou dizer que não.

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