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- Comité Central sem debate, nem decisões
- Chapo sai de mais um Comité Central em que não conseguiu arrancar o poder
- “Temos que deixar o chefe governar” marca o tom interno
Com o país, literalmente, a ‘boiar numa maré de incertezas’, o Comité Central da Frelimo era esperado com alguma expectativa. O Comité Central da Frelimo reuniu-se na semana passada, cumpriu o calendário estatutário, mas, no essencial, adiou o País. O órgão máximo entre congressos, que deveria ser a arena natural para o debate estratégico sobre o rumo da nação, transformou-se num palco de monólogos, reverências e silêncios calculados. O encontro realizado entre 09 e 11 de Abril confirmou uma tendência que se vem consolidando naquele partido: a substituição do debate político por uma lógica de alinhamento em torno da liderança.
Evidências
Considerado o órgão mais importante da Frelimo, no espaço entre os congressos, o Comité Central da Frelimo começa a ter a sua mística esvaziada. Num órgão que deveria funcionar como espaço privilegiado de reflexão estratégica e produção de pensamento político, o que se observou foi um ambiente de contenção, com poucas intervenções críticas e uma clara predominância de discursos de validação.
A estrutura do encontro, meticulosamente desenhada para esvaziar qualquer iniciativa crítica, reduziu a reflexão colectiva a um punhado de intervenções pontuais de decanos, maioritariamente da ala do antigo Presidente Joaquim Chissano, que ousaram fazer questionamentos esporádicos. Ainda assim, foram intervenções pontuais, incapazes de alterar o tom dominante de um encontro onde o contraditório parece cada vez menos valorizado.
Apesar desse ambiente, alguns temas sensíveis conseguiram emergir. As vozes que se fizeram ouvir, como as de Carlos Agostinho do Rosário, Teodoro Waty, Castigo Langa ou Chichava, marcadamente do consulado de Joaquim Chissano, acabam por surgir isoladas num ambiente dominado por aplausos e reverências.
Entre os temas que conseguiram romper o silêncio dominante esteve a questão da segurança nacional, com uma corrente interna a defender que o Governo deve aproveitar o actual contexto para reduzir ou mesmo eliminar a presença de tropas ruandesas no território nacional.
O argumento central é simples e colheu muito apoio, menos resposta do presidium. Esta corrente de debate defendeu que a segurança de um Estado não pode ser delegada a forças estrangeiras sem implicações para a soberania. Foram questionados os gastos, os compromissos e até os valores já gastos até aqui.
Contudo, a ausência de uma discussão aprofundada sobre o tema evidencia o quanto o partido ainda evita enfrentar questões sensíveis de forma colectiva.
Outro ponto relevante foi o debate em torno da relação com o Fundo Monetário Internacional (FMI). Num momento em que correntes de opinião a ensaiar sinais de maior autonomia económica, algumas vozes, sobretudo ligadas à ala Nyusi, defendem a manutenção das relações, sublinhando que o país continua dependente da credibilidade externa que o FMI proporciona.
Neste capítulo, destacou-se a intervenção do antigo primeiro-ministro, Carlos Agostinho do Rosário, que defendeu, de forma indirecta mas clara, que o FMI continua a ser um “selo de garantia” indispensável.
A sua posição traduz uma visão da ala Nyusi que nos últimos anos afinou a sua política à medida das exigências do FMI, na esperança de desbloquear novos programas de apoio. Segundo do Rosário, mesmo que o país não recorra directamente ao financiamento do Fundo, a validação das suas políticas por esta instituição é determinante para o acesso a outros financiamentos internacionais.
A posição expõe uma tensão dentro do próprio partido, onde, por um lado, há uma narrativa política de independência económica, e, por outro, a realidade de um país que continua dependente da validação externa para financiar a sua economia.
O que ficou claro, no final da reunião, é que a Frelimo continua a ter dificuldade em transformar o seu enorme capital humano numa verdadeira inteligência colectiva. O Comité Central deveria ser o espaço para avaliar o estado da nação, antecipar crises e produzir soluções. Mas a realidade mostra um partido que confunde planificação formal (Plano Quinquenal, manifesto, metas sectoriais) com capacidade real de executar e corrigir rumo.



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