Billy Ray lança plataforma digital para revolucionar a venda de música, beats, bilhetes e a gestão de estúdios

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  • Do quarto ao estúdio: uma carreira construída de forma autodidacta

O produtor musical moçambicano Billy Ray decidiu levar para o espaço digital uma das suas principais críticas à indústria musical nacional: a dificuldade de os artistas e produtores rentabilizarem o próprio trabalho. Através do DoReMi, uma plataforma que desenvolveu, pretende facilitar a venda de músicas, álbuns e instrumentais, disponibilizar bilhetes electrónicos para espectáculos e permitir o agendamento e pagamento de serviços de estúdios de gravação. A ferramenta procura, entre outros objectivos, reduzir os conflitos nas transacções de beats e dar aos criadores maior controlo sobre a comercialização das suas obras.

Elísio Nuvunga

Conhecido pela sua intervenção crítica em defesa da profissionalização do Rap moçambicano, Billy Ray aposta na tecnologia para enfrentar problemas que, na sua perspectiva, continuam a limitar o crescimento da indústria musical no país. A plataforma DoReMi surge como uma tentativa de aproximar a criação artística do mercado, permitindo que músicos e produtores comercializem directamente os seus conteúdos e acompanhem as receitas geradas pelas vendas.

Desenvolvida pelo próprio produtor, a plataforma permite aos artistas disponibilizar as suas obras, estabelecer preços e partilhar ligações de acesso com potenciais compradores, independentemente da sua localização geográfica. O sistema regista as transacções e apresenta informações sobre receitas, movimentos financeiros e estatísticas de vendas, oferecendo aos utilizadores instrumentos para acompanhar o desempenho comercial dos seus conteúdos.

A iniciativa procura responder a uma queixa recorrente entre artistas independentes: o investimento de tempo, dinheiro e criatividade na produção musical nem sempre se traduz em retorno financeiro. Para Billy Ray, a possibilidade de vender obras através de uma plataforma digital pode ajudar a alterar essa realidade e criar novas oportunidades de negócio para os profissionais do sector.

“Os artistas reclamam muito pelo facto de fazermos música e não ganharmos nada. Então, esta plataforma veio para mudar isso”, explicou o produtor, defendendo que o DoReMi poderá facilitar a venda de músicas e álbuns, bem como o estabelecimento de parcerias comerciais. Na sua perspectiva, a iniciativa poderá beneficiar não apenas os artistas, mas também a própria cultura moçambicana.

A plataforma permite, igualmente, a comercialização de álbuns e instrumentais. Neste último caso, o sistema procura reduzir os conflitos entre produtores e artistas relacionados com a aquisição de bases instrumentais. De acordo com Billy Ray, quando um comprador efectua o pagamento, o beat é automaticamente retirado da disponibilidade para venda, evitando que outros interessados adquiram o mesmo conteúdo através da plataforma.

“Aqui já não há problemas com os artistas que manifestavam interesse em alguns dos meus beats e levavam muito tempo para pagar, às vezes até meses. Isso prejudicava-me, porque havia outros artistas interessados nos mesmos instrumentais, enquanto alguém já tinha escolhido um deles, mas não pagava. Não fica bem vender o mesmo beat a duas pessoas; não é profissional. Mas, com esta plataforma, já não há barulho: quando a pessoa paga o beat na aplicação, recebe-o na hora, e ele desaparece da plataforma. Essa é a grande vantagem. Caso queira alterar ou acrescentar alguma coisa, é aí que contacta o produtor”, explicou.

Para além da comercialização de música, o DoReMi integra funcionalidades de venda de bilhetes para espectáculos, com emissão de códigos QR que permitem a validação dos ingressos à entrada dos eventos. A plataforma possibilita, igualmente, o agendamento e o pagamento de serviços de estúdios de gravação, uma funcionalidade que Billy Ray já utiliza no seu próprio estabelecimento, a AmazinBox Multimédia.

“Com a aplicação, já não pego em dinheiro. Ela faz tudo e fornece relatórios de todas as actividades. Permite também gerar ligações e códigos QR para os bilhetes quando acontecem os espectáculos”, acrescentou o produtor.

