El Niño e os riscos de uma seca prolongada na bacia do Zambeze ameaçam produção da HCB

DESTAQUE SOCIEDADE
Share this
  • Numa altura em que a hidroeléctrica já se encontrava a recuperar da crise de 2024 e 2025
  • Barragem encontrava-se a recuperar após uma quebra de produção de cerca de 31% em 2025
  • Kariba, que ajuda a alimentar os caudais do Zambeze, tinha apenas 34,58% da sua capacidade em Outubro
  • Redução da geração hidroeléctrica pode comprometer exportações de energia, receitas do Estado e segurança

A possibilidade de prolongamento do fenómeno El Niño está a colocar sob pressão as perspectivas de produção de energia eléctrica da Hidroeléctrica de Cahora Bassa (HCB), numa altura em que Moçambique continua dependente da geração hidroeléctrica para sustentar grande parte do seu sistema energético. Uma redução prolongada da precipitação na bacia do Zambeze, num contexto em que a hidroeléctrica estava a tentar recuperar depois de uma quebra de produção de cerca de 31% na sequência de uma crise de precipitação entre 2024 e 2025, poderá comprometer a recuperação dos níveis de armazenamento da albufeira e obrigar a empresa a rever os seus planos de produção, com potenciais consequências para o abastecimento interno, as exportações de electricidade e as receitas do Estado.

Elísio Nuvunga

O alerta foi lançado pelo director nacional de Gestão de Recursos Hídricos, Agostinho Vilanculos, à margem do seminário de capacitação de jornalistas sobre a época chuvosa e ciclónica 2026/2027, realizado em Macaneta, distrito de Marracuene, província de Maputo.

Segundo o responsável, a possibilidade de redução da precipitação nas regiões centro e sul do País, associada ao fenómeno El Niño, poderá afectar os níveis de armazenamento das principais barragens, incluindo Cahora Bassa, cuja capacidade de produção depende directamente da disponibilidade de água para alimentar as turbinas.

Apesar dos riscos, Vilanculos assegurou que estão a ser adoptadas medidas preventivas, através de diferentes cenários de gestão dos caudais, com o objectivo de garantir a continuidade da produção de energia eléctrica e evitar uma redução acentuada das reservas da albufeira.

“O que os nossos colegas estão a fazer na HCB é uma gestão de cautela. Há cenários que estão definidos. Nós achamos que esta época chuvosa ainda está em condições de funcionar em pleno, mas acautelando as projecções futuras”, explicou.

Um dos factores que merece atenção é a situação da barragem de Kariba, localizada a montante de Cahora Bassa, entre a Zâmbia e o Zimbabwe. A infra-estrutura desempenha um papel importante na dinâmica dos caudais do rio Zambeze, pelo que a sua capacidade de armazenamento e os volumes de água libertados influenciam a disponibilidade hídrica a jusante.

Dados mais recentes da Autoridade do Rio Zambeze (ZRA), referentes a 26 de Outubro de 2026, apontavam para apenas 34,58% da capacidade útil de armazenamento. Apesar de representar uma situação melhor do que a registada no mesmo período de 2025, quando o armazenamento era de 10,28%, o indicador demonstra que a barragem continua a operar com reservas limitadas.

De acordo com o director nacional, Kariba mantém condições para continuar a libertar água para a produção de energia, contribuindo para alimentar os caudais do Zambeze e retardar a redução dos níveis de armazenamento em Cahora Bassa.

Vilanculos explicou que a gestão dos caudais exige um equilíbrio entre as necessidades de produção das duas infra-estruturas. Enquanto a HCB necessita de descarregar entre 900 e 920 metros cúbicos de água por segundo para assegurar uma produção com bons níveis de eficiência, Kariba precisa de aproximadamente 700 metros cúbicos por segundo para alimentar as suas próprias operações.

“A HCB pode estar a descarregar, por exemplo, cerca de 900 a 920 metros cúbicos por segundo para produzir com um nível de eficiência bom, e Kariba também precisa de cerca de 700 metros cúbicos por segundo. Então, há um balanço que vai retardar aquilo que é o nível de rebaixamento da HCB”, esclareceu.

Contudo, o responsável advertiu que o cenário poderá tornar-se mais preocupante caso o El Niño persista para além da presente época chuvosa, obrigando as autoridades e os operadores das barragens a adoptar medidas adicionais de gestão e conservação dos recursos hídricos.

“Se o El Niño prevalecer, como estava a dizer, e insistir no próximo ano, então aí já novas medidas podem entrar em acção”, alertou.

Uma quebra de 31% na produção em apenas um ano

O alerta ganha maior dimensão quando confrontado com o desempenho recente da própria HCB. Em 2024, a empresa produziu 15.753,56 gigawatts-hora (GWh) de energia eléctrica. Em 2025, num contexto de seca severa na bacia do Zambeze, a produção caiu para 10.921 GWh, uma redução de aproximadamente 30,7%, equivalente a menos 4.832,56 GWh num único ano.

Em 2025, apesar da redução da produção, a HCB conseguiu assegurar os compromissos de fornecimento de energia ao mercado nacional e regional. A empresa reportou receitas de aproximadamente 344 milhões de dólares e um resultado líquido de 112 milhões de dólares, tendo contribuído com cerca de 300 milhões de dólares para os cofres do Estado, através de impostos, taxas e dividendos.

Uma redução adicional da produção poderá limitar a quantidade de energia disponível para comercialização, pressionar as receitas provenientes das exportações e reduzir a contribuição financeira da empresa para o Orçamento do Estado.

“Se o El Niño prevalecer, como estava a dizer, e insistir no próximo ano, então aí já novas medidas podem entrar em acção”, alertou.

O risco estende-se igualmente à segurança energética nacional. A HCB possui uma capacidade instalada de 2.075 megawatts (MW), sendo a principal infra-estrutura de geração hidroeléctrica do País. Uma parte substancial da sua produção é destinada ao mercado regional, sobretudo à África do Sul, pelo que uma eventual redução da geração poderá obrigar a uma gestão mais apertada dos compromissos comerciais e das necessidades de abastecimento interno.

A preocupação surge num contexto em que as previsões climáticas apontam para um episódio forte de El Niño durante a época chuvosa 2026/2027. De acordo com o comunicado especial do Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres (INGD), de 21 de Setembro, o fenómeno poderá estar entre os mais intensos desde 1950, com o período crítico previsto entre Outubro de 2026 e Fevereiro de 2027, podendo prolongar-se até Maio de 2027.

Como exemplo dos primeiros sinais de irregularidade, Vilankulos apontou a fraca precipitação registada durante o mês de Outubro, período em que algumas zonas receberam menos de cinco milímetros de chuva, contra uma média habitual de aproximadamente 35 milímetros.

Apesar disso, esclareceu que a ocorrência do El Niño não significa ausência total de chuvas, uma vez que outros factores atmosféricos, incluindo a formação de ciclones tropicais, poderão alterar as previsões e provocar precipitações intensas em períodos relativamente curtos.

Promo������o
Share this

Facebook Comments