Distribuição digital para aproximar artistas do público

Uma das vantagens apontadas por Billy Ray é a possibilidade de os artistas alcançarem públicos fora dos principais centros de comercialização musical. Segundo o produtor, os canais tradicionais de distribuição limitam, por vezes, o acesso de ouvintes residentes noutras províncias aos trabalhos disponibilizados em Maputo.

Com o DoReMi, os interessados podem aceder aos conteúdos através de uma ligação à Internet, incluindo a partir do estrangeiro, o que, na perspectiva do produtor, amplia o alcance comercial da música produzida em Moçambique.

Billy Ray afirma que a receptividade inicial tem sido positiva, sobretudo por parte de pessoas que vivem longe da capital e que passaram a ter acesso facilitado a determinados álbuns e instrumentais.

“Ser produtor em Moçambique não é nada fácil”

Considerado um dos melhores produtores musicais moçambicanos de Rap, com particular destaque para o underground, Billy Ray considera que, apesar do potencial da digitalização para transformar o sector, a produção musical em Moçambique continua marcada pela desvalorização dos profissionais e pela falta de reconhecimento consistente dos seus contributos.

“Ser produtor em Moçambique não é nada fácil, porque não somos muito valorizados”, afirmou, lamentando a falta de união e solidariedade entre os profissionais da área.

“Quando estás a começar, ninguém te abraça, apoia ou incentiva. Fingem que não te conhecem, mas, quando estás no topo, quando estás a fazer sucesso, todos te seguem porque és a estrela do momento. Usam-te, exploram-te e, quando cais, todos desaparecem. Não há união entre artistas”, lamentou Billy Ray.

Do quarto ao estúdio: uma carreira construída de forma autodidacta

Hoje com 40 anos de idade, Billy Ray começou a produzir música em 2001, ainda adolescente, tendo iniciado o trabalho profissional em estúdio em 2004. Sem formação numa escola de música, afirma ter desenvolvido as suas competências de forma autodidacta, através da experimentação e do trabalho realizado num computador, no seu quarto.

“Eu nunca tive outro emprego que não fosse a produção musical. Desde que comecei a fazer beats, nunca fiz mais nada. Até já fui à escola para me formar, só para orgulhar ou agradar à minha família. Eu vivo de Rap. Considero-me uma pessoa autodidacta porque nunca frequentei nenhuma escola de música. Tudo o que sou é fruto da experiência que adquiri e do feeling que tenho para fazer as coisas e criar ainda mais”, explicou.

Ao longo da carreira, trabalhou com diferentes artistas e identifica a música “País do Pandza”, de Sleam Nigga, como um dos trabalhos que mais contribuíram para dar visibilidade à sua produção. Destaca, igualmente, trabalhos associados a Duas Caras, G2 e Mbenga MC.

“São muitos os trabalhos que já fiz e vários os sucessos alcançados. Mas a música ‘País do Pandza’, de Sleam Nigga, deu-me muita visibilidade. Aquilo foi um boom. São vários hits. Tens também ‘Vale do Rei’, de Duas Caras com G2, sem esquecer Mbenga MC, com quem trabalho há muito tempo”, recordou.

Apesar das dificuldades que identifica no sector, o produtor afirma que consegue viver da música e da produção de instrumentais. Na sua perspectiva, a organização, a responsabilidade e a seriedade são fundamentais para construir uma carreira sustentável.

“Eu vivo de Rap. Vivo da arte, da produção. Toda a minha família vive disso e depende disso. Tenho casa e filhos que vão à escola graças ao dinheiro que ganho com este trabalho. O segredo é organizares-te e seres profissional. Já fui desorganizado no passado e, quando és desorganizado, as pessoas não te levam a sério. As pessoas pagam o que cobro sem reclamar porque sabem que vou fazer aquilo que querem”, declarou.

A concluir, Billy Ray manifestou a ambição de, num futuro próximo, juntar vários artistas para desenvolver projectos musicais e gerar mais receitas através do DoReMi. O produtor pretende reforçar a sua organização profissional e explorar as possibilidades de colaboração e partilha de ganhos proporcionadas pela plataforma.

“Com esta plataforma, pretendo organizar-me ainda mais para explorar tudo o que ela oferece. Quero ver se consigo trabalhar com os artistas para produzirmos álbuns e músicas da minha autoria e negociarmos os ganhos. Agora, por exemplo, já falei com o Mbenga MC e estamos a trabalhar nisso através de uma EP (Extended Play)”, revelou.

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